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11/10/2009

Matar-se de trabalhar, literalmente

El País
Ariadna Trillas
O que pode levar 24 pessoas de uma mesma empresa a acabar com a própria vida, no mesmo país, no prazo de um ano e meio? À espera da auditoria sobre a preocupante onda de suicídios na France Télécom, nas mãos da firma Technologia e que estará pronta em meados de novembro, as histórias de trabalhadores que se atiraram pela janela ou se apunhalaram no ventre em plena reunião - alguns depois de denunciar "a gestão pelo terror" de sua empresa ou de confessar sua incapacidade para "enfrentar mais uma reorganização" do grupo - revelaram a existência de um clima social péssimo, uma gestão organizacional duvidosa e um mal-estar nauseante na gigante das telecoms.

A France Télécom é uma empresa letal? "Não existem, para sermos claros, empresas suicidógenas", salienta o psiquiatra especialista em suicídios Julio Bobes. "Mas existem ambientes que favorecem o estresse e o conflito psicossocial. E as pessoas com uma vulnerabilidade anterior sofrem mais que o resto, algumas até tentam resolvê-las por uma via torpe, patológica", acrescenta. Esse professor da Universidade de Oviedo insiste, mais que nas 24 mortes, nas tentativas fracassadas. Que se saiba, foram 14. "É chamativa a sobreintenção, o comportamento parassuicida. A France Télécom pode não ser responsável pelas mortes, sobretudo nos casos em que havia psicopatologias anteriores, mas tem uma responsabilidade parcial nos comportamentos parassuicidas. É responsável pela saúde laboral de seus empregados. Não sabemos o que fez para evitá-los."

França discute estresse no trabalho após onda de suicídios

Companhias francesas devem reduzir o estresse no ambiente de trabalho para evitar a recente onda de suicídios no país, disse o ministro do Trabalho francês, Xavier Darcos, nesta sexta-feira. Na France Telecom, antiga estatal que hoje é a terceira maior empresa de telecomunicações da Europa, 24 funcionários cometeram suicídio, e vários outros também tentaram se matar, desde o começo de 2008.



A empresa, dona da marca Orange, declinou falar para a reportagem sobre esse "tema delicado". Tão delicado que custou a cabeça de seu número 2, Louis-Pierre Wenès, questionado por seus métodos para modernizar o ex-monopólio nacional.

Esse perfil de antigo monopólio transformado em transatlântico da tecnologia e da informática, que navega em um mar revolto de concorrência feroz e de inovações tecnológicas em velocidade vertiginosa de algum modo transforma a France Télécom em paradigma dos males da empresa global do século 21. "Este episódio é uma metáfora exagerada: nunca como hoje as empresas precisaram tanto do comprometimento dos trabalhadores e nunca deram tão pouco em troca, especialmente porque o tempo, que antes jogava a favor do empregado com mais qualificação e experiência, maior demonstração de lealdade, agora parece jogar contra ele: o torna mais prescindível e menos empregável se perder o emprego", opina Francisco Longo, professor de recursos humanos e diretor do Instituto de Gestão Pública da Esade.

Não se trata do assédio de algum chefe incapaz de liderar, mas das entranhas da própria organização. A gigante das telecomunicações, que só na França tem 102 mil funcionários, vive em estado de transformação permanente desde sua privatização, que começou em 1996. Ivan du Roy, autor do livro "Orange Stressé", explica que a raiz do mal está na privatização e na entrada da empresa na Bolsa, que significou deixar de lado certa cultura de serviço público para uma carreira feroz rumo à rentabilidade (embora o Estado mantenha 26,65% do capital e 65% dos empregados serem funcionários públicos), com a idéia de se adaptar ou sair. Lembra também que mais de 13 mil pessoas passaram nos últimos dois anos para as áreas comerciais e de informática, o que teria sofrido em particular o coletivo de técnicos, e que até 2003 "mais da metade mudou radicalmente de função", segundo a confissão do ex-diretor do grupo Michel Bon. A empresa prescindiu de 22 mil trabalhadores e o nível de demissões foi aumentando (15,3% em 2008).

