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27/09/2009

A hora dos flautistas: o partido Die Linke alemão

El País
Juan Gómez
Gregor Gysi, um ex-comunista suspeito de colaborar com a Stasi (polícia secreta da extinta Alemanha Oriental), e Oskar Lafontaine, antigo dirigente social-democrata, são duas pessoas com passados muito diferentes que lideram o partido Die Linke ("A Esquerda"), uma formação forte com apenas dois anos que aspira governar

  • Monica Flueckiger/Reuters - 23.jan.2003

    Oskar Lafontaine (foto) fundou junto com Gregor Gysi o Die Linke, partido de esquerda alemão

Sobre o palco do antigo mercado de cavalos de Hamelin ainda está pendurado o anúncio de um espetáculo relacionado com o músico da ficção que deu fama mundial ao município. A última representação de verão do conto dos irmãos Grimm foi no domingo passado. Na terça-feira já não se tocava flauta; um violão acompanhava um pequeno recital de músicas como "Hasta Siempre, Comandante". Abria caminho para o que já anunciavam dezenas de cartazes nas ruas: "Venha Gregor!", referindo-se a Gregor Gysi, que junto a Oskar Lafontaine dirige o grupo parlamentar do partido Die Linke no Bundestag (câmara baixa do Parlamento alemão).

Quando Gysi finalmente chegou, com 35 minutos de atraso, encontrou cerca de 300 moradores da "cidade do flautista" dispostos a suportar a garoa persistente para ouvir o orador vindo do Leste. Seu partido espera superar em muito os 10% de votos nas eleições gerais do próximo domingo, depois de ter surpreendido nos últimos comícios de Sarre e Turingia. Para isso Gysi veio ao Estado ocidental da Baixa Saxônia. Gysi sabe divertir e arrancar aplausos. Uns dias antes, a dirigente do Partido Social Democrata (SPD) Andrea Nahles não conseguiu reunir mais de 180 pessoas na mesma praça. Com um pouco de schadenfreude (regozijo pela desgraça alheia), um policial local afirmou: "E isso porque não estava chovendo".

A história do Die Linke começa antes de sua fundação no ano de 2007. Ela transcorre em paralelo ao processo de integração das duas Alemanhas. Oskar Lafontaine é copresidente e cofundador. Gysi é sua cabeça visível no Leste. A dupla é desigual: Gysi e Lafontaine são, respectivamente, um alemão do Leste e um do Oeste, um ex-comunista e um ex-dirigente social-democrata. O primeiro, advogado, foi funcionário da extinta República Democrática Alemã (RDA): dizem que ele foi "colaborador informal" da temida polícia política Stasi. É difícil encontrar em Die Linke um político da ex-Alemanha Oriental e com mais de 45 anos sobre quem não pesem acusações parecidas. Gysi sempre negou-as categoricamente.

Lafontaine, por sua vez, percorreu como social-democrata todas as instituições democráticas da República Federal da Alemanha (RFA). Foi prefeito de Saarbrücken, primeiro-ministro de Sarre, deputado federal, presidente do SPD e, em 1990, candidato eleitoral do partido à chancelaria. Por último, foi ministro da Fazenda com grande responsabilidade sobre a Economia durante o primeiro governo de Gerhard Schröder (SPD), em 1998. Ficou no cargo poucos meses, cheios de tensões e desavenças que acabaram com a paciência do endurecido político. Renunciou. Depois de 40 anos de militância social-democrata e sete de dissidência interna, Lafontaine saiu em 2005. Nesse mesmo ano fundou o partido WASG, derrubou o SPD do governo da Renânia do Norte-Vestfalia e elaborou uma plataforma federal com os herdeiros do antigo partido único da RDA. Nasceu então o dueto do "comandante Oskar e o animador Gregor", como foram chamados, no espanhol da Sierra Maestra cubana, pelo jornal conservador "Frankfurter Allgemeine Zeitung". O partido Die Linke começou seu caminho recebendo 8,7% dos votos nas eleições gerais de 2005 e obteve 52 cadeiras a mais do que tinham os ex-comunistas: de duas passaram a 54.

