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04/10/2009

Intelectuais domados?

El País
José Andrés Rojo
O compromisso público do escritor mudou numa sociedade fragmentada e globalizada. A reflexão política e moral continua sendo um desafio obrigatório

  • Karel Navarro/AP - 12.dez.2008

    Mario Vargas Llosa referiu-se de maneira crítica aos intelectuais de nossos dias em seu último livro

Quando Mario Vargas Llosa (Arequipa, 1936) apresentou há pouco tempo seu último livro em Madri, referiu-se de maneira crítica aos intelectuais de nossos dias. "Eles não sentem necessidade de se comprometer", disse ele, "acreditam que os sistemas democráticos já garantem por si só a democracia, mas não é assim... Na América Latina tudo está por se fazer, a democracia não está aí para ficar". Em "Sables y Utopías" ["Sabres e Utopias"] (Aguillar), Carlos Granés reuniu meia centena de artigos, selecionados entre cerca de 400, que Vargas Llosa escreveu nos últimos anos e cujo fio condutor vem ressaltado no subtítulo: "Visões da América Latina". É aí, do outro lado do Atlântico, onde as democracias não terminam de fincar raízes sólidas, que "o intelectual tem a obrigação de intervir no debate cívico".

Santiago Roncagliolo, que como Vargas Llosa nasceu no Peru, só que alguns anos mais tarde (em Lima, em 1975), é também novelista e escreve reportagens e opina nos meios de comunicação. Em diferentes livros seus ele mergulhou num inferno: percorrer, reconstruir e tentar explicar as diferentes tramas que gravitam em torno da organização terrorista Sendero Lluminoso. Em seu livro "Abril Rojo" ["Abril Vermelho"] (Alfaguara), as atividades do grupo são o pano de fundo para uma trama policial com crimes horrendos; em seu ensaio "La cuarta espada" ["A Quarta Espada"] (Debate), ele se aproxima da figura de Abimael Guzmán, o líder da organização, para desentranhar os porquês de um conflito que deixou cerca de 70 mil vítimas. "Há muita gente que continua escrevendo sobre política", comenta, "o que não há tanto são autores que defendam uma ideia de uma maneira radical, como faz Vargas Llosa com o liberalismo, ou García Márquez com o socialismo. O século 20 se encarregou de mostrar os limites de ambas as opções, e com certeza minha geração viu como o socialismo cubano não soube conviver com a liberdade e como as democracias latino-americanas não conseguem acabar com a pobreza. Assim, tampouco podemos ser tão entusiastas".

"O modelo de intelectual mudou drasticamente", disse Edmundo Paz Soldán. Nascido em Cochabamba em 1967, este novelista boliviano embarcou em "Palacio Quemado" ["Palácio Queimado"] (Alfaguara) na aventura de escrever o que ocorreu em seu país entre agosto de 2002 e outubro de 2003: a queda do segundo governo de Gonzalo Sánchez de Lozada e a emergência de um forte movimento indígena liderado por Evo Morales. A coisa pública, os caminhos de seu país, a reflexão sobre a fragilidade da democracia em países com imensas diferenças sociais, portanto, não são questões estranhas para ele. "Cada vez é mais difícil ocupar um lugar na praça pública como o que ocupam autores como Carlos Fuentes ou o próprio Vargas Llosa", explica. "A realidade se fragmentou, e ainda que sejam muitas as vozes que se pronunciam sobre o que está acontecendo, já não existe este intelectual com vocação para se transformar em consciência moral da sociedade."

Em "Huesos em el desierto" ["Ossos no Deserto"] (Anagrama), Sergio González Rodríguez (México D.F., 1950) explorou com todo o luxo de detalhes os assassinatos de mulheres que acontecem em Ciudad Juárez. Em "El hombre sin cabeza" ["O Homem sem Cabeça"], o que fez foi se ocupar das decapitações realizadas pelos fundamentalistas islâmicos ou pelos assassinos do narcotráfico no México. Violência em estado puro. "Não se pode reduzir a temática latino-americana ao debate populismo-liberalismo", comenta. "O intelectual que hoje se enfrenta diariamente com a coisa pública encontra problemas muito diversos e deve utilizar estratégias distintas. Não parece ser uma época de grandes compromissos, mas sim de responsabilidades cada vez mais específicas".

Vargas Llosa, certamente com razão, reclama a urgência que a democracia na América Latina tem de compromissos sólidos e concretos. González Rodríguez, para tratar do malogrado desenvolvimento democrático nessas áreas, aponta alguns problemas: "A voracidade pelos lucros e a exploração das oligarquias e das corporações, a corrupção, o grande negócio da ilegalidade que une o crime organizado e o poder político e econômico no âmbito da globalização". Resultado: "Multiplicaram-se a violência, a pobreza, a desigualdade, e cada vez são menores as possibilidades das novas gerações frente ao futuro."

