UOL Notícias Internacional
 

14/10/2009

Seria Tony Blair a pessoa adequada para representar a União Europeia?

El País
M.Á. Bastenier
Até o final do ano, a Europa deverá dotar-se de um presidente, embora ainda não se saiba com que faculdades e prerrogativas, mas a nomeação terá uma não menos importante notável carga simbólica, um rei sem coroa encabeçará um magma político que busca desnorteadamente seu destino. E entre os possíveis candidatos, o que tem maiores chances é um anglo-escocês, cujo nome todos conhecem. Seria Tony Blair a pessoa adequada para representar a Europa?

As razões positivas e contrárias se acumulam até a saturação na carreira do ex-premiê neo-trabalhista. A sabedoria convencional destaca no personagem uma capacidade de sedução que foi quase hipnótica para seu eleitorado; um altíssimo índice de reconhecimento internacional; as excelentes relações que manteve com a Washington de George W. Bush, o que não o distanciou, entretanto, do presidente Obama.

No sentido contrário, se isolou da Velha Europa - como a batizou Donald Rumsfeld - ao apoiar, contra toda opinião europeia, a guerra do Iraque, mas o assunto já não parece tão grave hoje, com a progressiva retirada ocidental do país árabe; como representante do Quarteto para o Oriente Médio passou muito rapidamente, calado e ocioso, mas tampouco se sabia com que instrumentos de poder contava para levar a cabo sua tarefa; Londres continua afastada da embrionária cidadania de Schengen, e, muito mais grave, não aderiu ao euro, o que provavelmente quem mais lamenta é o próprio Blair; e se a esquerda o critica por ter destruído o antigo laborismo, em nenhuma parte está escrito que sua "terceira via", a do neo-direitismo compassivo, não é o que hoje convém ao confuso discurso centrista e gerenciador da União Europeia.

Os argumentos de fundo contra o ex-governante são, por outro lado, de outra e mais poderosa natureza. A Grã-Bretanha mudou muito nos últimos 50 anos. A aproximação e assimilação à Europa foi considerável. O Canal já não isola, com ou sem névoa, o continente. O turismo britânico voltou-se para os povos do sul; desde os anos 1960 Londres é uma capital pan-europeia que dita modas, decimalizou a moeda e não tem aversão ao euro na caixa registradora; o inglês médio e a City sabem - o primeiro, instintivamente, e a segunda, fazendo contas - que seu futuro econômico passa pela Europa. E ainda assim, nada disso aproxima o país político do continente, e sim o distancia. É um efeito perverso da globalização.

A terminologia empregada pela classe política, talvez com medo de perder sua insularidade caso só lhe restem o guarda-chuva e o chapéu coco como sinais de identidade, é quase uma afronta a seus vizinhos continentais. "Eurocético" não denota, como o final parece indicar, precaução ou reserva - ainda que tenham sido grandes - diante da construção europeia, mas sim uma aversão profunda à perda de soberania no amálgama continental; e "eurófilo" só quer dizer que não chama os franceses de "rãs", e sente uma indefinida simpatia pelos povos do sul. Um desses eurófilos é Blair, e certamente dos que menos toxinas anti-europeias incorpora em seu organismo, possivelmente porque, sendo há muitos anos católico de fato, ainda que sua conversão formal só tenha sido feita ao deixar Downing Street, está por ecumenismo mais bem preparado do que a maioria de seus compatriotas para compreender o projeto de unificação pós-imperial da UE. Esse salto que a uniformização globalizadora provoca em algumas nacionalidades menores, levando-as até o paroxismo do "nós sozinhos", fez com que os profissionais da política britânica se negassem a reconhecer que seu país já não é mais o mesmo, enquanto eles não recuam em sua idolatria da diferença.

E Blair representaria tanto seu país na Europa como a Europa no mundo. Por isso o presidente europeu não pode ser uma ave rara, ou um produto de laboratório; pelo contrário, deve chegar a esse cume representativo firmemente ancorado em uma sociedade cujos cidadãos com capacidade normativa nunca quiseram secularmente participar da construção política da Europa, e sim ter seu acesso garantido a um supermercado em época de liquidação. O Reino Unido fabricou-se durante séculos como a grande potência externa à Europa que arbitrava, entretanto, seus destinos, mas não o da Europa. Por isso Tony Blair não pode representar como europeu o continente, ainda que a título pessoal ele provavelmente o seja.

Tradução: Lana Lim

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