UOL Notícias Internacional
 

12/10/2009

"Poucas mães dão soja transgênica a seus filhos"

El País
Soledad Gallergo-Diáz
Acabamos indo almoçar em um pequeno restaurante vegetariano no mercado de produtos naturais que foi inaugurado em um velho galpão em La Chacarita. Parecia apropriado uma vez que o convidado é um dos maiores representantes do movimento ambientalista na Argentina, Carlos Vicente, um farmacêutico de 51 anos que dirige a Grain, uma ONG dedicada a apoiar sistemas alimentares baseados na biodiversidade.

Vicente não é muito vegetariano, diga-se, mas comeu sem reclamar as tortas de berinjela e espinafre que nos ofereceram. Felizmente, havia também o vinho ecológico, que permitiu regar a comida com um pouco de alegria. Carlos tinha claro sobre o que queria falar: o cultivo da soja transgênica, que segundo ele, ocupará cerca de 20 milhões de hectares na Argentina neste ano, de um total de 35 milhões de hectares de terras cultiváveis.
  • Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

    As plantações de soja são pulverizadas com glifosato, que acaba com as ervas daninhas e qualquer outro tipo de vegetação



A maioria dos argentinos sabe o que é a semeadura direta e o glifosato (um herbicida que mata tudo, menos a soja transgênica), já ouviu falar da República Unida da Soja e sabem que quando soarem os sinos do final do ano, o primeiro comercial não será de uma marca de carros, como no resto do mundo, mas sim de um fertilizante. "O campo sempre teve muita importância, por sua capacidade de gerar movimento econômico, mas o que acontece agora é que a soja se transformou praticamente em uma monocultura", explica. "Tudo está relacionado com a chegada da soja transgênica, desenvolvida por uma multinacional, a Monsanto, que substituiu a soja clássica e avançou na fronteira agrícola, eliminando bosques e outros cultivos."

E lamentou: "Desapareceram os maravilhosos pomares de San Pedro e, pela primeira vez, estão colocando o gado em estábulos para poder dedicar os pastos ao cultivo". A expressão República Unida da Soja, que designa o imenso território que abrange partes da Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, cultivado com o mesmo tipo de semente, não foi inventada por uma ONG, mas sim por uma empresa química, orgulhosa por "controlar" uma extensão tão grande de terras. "Frente a essa dependência, nós defendemos o conceito de soberania alimentar", diz Vicente. A soja é muito bem vendida na Ásia, que necessita dela para alimentar o gado, e ajuda a trazer milhões em divisas para a Argentina. O que há de mal nisso? "Nada, se não fosse o fato de a soja transgênica estar se transformando em uma monocultura, de não haver rotação de culturas e de a terra estar se empobrecendo muito".

Vicente mora em Marcos Paz, uma localidade agrícola a 42 quilômetros da capital federal e a 200 metros de uma plantação de soja. E isso tem inconvenientes, explicou.

Primeiro, porque as plantações de soja são pulverizadas com glifosato, que acaba com as ervas daninhas e qualquer outro tipo de vegetação. É impossível pensar em fazer uma horta, por exemplo. E segundo porque ele ataca os anfíbios, e como não há rãs para comer os mosquitos, aumentou o risco de epidemia de dengue. A Grain exige que o governo proíba as a pulverização entre 500 metros e dois quilômetros em torno das áreas urbanas. Sugeri a Vicente pedir uns hambúrgueres de soja, mas não eles não lhe parecem atraentes. "Os hambúrgueres de soja transgênica estão em todos os mercados, mas asseguro que poucas mães os oferecem aos filhos", afirmou. Preferimos ficar com a salada.

Tradução: Eloise De Vylder

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