O muro de Berlim caiu há 20 anos. A marteladas, sem que fosse necessário um só tiro. A Alemanha atual resultou da união da República Federal Alemã, fundada em 1949 nas zonas ocupadas pelas potências ocidentais, com a República Democrática Alemã da zona oriental soviética. Depois da capitulação incondicional da Alemanha na 2ª Guerra Mundial, a União Soviética, Estados Unidos, França e Reino Unido haviam dividido assim o devastado território do inimigo nazista. Em 1990, veio a unificação e chegou a hora de integrar ambas as repúblicas na Lei Fundamental da RFA. O então o chanceler ocidental, o democrata-cristão Helmut Kohl, prometeu "paisagens exuberantes" na economia para seus novos compatriotas orientais. No Leste, a frase histórica virou sinônimo de sarcasmo.

Os partidos existentes na parte ocidental (CDU democrata cristão, os social-democratas, os liberais e até os verdes) absorveram logo as formações partidárias parecidas que tinham carta legal sob o regime socialista pró-soviético da República Democrática Alemã. Os partidos e movimentos sociais alheios à linha oficial haviam passado 40 anos numa oposição engessada diante do onipresente Partido Socialista Unificado (SED). Recomposto e sem um parceiro rico ocidental, este modificou suas estruturas e, em 1990, conservou parte do considerável patrimônio da rede política de seu antecessor. Entretanto, o poderoso partido único da RDA foi proscrito dos governos regionais até 1998. A primeira coalizão com o SPD foi firmada em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. É um dos cinco "novos Estados federados" do que antes era a RDA, nos quais o PDS conseguiu se manter como uma força política a ser considerada. Por outro lado, os ocidentais o viam como a relíquia mais exagerada do passado comunista da outra Alemanha.

O casamento formal do WASG de Lafontaine com o PDS foi celebrado no verão de 2007, com os protestos e distúrbios originados na raiz da cúpula do G-8 em Heiligendamm. O Die Linke ficou com os representantes que o PDS já tinha em todos os parlamentos do Leste e na cidade-Estado de Berlim, onde governa desde 2001 em coalizão com o SPD. Já em janeiro de 2008, as eleições em Hesse e na Baixa Saxônia representaram um marco para o partido recém-fundado na conquista do Oeste. Entraram em ambos parlamentos ocidentais, coisa que antes só haviam conseguido na cidade-Estado não muito relevante de Bremen em 2007. Desde então, o Die Linke teve êxito nas eleições de Hamburgo e Sarre (zonas ocidentais), onde há três semanas obtiveram uma vitória arrasadora com 21,3% dos votos. As pesquisas preveem cadeiras regionais na Renânia do Norte-Vestfalia, Renânia-Palatinado e Schleswig-Holstein. Se as previsões se cumprirem, só o bastião bávaro resistirá a eles entre os Estados ricos e tradicionalmente conservadores do sul para completar o quebra-cabeça dos 16 Estados federados.

O Die Linke se confirmaria assim como um dos projetos de integração mais bem sucedidos desde a queda do muro. O cientista político Jochen Staadt, que estuda o processo de unificação alemã no Instituto Otto Suhr de Berlim, resume o assunto com a célebre citação apócrifa do ex-chanceler Willy Brandt (SPD) depois da queda do muro: "Une-se agora o que deveria estar unido".

Como em todos os casamentos, não faltam desavenças. Basta visitar os comícios do partido no Leste e compará-los aos do Oeste. Na segunda-feira passada - na véspera de sua ida a Hamelin -, Gregor Gysi esteve num centro comercial do bairro de Friedrichsfelde, no "Leste selvagem" berlinense, distrito de Lichtengerg, onde seu partido foi o mais votado nas gerais de 2005 (35,5%) e onde a parlamentar Gesine Lötzsch obteve excepcionais 42,9% dos votos diretos.