Lolita Bosch, que nasceu em Barcelona em 1970, tem um amor tão grande pelo México tão castigado hoje em dia que transformou a batalha de divulgar a riqueza desse país em parte de sua rotina cotidiana. "O compromisso mais importante que um escritor tem é o de fazer bem seu trabalho", opina. "Ir a fundo, ser meticuloso, preciso, levá-lo a sério". Em seguida introduzi um nuance: "Creio que um intelectual tem por obrigação ter um papel social, mas não creio que todos os escritores sejam intelectuais e, de fato, há intelectuais que não gostam de escrever". Além de seu próprio trabalho literário - seu último livro é "La família de mi padre" ["A Família de Meu Pai"] (Mondadori) - publicou "Hecho em México" ["Feito no México"], onde apresentava um conjunto de autores daquele país, surpreendida por serem tão desconhecidos na Espanha em plena era da globalização. "A luta pela democracia foi sobretudo a grande guerra de nossos pais, hoje trata-se de combater a pobreza e o que existe por trás dela, a ignorância."

"Afterpop" (Berenice) e "Homo Sampler" (Anagrama) são os ensaios mais recentes de Eloy Fernández Porta (Barcelona, 1974), e neles aborda as modalidades mais recentes do consumo cultural e as formas de identidade em uma sociedade marcada pelo consumo. "A questão fundamental creio que é a do reconhecimento", comenta quando é questionado sobre o compromisso do intelectual no mundo atual. "Todas as culturas que conseguiram se impor o fizeram, não tanto por revalorizar o que havia, mas por depreciá-lo. O discurso dominante se sustenta na medida em que afirma que tudo o mais não vale. E desse modo, ficaram silenciadas ou menosprezadas distintas subjetividades, que terminam por serem tachadas de perversas. A pergunta que todo intelectual deveria se fazer é a propósito dos saberes que não foram reconhecidos e do seu próprio papel em tê-los ignorado. As coisas seriam muito distintas se levássemos em conta as reflexões e formas de relação que procedem, por exemplo, do mundo lésbico. Ou de outras sensibilidades heterodoxas, vinculadas à moda ou à música ou outras formas de expressão". Um mundo fragmentado, uma sociedade global onde se ignora o que está mais próximo, um sistema de poder que continua silenciando os diferentes, países enfiados até o pescoço na violência, populações pobres de solenidade.

A opinião continua servindo como compromisso nesse cenário? "Antes queríamos mudar o mundo; agora, nos conformamos com que não exploda", comenta Roncagliolo recordando-se do que dizia um amigo. Lolita Bosch afirma que continua buscando aqueles que tem critério, que conquistaram a autoridade suficiente para ter algo a dizer. "Procuro ler Juan Villoro ou Alma Guillermoprieto, acho que a revista Quimera continua defendendo uma posição, interessam-me os autores que publicados por Julián Rodríguez em Periférica, interessa-me a seriedade do blog de Vicente Luis Mora."

Se o discurso do intelectual sobre o mundo continua interessando, a que se refere então Vargas Llosa quando fala de sua falta de compromisso? Será que desmoronou a autoridade daquele que se pronuncia sobre o que está acontecendo? Paz Soldán, que passa longos períodos nos Estados Unidos, aborda outro aspecto da questão: "Talvez os escritores latino-americanos estejam se parecendo cada vez mais com escritores norte-americanos como Philip Roth, Toni Morrison ou o recentemente falecido John Updike. Jamais aparecerão na televisão depois de um acontecimento com o 11 de setembro para sentenciar seu diagnóstico. E, entretanto, pronunciaram-se sobre o assunto um tempo depois, em revistas ou publicações acadêmicas, onde entendem que vão ser escutados de verdade, levados em conta".

Os grandes meios, portanto, com sua ânsia pelo imediatismo, acabaram com o prestígio da opinião repousada, elaborada, meditada? Acabaram com os registros que, por fim, definem a tarefa de um intelectual? Fernández Porta aponta para o lugar que a opinião ocupa nas sociedades capitalistas. "O intelectual já sai comprometido desde casa. Não há um grau certo, não há um lugar neutro onde se possa tomar partido. Cada qual ocupa um lugar dentro de uma hierarquia e isso já significa uma subordinação a uma forma de poder, seja qual for."

Tradução: Eloise De Vylder

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