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16/10/2009

"Fingiram que iam me executar e me violentaram", diz jovem iraniano

El País
El País Em Madri
"Voltaram a simular que me executavam e protestei; perguntei por que faziam isso e foi então que me violentaram", relata Ibrahim Sharifi, um dos milhares de detidos nos protestos que se seguiram às últimas eleições iranianas. Suas palavras respaldam a denúncia do dirigente de oposição Mehdi Karrubi, que os ultraconservadores querem julgar por difamação. "Quando o pegam, o ofendem, simulam executá-lo e você resiste, utilizam esse método como último recurso para humilhá-lo e destruí-lo", explica Sharifi, a única vítima que aceitou falar em público sobre seu caso.

Como muitos outros jovens iranianos, esse estudante de informática de 24 anos participou das manifestações que ocorreram depois da divulgação do resultado das eleições presidenciais de 12 de junho. "Também tinha muita atividade como blogueiro e trabalhei no comitê eleitoral de Karrubi", conta por telefone da Turquia, onde se exilou. Até 23 de junho. Nesse dia, 11 depois das eleições, ele foi detido perto de sua casa em Shahrak Naft, uma cidade-dormitório a noroeste de Teerã. "Não me informaram o motivo. Mas diante dos outros detidos diziam: 'Este vamos executar'. Creio que tentavam nos intimidar", analisa agora Sharifi ao rever os fatos.
  • AP - 17.07.2009

    Milicianos governistas reprimem protestos de oposicionistas em frente à Universidade de Teerã


Ele nem sequer sabe onde esteve encerrado. "Vendaram meus olhos e não sei aonde me levaram, depois cheguei à conclusão de que foi para Kahrizak", afirma, referindo-se ao centro secreto de detenção que o "líder supremo", Ali Khamenei, mandou fechar no final de julho depois da morte de três presos.

"O tratamento era brutal para todos. Nos batiam, simulavam execuções, nos faziam passar fome", lembra, antes de fazer uma pausa e respirar para poder relatar o que na conservadora sociedade iraniana se considera inominável, um tabu. Foi um castigo por se rebelar contra a enésima simulação de execução. "Comecei a protestar, lhes perguntei por que estavam fazendo aquilo e foi então que... me levaram para outro quarto e me violentaram." Várias vezes durante a conversa Sharifi substitui o verbo "violentar" por "me fizeram aquilo, o senhor sabe".

"Aquilo" foi amarrar suas mãos e seus pés a uma grade que havia na parede, baixar sua roupa íntima e sodomizá-lo. Então o jovem já estava vomitando sangue em consequência dos golpes que tinham lhe aplicado no ventre. Desmaiou. Chamaram um médico e quando começava a recuperar o conhecimento pôde ouvir que seus torturadores se perguntavam: "Está morrendo ou o eliminamos?" "O médico disse que não fizessem aquilo porque lhes causaria um problema, como com os outros dois anteriores, e propôs que me deixassem na rua porque achava que eu não sobreviveria. Então me tiraram da prisão e me abandonaram na vala junto a uma estrada", lembra Sharifi.

Ao contrário do previsto pelo médico da penitenciária, ele não morreu. Alguém o encontrou, o levou a um hospital, o trataram e ele voltou para casa. Inclusive apresentou uma denúncia por insultos e agressões diante de um tribunal de Teerã. Mas não disse nada sobre a violação. Nem mesmo a sua família, que descreve como religiosa e partidária do sistema (seu pai é um general aposentado da polícia). Era doloroso demais e ele tentava esquecer. "Pensei inclusive em me suicidar", admite.

Quem o ajudou a abandonar essa idéia foi Karrubi, em cujo escritório se formou um comitê de apoio aos detidos e suas famílias. "Ele me explicou que sou uma vítima, que não devo me isolar da sociedade nem sentir vergonha pelo que me aconteceu." Suas palavras o ajudaram a se sentir melhor, mas mesmo assim não foi capaz de mencionar a violação até que o político notou algo.

"Ele mandou todos saírem e quando ficamos a sós me disse que tinha ouvido falar de violações e me perguntou se havia acontecido comigo." "Foi muito difícil responder, mas afinal comecei a chorar e lhe confessei o que ocorreu", lembra Sharifi, como se aquilo lhe tivesse tirado um peso de cima. Aceitou voltar para gravar sua declaração em vídeo e inclusive se reuniu com um representante do promotor geral, Ghorban Ali Dorri-Nayafabadi, uma das primeiras autoridades a reconhecer que haviam ocorrido torturas. Inclusive o Parlamento formou uma comissão de investigação, mas nem todo mundo estava disposto a enfrentar a realidade.

"Um dia, ao sair do escritório de Karrubi, um sujeito se aproximou de mim e se apresentou como conhecido de meu pai. Subi no carro dele e quando estávamos em uma área menos movimentada me avisou: 'Se você falar com qualquer membro da comissão parlamentar sua família perderá a vida em um acidente de trânsito, e você sabe que podemos fazer isso'."

Sharifi afirma que não temeu por si mesmo, pois havia procurado o tribunal disposto a tudo, mas aquilo foi demais. Decidiu se afastar e procurou refúgio na Turquia, como muitos outros iranianos. "Então assaltaram o escritório de Karrubi e levaram todos os dados. Tive medo de que pudessem fazer algo aos que tínhamos estado lá, talvez nos matar, por isso decidi falar. Por isso e para que não aconteça o mesmo que a mim às garotas e rapazes que ainda estão detidos", declara, convencido de que seu caso não foi isolado. "Nos últimos 20 anos o sistema conseguiu bons resultados com as violações, porque assim arruinavam moralmente seus opositores, sabendo que não os denunciariam", conclui.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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