Aqui, as "paisagens exuberantes" de Kohl são torres uniformes de concreto ao longo de amplas avenidas. Outra herança da RDA. Cerca de 600 moradores desses Plattenbauten se aproximaram para ver Gysi. Sob uma tenda de plástico branco montada para a ocasião, o deputado percorreu os temas de sua campanha para um público afim e, no mínimo, sexagenário. Em resumo: a retirada de 4.200 soldados alemães do Afeganistão; desfazer os cortes sociais do governo (anterior) de Schröder; salário mínimo; maior carga fiscal para os mais ricos. A clientela era composta por aposentados, antigos empregados e funcionários públicos da ampla classe média do que foi a RDA. No geral, anciãos simpáticos e mais dispostos a conversar com estranhos do que os moradores de Berlim Ocidental. Como o professor aposentado Hans Lübke, por exemplo, que não hesitou em relatar suas experiências e sua biografia. "Quarenta e um anos dando aulas na RDA, formando as crianças com valores muito diferentes dos de hoje...". Questionado se aquele regime era uma ditadura, ele foi categórico: "Não". Aqui, qualquer momento do passado foi melhor.

Quando saiu do SPD, Oskar Lafontaine se rodeou de outros social-democratas descontentes com a linha política tomada por Schröder, assim como ele. Contou também com sindicalistas, gente disciplinada e com experiência organizacional. O novo partido atraiu, além disso, as mais diversas correntes comunistas ou antiglobalização. O veterano Lafontaine viu-se à frente de um conglomerado dogmático e difícil de governar. Seus ex-companheiros social-democratas o criticaram, dizendo que o estilo populista e com frequência incendiário de Lafontaine servia também para pescar nos rios revoltos da extrema direita.

Lafontaine não compareceu ao encontro de Hamelin, ainda que a Baixa Saxônia fique, como Estado ocidental, em seu terreno. Mas estava presente o deputado federal Diether Dehm, que concorre à reeleição e é a figura mais inaudita do Die Linke. Doutor em Letras, é compositor de algumas canções de enorme sucesso na Alemanha. No melhor estilo Hugo Chávez, Dehm cantou o refrão e dançou o "Hasta Siempre, Comandante", interpretado pelo chileno Pablo Ardouin.

Depois do recital, respondeu com um "não" rotundo quando questionado se era comunista. Então, por que aplaudiu Fidel Castro? "Admiro Fidel, é um revolucionário pragmático". Assim como você? "Eu sou um revolucionário democrático e pragmático". Pode-se concluir que não considera Fidel democrático? Dehm olhou para cima, com um gesto irritado e virou-se para voltar ao palco. Pode-se? Rindo, ele respondeu: "Fidel está em guerra com os Estados Unidos."

Dehm foi deputado federal da "ala esquerda" do SPD e até compôs o hino da campanha de Willy Brandt. Também teve que se defender, com mais ou menos sucesso, da acusação de ter espionado seus antigos companheiros ocidentais de partido para a Stasi. Isso lhe custou a militância. Os serviços secretos internos (Verfassungsschutz), encarregados de procurar terroristas e outros inimigos do Estado, reconhecem que todos os parlamentares federais de Die Linke estão "em observação".

A grande diferença existente entre os atuais políticos dos partidos CDU e SPD e os líderes de Die Linke ficou patente no soporífero duelo televisivo entre a chanceler Angela Merkel (CDU) e seu adversário e ministro de Relações Exteriores Frank-Walter Steinmeier (SPD), que até agora governavam em coalizão. Um jornalista fez piada pedindo contribuições "para pagar um curso intensivo de retórica e oratória para Merkel e Steinmeier, ministrado por Gysi e Lafontaine".

Os políticos chegados ao Die Linke no Oeste são diferentes e difíceis de controlar. Os do Leste são pragmáticos e, no vocabulário político alemão, "realistas". O PDS foi formado desde o princípio com uma vocação institucional. Quer tenham êxito ou não no próximo domingo, Gysi e Lafontaine enfrentarão duas encruzilhadas. A primeira, impor a disciplina no partido. A segunda, como querem colaborar com os social-democratas. O SPD entendeu que suas possibilidades de governar dependem de seu ex-adversário Lafontaine.

Na terça-feira passada, um carrilhão surpreendeu Gysi quando ele terminava seu discurso na praça de Hamelin. "Esse vota em mim, eu garanto". Ouviram-se muitas risadas. Tratava-se da figura de bronze do flautista de Hamelin, que sai três vezes por dia de uma fachada na praça.

Tradução: Eloise De Vylder

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