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05/10/2009

Limites à ditadura do Photoshop

El País
Rosario G. Gómez
As técnicas de retoque de fotografia já são aplicadas sem limites aos famosos e políticos - a França e o Reino Unido debatem se é preciso avisar quando a imagem é manipulada em cartazes ou reportagens

No final dos anos 80, o jornal "Pravda" adquiriu o costume de retocar as fotos de Mikhail Gorbachev para eliminar uma mancha de nascimento que o então presidente da URSS tinha na cabeça. Duas décadas depois, a revista "Paris Match" fez desaparecer os pneuzinhos do presidente francês Nicolas Sarkozy, fotografado em traje de banho durante suas férias. Este tipo de "lifting" ou lipoaspirações virtuais, realizados com simples programas de computador como o famoso Photoshop, passarão a ser regulamentados se for aprovada a proposta lançada na semana passada pela deputada francesa Valérie Boyer, que pertence ao mesmo partido que Sarkozy. Modificar a imagem de um político, ou de uma modelo, não será ilegal, mas os cidadãos terão direito de sabê-lo. A iniciativa que os parlamentares franceses estão discutindo defende que seja obrigatório avisar sobre a utilização do Photoshop. Desse modo, as imagens tratadas deveriam ser acompanhadas pelo seguinte aviso: "Fotografia retocada para modificar a aparência física de uma pessoa".

  • Caio Guatelli/Folha Imagem - 31.jan.2006

    Imagem mostra sala de aula ocupada por dezenas de réplicas de um mesmo aluno e um único professor pedindo silêncio; foto foi modificada com Photoshop, ferramenta de laço simples



Assim a França segue os passos do Reino Unido, um dos primeiros países a alertar sobre os nocivos efeitos que a manipulação dos rostos pode ter sobre o público. E especialmente entre os menores. De forma que os parlamentares britânicos aplaudiram a ideia de proibir os retoques nos anúncios protagonizados por menores de 16 anos. A norma francesa - cuja infração acarretará uma multa de 37.500 euros - não é dirigida apenas às campanhas publicitárias. Ela abarca também as fotografias da imprensa, as fotos artísticas e inclusive os cartazes dos políticos que cobrem os muros durante as campanhas eleitorais. Que credibilidade pode ter um político cuja imagem não se ajusta à realidade? Pergunta-se a diretora de uma revista do grupo de comunicação Hachette Filipacchi (editora de publicações como a "Paris Match", "Elle", "Quo", "Fotogramas" e "Diez Minutos"). A classe política caiu em alguns excessos que beiram o ridículo. A candidata socialista Ségoléne Royal apareceu num cartaz eleitoral tão rejuvenescida que os franceses se perguntaram se ela tinha idade suficiente para ser candidata à presidência do país.

Exemplos como este revelam que a política tornou suas as armas utilizadas pela moda. A questão é se ambas as esferas podem ser regidas pelas mesmas normas. Para Gonzalo Sánchez-Taíz, diretor-geral da agência McCann Erickson, "no fim das contas, o que está sendo vendido é um produto político e é legítimo que os candidatos tratem de obter sua melhor imagem". Por isso ele considera lógico que se retoquem as fotos e acharia igualmente legítimo que elas fossem acompanhadas de uma legenda - "em letras pequenas" - advertindo que foram retocadas. Não obstante, ele sustenta que o uso do Photoshop nesse tipo de propaganda pode ter efeitos negativos para quem o utiliza. "Tudo bem um retoque leve, mas se for muito evidente, pode ser muito contraproducente". Uma modificação mínima pode se transformar numa manipulação grosseira. O jornal francês "Le Figaro" se viu em meio a um grande escândalo no ano passado quando publicou na primeira página uma fotografia da então ministra da Justiça Rachida Dati na qual um chamativo anel havia sido apagado. Na foto original - publicada pelo semanário "L'Express" - Dati exibia uma joia de ouro com diamantes desenhada pela casa Chaumet. O anel, batizado de Liens (Laços), era cotado em mais de 15 mil euros.

"Manipular a imagem de uma pessoa é falsear a verdade. É adulterar a informação. A informação é adulterada tanto quando se falseia uma foto quanto um texto", disse categórica a mesma jornalista do grupo Hachette. "É como se uma pessoa que não falasse corretamente tivesse suas declarações modificadas para que se parecessem com o discurso de uma acadêmico". As concessões que ela faz ao Photoshop são ínfimas: "Pode servir para tirar uma mancha na roupa. Mas varrer o rosto de uma pessoa para que ela pareça 15 anos mais jovem é deformar a verdade".

