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27/09/2009

Angela Merkel, uma desconhecida

El País
Lluís Bassets
A chefe do governo alemão é a vacina contra a antipolítica e o populismo. Representa todo o contrário de Sarkozy e Berlusconi. A dúvida é se, no próximo domingo, depois do fechamento das urnas, ela surgirá como exemplo de uma direita social ou da chanceler de ferro

Angela Merkel não mudou. Outros mudaram com o cargo. Não ela. Tal como chegou à chancelaria em 2005, chega agora às eleições. Com o mesmo estilo, seu perfil baixo e sem arestas ou sua capacidade limitada para entusiasmar os alemães. Foi o que demonstrou em seu debate televisivo cara a cara com Frank-Walter Steinmeier, o vice-chanceler e ministro de Relações Exteriores, agora rival e também candidato à chancelaria. Da mesma forma que aconteceu na campanha de 2005 contra Schröder, ainda com a silêncio imposto pela Grande Coalizão, esta mulher bastante preparada para dirigir um partido e para governar não consegue seduzir as câmeras e o grande público. Numa época de sedutores e vendedores de facas sem fio, Merkel não tem glamour. Se ela consegue cativar boa parte de seus admiradores na Alemanha, que são muitos, é precisamente pelo contrário, por causa do rosto tristonho e inexpressivo de patinho feio, de seus gestos de aborrecimento diante das câmeras ou de seu vestuário despojado de qualquer capricho ou pretensão: está claro, ela é o que é e deve-se valorizá-la por suas ações e resultados. Também, é verdade, pela súbita luz que ilumina seu rosto quando sorri abertamente ou por sua ironia inteligente, porém mordaz, distante de qualquer vulgaridade. É o oposto do que representam os modelos de Sarkozy ou Berlusconi, duas espécies, certamente de distinta qualidade moral, da fauna contemporânea do poder que compartilham o narcisismo, arrogância e ego inflado, características alheias à psicologia da chanceler. Merkel é a vacina contra a antipolítica e o populismo.

  • Pawel Kopczynski/Reuters - 18.set.2009

    Angela Merkel, atual chanceler alemã, consegue cativar boa parte de seus admiradores



Ela não mudou, mas vive um momento de mudança, uma primavera dos camaleões na qual não tem outro remédio a não ser ajustar-se a seus congêneres. A ruína do neoconservadorismo de George W. Bush, a queda das ideias econômicas que levaram à crise financeira e à recessão, e finalmente a chegada de Barack Obama à Casa Branca obrigaram os políticos de todo o mundo a uma reconversão acelerada, em alguns casos cômica e em outros patética. Merkel não ficou de fora dessa contorção, na qual com frequência se viu obrigada a desmentir-se em poucas horas: aconteceu assim com suas afirmações sobre a fortaleza do sistema financeiro alemão há um ano, no meio das turbulências de Wall Street. Sarkozy chegou ao Eliseu como o presidente liberalizador que garantiria o crescimento e a capacidade de compra dos franceses; mas depois de 15 de setembro de 2008 viu-se obrigado a enfrentar a recessão com o velho arsenal do intervencionismo gaullista e impulsionar propostas de esquerda que incomodam a seus próprios seguidores.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, alcançou a liderança em Bruxelas graças a Bush, Aznar e Blair com o objetivo de impulsionar o programa neoconservador e neoliberal e agora repete, depois de ter jurado em sua Santa Gadea particular, que não é o assassino do Estado de bem-estar e da proteção social. Ela também fez coisas assim, mas um pouco menos e de qualquer forma sem a exibição de descaro e falta de vergonha de outros.

