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13/10/2009

Protestos inibem polícia nas ruas de Buenos Aires; em nove meses, 440 bloqueios foram feitos

El País
Soledad Gallego-Díaz Em Buenos Aires
Em 30 de dezembro de 2004 um incêndio arrasou a discoteca Cromagnon na Calle Mitre 3060, em Buenos Aires. Morreram 193 pessoas e mil ficaram feridas. Poucos dias depois os parentes das vítimas interromperam o tráfego no quarteirão e colocaram fios onde penduraram dezenas de tênis dos jovens mortos.

Várias linhas de ônibus foram obrigadas a dar uma volta de vários quarteirões. Passaram-se quase cinco anos e houve tempo inclusive para realizar o julgamento, que terminou com a condenação do dono do local a 20 anos de prisão. Mas a rua continua interrompida, os ônibus continuam desviados e as lojas e o pequeno hotel locais foram afetados pelo corte de tráfego.
  • Daniel Garcia/AFP

    Parentes de soldados mortos na guerra das Malvinas participam de um protesto em frente a uma catedral de Buenos Aires, em 9 de outubro



No bairro Onze, popular e agitado, os moradores continuam sem poder acreditar. Ninguém envia um grupo de policiais para levantar o cerco. O caso da Cromagnon é extremo, porque traduz a dor por uma tragédia que não deveria ter acontecido. Mas em Buenos Aires não é preciso nada tão dramático para que se interrompa o tráfego.

De fato, isso é feito por todo tipo de associações, trabalhadores e piqueteiros, pelos mais diversos motivos e sem que a polícia faça algo prático para evitá-lo. A última contagem do jornal "La Nación" é preocupante: 440 interrupções de trânsito em nove meses.

Oito cortes na rota Panamericana (grande via de acesso à cidade) em menos de 30 dias. Na última semana o caos foi aumentado por um conflito na empresa americana Kraft. Os sindicatos anunciam novos cortes nas vias públicas para a capital e associações como Barrios en Pie, mobilizações nas principais ruas.

Os cidadãos contemplam impotentes a situação e ninguém dá explicações de por que a polícia não intervém para canalizar os protestos para lugares onde causem um transtorno menor. A presidente Cristina Fernández de Kirchner, que sempre se negou a autorizar a repressão aos atos de rua, fez um frágil apelo para que abandonem os "métodos de protesto que impedem o exercício dos direitos de outros", mas grupos empresariais e civis reclamaram outras medidas e expressaram seu temor de que a onda de cortes de ruas pelos grupos piqueteiros do cinturão se estenda como em antigas épocas, algo que ainda provoca pesadelos nos portenhos.

As explicações de por que a polícia não intervém são diversas. Alguns lembram que as interrupções de trânsito se transformaram em um método popular de protesto em 2001, quando cidadãos enfurecidos não encontravam outra maneira de expressar sua angústia pelo famoso "corralito" [o congelamento das contas bancárias]. Ninguém parece se atrever hoje a adotar atitudes repressivas que possam enfurecer os sindicalistas que controlam o movimento piqueteiro.

A polícia não interveio sequer durante o chamado conflito do campo, quando empresários agrícolas e camponeses cortaram as estradas e provocaram o desabastecimento das cidades. Ou quando ecologistas de Gualeguaychú bloquearam há dois anos e meio uma ponte na fronteira com o Uruguai.

No caso de Buenos Aires parece que também existe um conflito de competências entre a prefeitura e a polícia federal, que deve garantir os direitos dos cidadãos. O prefeito da capital, Mauricio Macri (peronista opositor dos Kirchner), queixa-se da ineficiência da polícia estatal e prepara a criação de uma força municipal que entrará em funcionamento no fim do ano. Segundo o ministro da Justiça e da Segurança da cidade, Guillermo Montenegro, dos 850 primeiros efetivos cerca de 350 integrarão uma unidade "preparada para restabelecer a ordem", uma espécie de polícia antipiquetes dotada de um equipamento apropriado.

"A realidade hoje em dia é que 30 pessoas podem atrapalhar a vida das pessoas com cortes de trânsito sem que os 12 mil agentes da polícia federal da cidade façam nada", protestou Montenegro. Não parece que 350 policiais antidistúrbios em uma cidade com 3 milhões de habitantes (12 milhões se se levar em conta o cinturão que a envolve) possam ser capazes de controlar a grande onda de protestos que se anuncia para a primavera.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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