O certo é que sempre foram utilizados truques para realçar determinados traços. A luz é um dos mais antigos e eficazes. Mas uma vez tirada a fotografia, o que se publicava era o que a luz conferia à imagem de uma pessoa.

Manuel Fraga parecia 15 anos mais jovem em seus últimos cartazes eleitorais. Daniel Rodríguez, diretor-geral da empresa 6W Comunicação, recorda que, nas fotos dos candidatos espanhóis, é comum que se realizem "pequenos retoques de computador para eliminar algum pelo do nariz e das orelhas, sombras da barca ou algo para dar luminosidade ao rosto". "São detalhes que ficariam muito destacados num cartaz publicitário de grandes dimensões e que, além disso, poderiam ser eliminados de verdade através de um tratamento estético", esclarece. "Entretanto, modificar a imagem até o ponto em que ela não corresponda à própria percepção que se tem do cidadão através da televisão (mudança de cor de cabelo, eliminação de papada e rugas, rejuvenescimento) pode ser pouco rentável em termos de campanha".

E é justamente este risco que moderou o uso, ou o abuso, do Photoshop entre os políticos. "Que eleitor indeciso entregará seu voto a um político que ele acredite ter mentido sobre sua própria imagem? Que assessor recomenda a invenção de seu candidato?" Pergunta-se Rodríguez. "Os cidadãos buscam nos candidatos carisma, conexão, empatia e valorizam que transmitam confiança, credibilidade, liderança, honestidade e soluções."

  • Reprodução

    Em foto de revista, modelo sem parte da perna direita. Erros com Photoshop produzem aberrações

Os programas políticos estão entre a publicidade nua e crua (a comercial, destina a vender um produto) e a informação. Cada um com suas normas. O Reino Unido implementou fórmulas para evitar o uso de Photoshop em determinados anúncios. Várias revistas integradas à Associação de Publicações Periódicas (entre elas a "Vogue" e a edição local de "Hola") admitiram os efeitos nocivos da apresentação de corpos (sobretudo o feminino), alimentando uma estética irreal. O Conselho Britânico da Moda e as autoridades sanitárias reuniram forças para frear essas imagens distorcidas, e muitas vezes inverossímeis. Retocar o rosto das estrelas no computador é a ordem do dia. Bem o sabe a atriz britânica Keira Knightley, cujo volume peitoral aumentou magicamente no cartaz promocional do filme "O Rei Artur". Mas nem todas as celebridades aceitam isso. As atrizes Kate Winslet e Emma Thompson não hesitaram em recorrer aos tribunais para defender-se dos retoques informáticos. Acreditam que eles são um mau exemplo para muitas mulheres (especialmente as adolescentes) que encontram em sua imagem (estilizada artificialmente) um ícone de beleza falso e ilusório.

"Não devemos colocar toda a culpa na publicidade", reclama Daniel Campo, diretor da revista especializada "El Publicista", consciente de que os anúncios são só uma parte do problema. "A educação e o entorno também têm seu papel. O cidadão sabe distinguir perfeitamente e não é necessário alertar com nenhum aviso que a imagem foi tratada."

Sergio Rodríguez conhece bem os caminhos pelos quais a publicidade evoluiu. Ele é o autor de "Busque, compare e, se encontrar um livro melhor, compre-o!" (Electra), um título que imita um famoso anúncio de detergente espanhol. O livro mergulha nos anúncios que mais tocaram o imaginário coletivo desde meados do século passado. Rodríguez afirma que hoje seriam impensáveis campanhas como a do perfume Jacq's (em que uma motociclista freia sua Harley Davidson abre o zíper da jaqueta diante da câmera "até o ponto em que fica clara sua voluptuosidade", relata o escritor). "A sociedade era mais machista nos anos 80. Hoje não aceitaria isso. Naquela época, a publicidade desenhava uma mulher submissa, abaixo do homem. Isso sim é que são estereótipos". Depois de admitir que os criadores podem se permitir certas licenças ("sem transgredir determinadas normas, como fez aquele anúncio de uma empresa de telefonia no qual choviam anões"), afirma que "a finalidade da publicidade é a venda, mas há limites que não podem ser ultrapassados". Sánchez-Taíz recorda a norma que proíbe a utilização da mulher em anúncios de produtos não relacionados a ela. "Podem vender cosméticos, mas não carros".

Através do autocontrole, o setor defende uma publicidade veraz, legal e honesta, como recorda o diretor geral da Associação Espanhola de Anunciantes, Juan Ramón Plana, que avisa: "Aquele que engana as pessoas que têm que receber suas mensagens merece todo o mal possível". O mesmo vale para quem apagou a mancha de nascimento de Gorbachev?

Tradução: Eloise De Vylder

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