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30/09/2009

"Não vejo Zelaya como meu pai, mas como um líder", diz Xiomara, filha do presidente de Honduras

El País
Pablo Ordaz Em Tegucigalpa

Veja a cronologia da crise

  • Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição


Em uma segunda-feira há três meses um comando do exército de Honduras arrebentou a porta da casa do presidente Manuel Zelaya e, a ponta de fuzil, o sequestrou para tirá-lo do país. A única pessoa da família que naquele momento se encontrava na casa era sua filha mais moça, Xiomara, 24 anos. Na última segunda-feira, a filha do presidente Zelaya - de boina vermelha e camisa polo listrada - passou a manhã junto ao perímetro de segurança instalado pelo governo golpista de Roberto Micheletti em torno da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, onde continuam refugiados seu pai, sua mãe, um de seus três irmãos e um grupo de seguidores. Xiomara tentava na segunda-feira que os militares a deixassem passar com um carregamento de roupas e alimentos.

El País: Qual é a situação de sua família?
Xiomara Zelaya:
As medidas de pressão, o assédio, o terror na mídia... tudo isso incentiva o temor. Mas ter um presidente que se mantém firme em suas convicções, que não vai decepcionar o povo hondurenho até conseguir a restituição do sistema democrático... Ter um presidente assim nos dá força...

El País: Mas você está falando como uma militante, e não como a filha do presidente Zelaya... Como filha, o que sente?
Xiomara Zelaya:
Veja, é um pouco difícil expressar meus sentimentos como filha, porque para poder superar tudo isso, para poder me sentir espiritualmente forte, tive de me desligar do sentimento paternal. Se o sentisse como pai, seriam mais dolorosas as coisas que estão ocorrendo agora. Me desliguei. E foi doloroso me desligar. Mas consegui me transformar em mais uma, em uma cidadã a mais que reclama seus direitos, que reclama justiça para o país. Por isso não o vejo agora como meu pai, mas como um líder.

El País: Você também sentiu o assédio do governo Micheletti?
Xiomara Zelaya:
Desde o primeiro dia. Congelaram nossas contas bancárias sem ordem legal, os cartões de crédito... As nossas e as de toda a família. Fizeram-nos acreditar que havia ordens de captura contra minha mãe, contra mim e meus tios... senti-me fustigada. Mas o mais terrível foi quando quisemos ir a El Paraíso para seguir até a fronteira entre Nicarágua e Honduras para ver meu pai. Diversos empresários se reuniram e durante a madrugada dispararam para o hotel onde estávamos. Disseram-nos que se às 6 da manhã não saíssemos dali haveria sangue. Foi uma perseguição selvagem.

El País: Você estava na madrugada de 28 de junho, quando os militares assaltaram sua casa...
Xiomara Zelaya:
Sim, eu estava lá naquela noite. Era o único familiar que estava com ele e cada dia, ainda mais hoje, sinto que revivemos esses momentos. Quando se suspendem as garantias, porque também foram suspensas naquele momento. Quando se fecham os meios de comunicação... Quando se impõe o toque de recolher. Cada dia revivo isso.

El País: Temeu por sua vida?
Xiomara Zelaya:
Mais que pela minha vida, temi pela de meu pai. Eu sabia que entravam em casa não para me buscar, mas ao meu pai. E quando escutei os disparos, temi pela vida dele. Esse foi o momento mais crítico para mim. Não estava preparada para viver aquele momento. Agora sabemos do que eles são capazes e estamos preparados.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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