A chanceler chegou com as pretensões de desregulação extrema, consagradas no congresso de seu partido dois anos antes, já reduzidas pelos resultados eleitorais e pelas exigências de seus sócios social-democratas. Ainda que agora proponha uma aliança de centro-direita igual à que fez em 2005, quando não podia temer uma vitória tão justa que a obrigasse a se coligar com seus adversários, esta reiteração não vai contra o espírito do tempo. Seu potencial parceiro de coalizão, o liberal Guido Westerwelle, assegura que "no Bundestag há quatro partidos social-democratas": o seu, o FDP, naturalmente é o único que não o é. "Em caso de dúvida, à esquerda", dizia uma manchete da revista Der Spiegel há alguns dias. E o diretor de Die Zeit, Joseff Joffe, insistiu na mesma ideia de que "conservadores e democratas-cristãos estão indo em direção à esquerda". E acrescentou: "Estão nos dando uma social-democracia sem social-democratas. Transformaram-se em ecologistas e partidários do Estado de bem-estar; lentamente mas com toda a consciência estão se apropriando das reivindicações culturais da esquerda, como os direitos dos homossexuais e o feminismo". No caso de Merkel, o maior paradoxo é que sua proposta de aliança com os liberais se deve a razões práticas, não ideológicas: ela mesma se oferece para se transformar na ala social-democrata que modere os partidários radicais do mercado livre num governo de coalizão.

Em 2005, ela era comparada, para seu desgosto, com Margaret Thatcher: "Estive contra a unidade alemã e por isso esta não é a comparação mais adequada", dizia na época. Agora, por outro lado, quando a chamam de social-democrata, são muitos os que temem, sobretudo na esquerda e no mundo sindical, que finalmente surja de verdade uma dama de ferro que queira desafiar seu poder como fez Thatcher e aborde com radicalismo essas reformas do Estado de bem-estar que ficaram a meio caminho graças à Grande Coalizão. Outros, principalmente os liberais, não só esperam como pensam em trabalhar nesse sentido se conseguirem governar com ela. No panorama alemão, onde há um milhão e meio de postos de trabalho precários por conta das medidas tomadas pelo governo frente à crise, teme-se que a coalizão negra e amarela seja a bandeira das demissões em massa.

A campanha atual, como apresentada por Merkel, parece destinada a uma silenciosa ocupação do centro do cenário, numa espécie de exercício de hipnose destinado a adormecer o eleitorado para que vote mecanicamente em quem conduziu o país durante os últimos quatro anos com bastante fortuna e conta com um prestígio e uma imagem internacionais que tornam inútil experimentar outras alternativas. Ela não quer nem sabe jogar nos extremos e menos ainda nas margens. O seu lugar é o meio campo. Vale para seu país, seu governo, seu partido e inclusive para sua própria posição política pessoal. Merkel é física de profissão, mas a virtude que melhor desenvolveu pertence ao mundo da química, da qual seu marido, Joachim Sauer, é professor: é uma política com muita valência, conceito que define a capacidade dos elementos químicos de se combinarem uns com os outros.

E essa é a carta decisiva que ela está jogando nessas eleições: nenhum outro candidato, nenhum outro partido tem margens mais amplas. A definição de sua primeira opção de governo, uma coalizão com os liberais do FDP, contém também uma mensagem subliminar de reafirmação de sua firme colocação no centro: ocupo a posição medular do campo político e posso me coligar ora com uns, ora com outros.

Exceto com Die Linke, é claro; essa esquerda tão útil agora como partido maldito e como espantalho, e que constitui também o exato contraponto para sua oposição política e sua mentalidade ideológica. A formação de Oskar Lafontaine e Gregor Gysi é o partido do gasto, da crítica cruel, dos duros valores e das propostas radicais pertencentes ao mundo das ideologias, ao século 20 na realidade, enquanto que o seu é o partido do pragmatismo, da capacidade de consenso e coalizão. A proposta de Merkel substitui a ideologia pela topografia política, na qual a posição no arco político é que determina o conteúdo dos programas e não o contrário.

Não tem sido nada fácil alcançar esta cota de poder estratégico, que coincide agora com o final de seu primeiro mandato como chanceler. Antes de chegar e esse ponto ela se viu obrigada a superar uma carreira de obstáculos que fortaleceu seus músculos e imagem. Não pode optar pela chancelaria em 2002, quando provavelmente já estava perfeitamente preparada para assumi-la. Os barões bávaros e renanos, católicos e reacionários, que manejavam o negócio impediram sua marcha na época para lançar um deles, o cacique bávaro Edmundo Stoiber, que enfrentou as astúcias e a habilidade do último chanceler social-democrata, Gerhard Schröder. A derrota deixou o campo livre para Merkel para a ocasião seguinte, em 2005, mas apenas conseguiu passar o limite: sua vitória foi disputada e chegou a negociar com o preço da chancelaria, que Schröder ainda queria reter com todo tipo de plano nessa Grande Coalizão inevitável.