Esse ambiente pode influir em que haja suicídios? "O entorno influi, um entorno de mudança influi, mas em um suicídio a desordem mental está na base", explica Carmen Tejedor, psiquiatra do Hospital de Sant Pau e especialista em suicídios, que descreve o ato de tirar a própria vida como resultado de fatores tais como a existência de doença mental, o fato de pensar em suicídio, sofrer alguma doença médica, lidar com acontecimentos vitais que podem descompensar pessoas já vulneráveis ou o isolamento.

"Alguns empregados se mataram depois de culpar seu trabalho pelo estresse. Não implica necessariamente que a culpa seja da empresa, mas na mente dos suicidas a empresa sem dúvida tinha um papel", reflete por sua vez o psiquiatra Luis Rojas Marcos. "O ambiente na empresa pode ser um fator, sem dúvida", acrescenta.

Com a crise aumenta a quantidade de pessoas que sentem ansiedade e estresse, é um fato, mas, explica Rojas Marcos, "não vêm ao consultório tanto para se lamentar sobre o que vão fazer por estar sem trabalho, mas por problemas de relacionamento ou porque não encontram sentido na vida, pela incapacidade de controlar sua vida". As pessoas que se sentem desconectadas, isoladas de seu entorno, fazem parte do grupo de risco.

A cúpula da France Télécom demorou para levar a sério o que se transformou, além do prioritário drama humano, em um grave problema de reputação. O presidente da empresa, Didier Lombard, que por enquanto continua no cargo, falou no início em "pequeno choque", em "moda dos suicídios". O departamento de Recursos Humanos deixou a coisa em "algumas pessoas frágeis" que não conseguiram se adaptar à mudança.

Até que o governo Sarkozy entrou em cena. Agora Lombard defende "um novo convênio social". Os programas de mobilidade geográfica e de funções continuam, por enquanto, suspensos, enquanto um telefone gratuito permite que os empregados angustiados desabafem, e foi designado um "mediador" para a mobilidade. "Nada justifica que um homem ou uma mulher ponha fim a seus dias. Não posso aceitar isso. Nem agora nem nunca", acaba de declarar Wenès, questionado não só pelos sindicatos como pelo governo. A empresa respondia que não é um problema novo. Em 2000 já houve 28 suicídios na France Télécom, e em 2002, 20.

A França é o país da Europa com maior índice de suicídios por 100 mil habitantes: segundo os últimos dados da Organização Mundial de Saúde, para cada 100 mil habitantes o índice de suicídios na França é de 26,2 para homens e 9,2 para mulheres; em média, 17,7. Nos 24 suicídios da France Télécom em um ano e meio sobre pouco mais de 100 mil empregados na França, não há tanta desproporção em relação à média nacional, muito superior às da Grécia, Espanha ou Reino Unido, mas eclipsada pelos dados da Finlândia (31 entre os homens) ou sobretudo dos países do Leste Europeu e das repúblicas bálticas, com cifras muito elevadas no caso dos homens na Hungria (42) e Lituânia (68).

Isso não significa que a France Télécom não tenha um problema, mas é difícil demonstrá-lo. "A depressão não costuma dar lugar a doença profissional nem a acidente de trabalho. É quase impossível atribuí-la de forma exclusiva ao trabalho", aponta Adrián González, subdiretor de prevenção de riscos de trabalho da Inspeção do Trabalho, para quem "é verdade que na Espanha há casos de suicídio pelo trabalho, mas nem são conhecidos".

