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11/10/2009

"É a primeira grande recessão sem uma grande guerra"

El País
Andrea Aguilar
Em Nova York (EUA)
O dinheiro é desejado e odiado na mesma medida. E dizem que ele não traz a felicidade. Reflexões filosóficas à parte, é preciso reconhecer que ele é um motor fundamental da história. Isso é o que o historiador escocês Niall Ferguson se propôs a expor e analisar em seu novo livro "A Ascensão do Dinheiro: A História Financeira do Mundo" (Planeta do Brasil), um estudo que começou antes da crise em Wall Street, mas no qual já se delineava o germe do desastre.

Ferguson ocupa duas cátedras em Harvard - na Faculdade de História e na Escola de Administração -, escreveu mais de uma dezena de livros de referência e publica uma coluna semanal no Financial Times. O livro assinala os erros, mas faz uma defesa das tão criticadas finanças. "Longe de ser obra de meras sanguessugas ansiosas para chupar o sangue das famílias endividadas ou para jogar com as economias das viúvas e dos órfãos, a inovação financeira representou um fator indispensável no desenvolvimento do homem", escreve. "A evolução do crédito e a dívida foram tão importantes como qualquer inovação tecnológica no auge da civilização".

Guiado por essa ideia, Ferguson propõe uma viagem desde a Antiga Mesopotâmia até as hipotecas subprime ou à inundação de dinheiro que o império espanhol não soube gerir. Passando pelo papel desempenhado por Rothschild na derrota de Napoleão e pelo desastre inflacionário da Argentina nos anos 80.

Pode ser que seja um traço inerente de sua nacionalidade, mas Ferguson gosta de ser do contra. Na melhor tradição britânica, ele faz isso com sólidos argumentos de base. A história, segundo Ferguson, não é resultado de grandes forças, mas sim de decisões individuais. A postura conservadora de Ferguson o coloca em oposição ao grande papa da historiografia marxista Eric Hobsbawn. Sua análise da 1ª Guerra Mundial - na qual afirma que foi uma guerra preventiva, que a Alemanha se viu forçada a entrar nela por culpa da errática diplomacia britânica e que o Reino Unido devia ter se mantido à margem do conflito - e seus trabalhos posteriores sobre os EUA, "Coloso: Auge y decadencia del imperio americano" (Debate) ["Colosso: Auge e Decadência do Império Americano"] e "El Imperio Británico: cómo Gran Bretaña forjó el orden mundial" (Debate) ["O Império Britânico: Como a Grã-Bretanha Forjou a Ordem Mundial", valeram-lhe os adjetivos de colonialista e neoimperialista.

Com seu novo livro, que vem acompanhado de uma série de documentários para a televisão, Ferguson se limita e se concentra em expor a turbulenta história financeira.

Pergunta: A chegada da crise alterou o livro?

Resposta: Escrevi este livro antecipando a crise. O desastre de setembro de 2008 não alterou de forma tremenda o que me propus a contar. Afinal de contas, tratava-se de repassar 4 mil anos de história das finanças, não de oferecer uma crônica pormenorizada da queda do Lehman Brothers. Fiquei preocupado porque os dados que decidi incluir sobre o que estava acontecendo eram exatos.

P. Você sabia o que ia acontecer?

R. Dava para ver a chegada de uma crise de liquidez, como a que aconteceu durante a 1ª Guerra Mundial e sim, eu previa uma intervenção por parte dos governos, mas isso foi ainda maior do que eu imaginava. Foi uma grande recessão sem que tenha havido uma grande guerra, a primeira vez na história que isso aconteceu. Mas esperava que houvesse pânico, redução de crédito e imensos investimentos por parte do Estado. Houve aspectos que ninguém podia prever exatamente, é claro, mas o realmente surpreendente foi ver a repressão: desde a primavera de 2007 até o outono de 2008 as pessoas não queriam aceitar o que estava acontecendo.

P. Que lição devemos tirar do que aconteceu?

R. Bem, é preciso voltar a pensar no sistema financeiro. Não deveria haver nenhuma instituição que seja grande demais, ou seja, que seja tão grande que sua queda possa levar todo o sistema ao colapso e que, portanto, tenha que ser salva.

P. E as novas regulações nos mercados?

R. É um erro muito extenso acreditar que havia uma falta de regulação dos mercados, quando de fato a situação era bem o contrário. Os únicos que escaparam das regulações foram os fundos hedge e os que sucumbiram foram justamente os bancos que estavam regulados. A história é muito complicada para ser simplificada assim. A sensação de muitos investidores é que havia alguns valores que tinham garantia do governo e não foi a regulação que criou esse pressuposto.

P. Você trabalha em um hedge fund.

R. Trabalho como conselheiro, mas não me envolvo diretamente com investimentos.

P. Em seu livro, você defende que a crise é em parte resultado do desconhecimento da história financeira por parte dos investidores.

R. Ao pensar e observar a partir de uma perspectiva histórica, reduzimos o valor dos modelos de risco. Basicamente eu defendo que o passado pesa mais do que as matemáticas. É preciso que eles entendam os grandes riscos assumidos. Precisamos usar modelos históricos para compreender os padrões de euforia e depressão que se repetem, e que não são máquinas de cálculo racionais.

Tradução: Eloise De Vylder

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