Esta vez, por outro lado, as coisas parecem muito melhor para essa corredora de fundo, este motor a diesel da política europeia. Ninguém discute agora a liderança dentro da coalizão social-cristã CDU-CSU, nem há motivo algum para fazê-lo. Os parceiros social-democratas partem da pior posição nas pesquisas desde a fundação da República, por baixo de 28% que obtinham nos tempos em que quem vencia nas urnas era o Velho, o fundador da República e do CDU, Konrad Adenauer. A única alternativa à sua candidatura requer coalizões negativas que contém maiores contradições que a própria fórmula com a que governou com os social-democratas desde 2005: é muito difícil ligar verdes e liberais, com suas brigas sobre a energia nuclear, por exemplo, para completar a maioria do governo com os social-democratas; e também é difícil que verdes e esquerdistas do Die Linke encontrem um terreno em comum com o SPD, numa frente de esquerdas que atua como um espantalho em tempos de crise.

Daí que as duas únicas fórmulas sólidas, a aliança natural entre CDU-CSU com a FDP e o casamento de conveniência entre o CDU-CSU e SDP, significam manter Merkel na chancelaria. Se ela ganhar esta segunda vez, a vitória será inteira sua. Então terá as mãos livres que o semanário britânico "The Economist" pede a ela "para ver o que é capaz de fazer". Por isso ainda tentam driblá-la, como faz o partido irmão da CDU, a CSU bávara. Os social-cristãos do sul, que ainda conservam a hegemonia, mas que se encontram na queda eleitoral, prefeririam uma campanha mais arisca e uma maior polarização, tanto em direção aos social-democratas como aos liberais, os dois parceiros potenciais de Merkel no próximo período.

Ainda que continue sendo uma desconhecida, não são suas ações e ideias práticas que se tornaram realidade em suas mãos. Pode ser que algumas possam ser atribuídas à fórmula com a que governou, da mesma forma que outras podem ter sido geradas pela cultura política alemã. Mas há algumas que pertencem diretamente a seu patrimônio político e biográfico. Sua simpatia pelos Estados Unidos, muito própria da Alemanha saxã e hanseática a qual ela pertence, contrasta certamente com o antiamericanismo visceral que Schröder quis incitar com a guerra do Iraque, mas também, já dentro do conservadorismo, com o nacionalismo renano e bávaro, mais francês e inclusive gaullista, e portanto suscetível a Washington. Explica-se, naturalmente, pela experiência soviética própria de qualquer cidadão que tenha vivido do outro lado da Cortina de Ferro.

Merkel entende como poucos políticos alemães os sentimentos de poloneses e tchecos por ocasião do giro na política exterior que fez Obama. O mesmo cabe dizer de sua própria política exterior, na qual quis rimar o realismo da diplomacia e dos negócios com a exigência em relação aos direitos humanos, nem sempre com êxito. Se tudo isso se somar a sua identificação sem matizes com Israel, permitiria compor o quadro de um internacionalismo idealista próprio de uma neoconservadora europeia. Mas não é esse o caso: o respeito pelas instituições e procedimentos, sua cultura de consenso e sua alergia à polarização, a aproximam por sua vez de Obama e de sua aposta por uma democracia deliberativa, na qual a discussão e a argumentação, com a convicção racional como momento final, são os complementos imprescindíveis das urnas.

A benção do novo presidente norte-americano ela já obteve numa tomada escondida de uma câmera de televisão na qual Obama dava por certa sua vitória. Não é nenhuma questão pessoal. Angela Merkel exerce sobre a esquerda o mesmo magnetismo que Tony Blair exercia em sua época, desde Downing Street, para a direita mundial. Pode-se dizer, às vezes, que esta senhora surgida do frio vem de outro mundo. Não é estranho que nos perguntemos quem ela é realmente. Uma direita social, que acredita no papel regulador do Estado e nos limites para o mercado, que não faz concessão alguma ao populismo e é abertamente hostil ao autoritarismo, que faz bandeira dos direitos humanos e do respeito escrupuloso à regra do jogo? Ou não será talvez a última isca antes do aparecimento de uma chanceler de ferro, desta vez liberal e com saias, que desmonte desta vez para valer o que construiu o fundador da Alemanha moderna?

Tradução: Eloise De Vylder

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