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03/10/2009

"O PC Chinês deve se democratizar ou ruirá", diz especialista em ciência política

El País
José Reinoso Em Pequim
Zhiqun Zhu nasceu perto de Xangai em 1966, ano em que começou a Revolução Cultural, o movimento lançado por Mao Tse-tung para reavivar o espírito revolucionário e se livrar de seus adversários políticos, e que só acabou com sua morte em 1976. De nacionalidade chinesa, Zhiqun Zhu vive nos Estados Unidos desde 1994. É especialista em Ásia Oriental e professor de ciências políticas e relações internacionais na Universidade Bucknell, na Pensilvânia (EUA).

El País: Como o senhor vê as mudanças que a China experimentou nos últimos 60 anos?
Zhiqun Zhu:
A transformação, especialmente desde 1979, foi tremenda. Mao Tse-tung e Deng Xiaoping nunca teriam imaginado que a China pudesse mudar de forma tão espetacular. A mudança completa de uma nação em um período tão curto de tempo não tem precedentes na história da humanidade.

El País: Quais foram as maiores conquistas e os maiores erros do Partido Comunista?
Zhiqun Zhu:
As maiores conquistas do partido são ter tirado 300 milhões de pessoas da pobreza e ter elevado a posição internacional da China. Mas o país está cheio de contradições. O aumento do nível de vida foi acompanhado de uma crescente desigualdade. Os maiores erros incluem ter criado uma sociedade corrupta e injusta, ter se concentrado na economia, desprezando o meio ambiente, e ignorar a democratização política.
  • AFP

    Foto de 1969 mostra militares e civis em Pequim em uma parada militar na praça Tiananmen


El País: O Partido Comunista Chinês terá de caminhar para um sistema democrático?
Zhiqun Zhu:
O Partido Comunista mudou muito em si mesmo. Já não é só o partido da classe trabalhadora. Absorveu gente de todos os estratos sociais. Transformou-se no "partido da população". E dentro dele o processo de decisões se tornou mais democrático e previsível. Mas o PCC ainda não permite a existência de partidos rivais. A liberalização econômica e o controle político não podem coexistir por muito tempo. O partido avança para a democratização, ou ruirá devido às crescentes tensões e os conflitos sociais.

El País: As autoridades adotaram agora medidas de segurança maiores do que durante os Jogos Olímpicos.
Zhiqun Zhu:
Os recentes distúrbios em Xinjiang (província no oeste) e os violentos incidentes que ocorrem em muitos lugares do país conduziram a estas duras medidas de segurança. O governo se preocupa muito com sua face e sua imagem. Quer garantir que tudo transcorra sem problemas. Ficaria envergonhado se as comemorações fossem interrompidas por qualquer protesto ou incidente.

El País: Os líderes chineses temem que possa ocorrer um ataque terrorista?
Zhiqun Zhu:
Esta pode ser uma das considerações. Mas um ataque terrorista não é a maior preocupação. É mais provável que se trate da possibilidade de que cidadãos descontentes, trabalhadores desempregados ou agricultores pobres, cujas queixas sobre a corrupção e outros problemas não foram resolvidas, recorram a decisões radicais ou violentas para fazer ouvir seu mal-estar. Essa gente não está com humor para celebrar os 60 anos da Revolução e podem tentar diluir as comemorações e envergonhar os líderes do partido. É irônico e triste que o governo tenha precisado tomar medidas de segurança tão estritas. Destruiu o ambiente festivo. Um governo que tem medo de sua própria população e que utiliza medidas de segurança tão fortes para se proteger de sua população é realmente problemático.

El País: Como o senhor vê a China daqui a 20 anos?
Zhiqun Zhu:
Em mais 20 anos a China terá se transformado em uma das principais potências em um sistema internacional multipolar. Será uma potência dominante na Ásia. Será capaz de projetar seus poderes até qualquer canto do planeta. É provável que, então, tenha criado zonas políticas especiais nas quais se realizem eleições para líderes locais e provinciais. Se o PCC ainda estiver no poder, provavelmente terá evoluído para um partido mais aberto, democrático e transparente.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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