Algumas consultoras teorizaram que as empresas podem de fato adoecer, assim como as pessoas adoecem. "A empresa espanhola está estressada", conclui por exemplo a firma Tatum no "Estado da Saúde da Empresa na Espanha", estudo realizado com base em pesquisas, com uma amostra de 2.475 profissionais. O estresse (ritmo asfixiante, empregados tensos por supervalorização de capacidades, escassez de pessoal qualificado, falta de informação, perdas de tempo, baixas elevadas por estresse...), a osteoporose (estrutura da empresa debilitada por falta de recursos financeiros e humanos, endividamento excessivo, folha de pagamento superdimensionada, escassez de liderança, concentração excessiva de rendas...) e a miopia (incapacidade para reconhecer mudanças no mercado com antecipação) seriam, segundo a Tatum, as três enfermidades mais difundidas. "Os curtos prazos têm muito a ver com tudo isso. É difícil falar em dirigir pessoas ou conciliar vida pessoal e profissional, quando a crise açoita. Mas não creio que a crise esteja nos levando à contrição e ao propósito de emenda. A empresa vive às custas de resultados trimestrais, do que faz a ação na Bolsa, do que dirão os analistas, do corte de gastos", comenta Eugenio de Andrés, sócio-diretor da Tatum.

Recentemente, o Observatório da Empresa Familiarmente Responsável (EFR) alertava não só sobre o absenteísmo no trabalho, como sobre o emocional. Acontece quando o trabalhador está em seu posto mas não rende, seja por esgotamento, decepção ou angústia. Costuma haver um desajuste entre a pessoa, seu cargo e a organização.

Concha Pascual, diretora do Instituto Nacional de Segurança e Higiene no Trabalho, admite que os problemas organizacionais e psicossociais não estão sendo levados a sério "de forma generalizada", exceto em algumas grandes empresas. "Nas pequenas e médias é ainda mais difícil. Mas vamos avançando. Há dez anos nem se falava nisso. Vemos progressos", indica.

Os que mais falam nisso são os sindicatos. "O mundo laboral em mudança obriga as organizações a se adaptar a novos mercados, imposições e mudanças tecnológicas que lhes permitam manter sua competitividade, o que fez que os trabalhadores devam enfrentar novas exigências como a adaptação a sistemas complexos e tecnológicos, pressão temporal, incerteza e insegurança sobre seu futuro profissional devido à utilização de novas tecnologias", conclui um relatório que o UGT acaba de divulgar, do Observatório Permanente de Riscos Psicossociais.

Nele se atribui que a empresa não alcança os rendimentos esperados porque quando cria os postos de trabalho "não considera os aspectos psicológicos, as capacidades, as expectativas e limitações das pessoas". O ponto de mira continua sendo cobrir as necessidades econômicas e o bem-estar material. A tradução do problema não está clara. As baixas por estresse ou depressão se misturam entre todas as baixas por doença comum. Mas o relatório do UGT lembra que "atualmente os problemas relacionados à má saúde mental são a quarta causa mais frequente de incapacidade laboral". "Quando existe um equilíbrio entre o que o trabalho exige ou carga mental do posto, a autonomia do trabalhador sobre sua tarefa, as dinâmicas do posto e as habilidades do empregado, tudo vai bem. Quando tudo isso se desajusta pode ocorrer uma enfermidade, e se houver uma exposição aguda e prolongada pode inclusive derivar em um quadro pseudodemencial", enfatiza Manel Fernández, presidente da Associação de Profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho (Aepsal).

A última Pesquisa Nacional sobre as Condições de Trabalho data de 2007, ainda sem a crise, e revela que 22,5% dos trabalhadores espanhóis acreditam que o trabalho está afetando sua saúde; 30% no caso do setor de transporte e comunicações, o mais alto junto à administração pública. É o que afirmam sobretudo os que têm entre 24 e 34 anos. Embora os da década seguinte não fiquem atrás. Quando perguntados sobre os sintomas psicossomáticos mais frequentes, respondem: o sono se altera, sempre estou cansado, minha cabeça dói ou fico irritável.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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