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30/09/2009

A estátua de Zelaya no banheiro das mulheres

El País
Pablo Ordaz Enviado especial a Tegucigalpa (Honduras)
Partidários do presidente de Honduras defendem seus símbolos em uma guerra desigual contra os golpistas

Veja a cronologia da crise

  • Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição


Naquele último domingo de junho, quando os golpistas chegaram à Casa Presidencial, abriram os quartos, esquadrinharam o fundo duplo das gavetas, buscaram com urgência provas que atenuassem seus atos. Não é difícil imaginar seu regozijo quando, atrás de uma porta fechada a chave, encontraram, olhando-os com um sorriso sob o grande bigode preto, uma estátua do presidente que acabavam de tirar do país a ponta de pistola.

Ali estava a prova de que Manuel Zelaya pretendia se perpetuar no poder, colocar sua estátua de fibra de vidro no meio do jardim, junto com os velhos próceres da pátria - Francisco Morazán, José Cecilio del Valle ou Policarpo Bonilla. Era preciso chamar o pessoal da imprensa e lhes contar.

E os chamaram, e lá foram eles com suas câmeras e seu blocos para certificarem-se que sim, Zelaya estava prestes a se colocar no nível dos heróis do século 19 quando conseguisse que a população - mediante uma consulta - o autorizasse a continuar no poder, contra o que dita a Constituição. A notícia saiu em todos os jornais, acompanhada da foto da estátua, mas alguns dias depois o assunto foi esquecido e a escultura foi guardada de mau jeito em um armazém escuro.

Passaram-se exatamente três meses. É sexta-feira. O repórter espera, passeando pelo pátio da Casa Presidencial, uma entrevista com Roberto Micheletti, o político sem futuro nem carisma que aproveitou a ação dos militares para ocupar um gabinete que as urnas jamais lhe teriam dado. Numa sexta-feira como esta, três meses atrás, estive aqui entrevistando Manuel Zelaya, eufórico naquela noite porque acreditava ter evitado uma tentativa de golpe graças "ao apoio dos EUA e da população de Honduras". Ao fundo ouviam-se então os violões dos partidários que se dispunham a pernoitar na Casa Presidencial para defender com sua vida o presidente de um possível ataque dos militares. Faz três meses. E que três meses!

  • Arte UOL
O repórter pergunta onde fica o banheiro, e um funcionário muito amável - há alguém que não o seja neste país? - indica equivocadamente o das mulheres. E, ao entrar, lá está, protegida dos olhares masculinos, a estátua de Manuel Zelaya.

"Moça, por que a estátua está aqui?"

E a mulher da limpeza, com um sorriso nos lábios, conta uma batalha que não sairá nos livros de história nem ocupará sequer uma linha na memória dos que - oxalá seja logo - poderão começar a esquecer esse horror dos militares nas ruas, o toque de recolher, o confronto entre vizinhos, os rapazes feridos a bala nos corredores dos velhos hospitais. Uma batalha que é uma metáfora do que acontece em todo o país. A resistência das pessoas comuns em sua luta desigual contra 7.000 soldados e 10.000 policiais, contra as dez famílias nada solidárias que controlam o país, contra uma classe política que naquele último domingo de junho comemorou com grandes exageros, feliz porque os militares haviam sequestrado, de pijama, o presidente constitucional do país.

E a senhora explica que elas, as 25 funcionárias do serviço de limpeza da Casa Presidencial, resgataram um dia do fundo do armazém escuro a estátua do presidente e a puseram ali, junto a um lavabo no banheiro feminino.

"E por que aí?"

"Porque nós, mulheres, somos mais pacíficas que os homens e aqui ninguém vai danificar a estátua do senhor presidente. Aqui ele está protegido. Se estivesse em outro lugar, talvez o levassem para queimá-lo."

"Como Zelaya se comportava?" "O senhor presidente sempre se comportou bem. Não era orgulhoso. Parava para conversar conosco. Assim como aos outros trabalhadores do país, também aumentou o nosso salário mínimo em 50%. Mas atrasou três meses, dissemos e ele acertou. E se alguma tinha um problema, o parava e lhe contava, e ele escutava. De fato, quando começou a confusão da quarta urna [a consulta popular para promover sua reeleição], lhe dissemos..."

"O que lhe disseram?" "Que isso não era bom, que podia se meter em confusão."

"E se meteu..." "É como diz o refrão: quem anda com coiotes aprende a uivar."

"As más companhias... dizem que Chávez..." "Sim senhor, foi assim. Se enganou, mas não foi arrogante. E aumentou nosso salário. Por isso o continuaremos protegendo, para que não o queimem."

A noite vai vencendo a tarde e Micheletti continua sem aparecer. Uma funcionária de seu gabinete diz que talvez amanhã, que hoje está muito cansado, mas que está muito interessado em responder às perguntas deste jornal, "que está sendo tão duro com ele".

Não muito longe daqui, o presidente constitucional se dispõe a passar mais uma noite sobre um colchão de ar, com os olhos avermelhados pelos gases tóxicos ou simplesmente pela sujeira que vai se acumulando em seu refúgio na Embaixada do Brasil. O horário radiofônico obrigatório diz que são 8 horas, toque de recolher. Começou a chover.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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