UOL Notícias Internacional
 

29/09/2009

Irã dispara mais mísseis e aumenta a tensão internacional

El País
Ángeles Espinosa
Em Teerã
O Irã testou na segunda-feira os dois mísseis de maior alcance de seu arsenal, com capacidade para alcançar Israel, as bases dos EUA no Oriente Médio e partes da Europa. Embora oficialmente se tratassem de manobras militares de rotina, o lançamento transmite uma imagem de desafio às grandes potências, às vésperas da retomada de conversações nucleares na próxima quinta-feira em Genebra. Além disso, o fato de a exibição de força ocorrer justamente depois de ser revelado que Teerã está construindo uma segunda usina de enriquecimento de urânio, sobre a qual não havia informado, aumenta as dificuldades desse encontro.
  • Ali Shayegan/Reuters

    A televisão iraniana noticiou na segunda-feira
    (28) que o país testou mísseis de longo alcance Shahab-3. Os foguetes têm alcance de cerca
    de 2.000 quilômetros, podendo atingir, em tese, Israel e bases americanas no Oriente Médio



"As Forças Armadas dispararam com êxito um míssil Ghadr 1, que é uma versão melhorada do Shahab 3, com alcance de 1.800 km, e um míssil Seyil de duas etapas que utiliza combustível sólido", anunciou o general Hosein Salami, em declarações divulgadas pela mídia estatal. Trata-se do terceiro disparo de foguetes em dois dias de manobras, mas, à diferença dos anteriores, estes constituem uma ameaça potencial para seus vizinhos, como reconheceu o militar: "Qualquer alvo na região está a seu alcance", disse.

Não demoraram a chegar as críticas das principais capitais europeias. Paris pediu ao Irã que "pare imediatamente" essas "atividades profundamente desestabilizadoras". Berlim as qualificou de "preocupantes", enquanto em Londres o secretário das Relações Exteriores, David Miliband, falou em "provocação" e salientou que "a grande incógnita da semana" é a atitude que o Irã vai adotar durante as conversações da próxima quinta-feira sobre seu programa nuclear. Para os EUA também se trata de uma provocação, segundo um porta-voz da Casa Branca.

"Qualquer coisa que se faça nesse contexto constitui uma preocupação", declarou por sua vez o alto representante europeu, Javier Solana, que encabeçará a delegação do Grupo dos Seis (G6) que se reunirá nesse dia em Genebra com o negociador nuclear iraniano, Said Yalili. O G6 (formado por EUA, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha) pede que o Irã esclareça de uma vez por todas as ambiguidades e suspeitas que seu programa nuclear desperta.

"Todo esse exercício é para a galeria. Duvido que impressione alguém", interpretou um embaixador ocidental acreditado em Teerã. Seria questão de transmitir uma mensagem de firmeza tanto para consumo interno quanto para os meios de comunicação internacionais. Na opinião dele, "tanto os militares iranianos como os que sem dúvida os observam do espaço sabem que o maquinário bélico que exibem não é rival para o de seus inimigos, EUA e Israel".

Por mais que o general Salami tenha insistido depois de cada uma das fases das manobras na fabricação local dos mísseis, todos eles são variantes de protótipos chineses e russos. Além disso, tanto o Seyil 2 como o Shahab 3, que apresentaram como de longo alcance, ficam a muita distância dos 3.500 km a partir dos quais se entra nessa categoria. Mas isso não é o importante. Além dos detalhes, o enorme esforço tecnológico-militar iraniano tem uma mensagem política. Em um momento de intensas pressões internacionais para que revelem todas as suas cartas nucleares, os governantes iranianos desejam passar uma imagem de força. Se as grandes potências pensavam que iam sentar-se em Genebra diante de um interlocutor frágil e disposto a aceitar imediatamente suas condições, estão muito equivocadas.

O regime iraniano pode ter perdido a credibilidade devido às polêmicas eleições de junho passado, mas ainda mantém um férreo controle dos instrumentos de poder. E o pilar fundamental desse poder é atualmente a Guarda Revolucionária (os Pasdaran), uma força de elite criada pelo aiatolá Khomeini para defender a república islâmica e que não só dirige o programa nuclear e armamentista, como uma parte cada vez maior da economia iraniana.

Na própria segunda-feira a imprensa local informava que o consórcio Etemad-e Mobin, afiliado à Guarda Revolucionária, comprou metade mais uma das ações da companhia nacional de telecomunicações. A operação, de US$ 7,8 bilhões, é a maior já registrada na Bolsa de Teerã e situa mais um setor estratégico sob a batuta desse exército paralelo que muitos iranianos responsabilizam pela repressão aos protestos pós-eleitorais. Definitivamente existem outros interesses em jogo além da imagem internacional.

Além disso, recorrer a cartadas nacionalistas e agitar a bandeira da ameaça externa dá bons resultados no Irã. O presidente do Parlamento, Ali Larijani, considerado um conservador moderado, disse na segunda-feira que o G6 procura "impor sua vontade" ao Irã com o assunto da nova usina de enriquecimento de urânio. O veterano e cauteloso Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, cujas diferenças com o atual governo são notórias, pediu que a UE "deixe de se desculpar". E inclusive o dirigente de oposição Mir Hosein Mousavi sentiu-se obrigado a manifestar sua oposição a um eventual aumento das sanções contra seu país.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves Os foguetes podem alcançar Israel, as bases americanas no golfo Pérsico e a Europa. França, Alemanha e Reino Unido condenam a "provocação" do governo de Teerã

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