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18/10/2009

Obama: Nobel da Paz, ou da Comunicação?

El País
Francesco Manetto
Barack Obama fez muito pela paz? Sem dúvida falou nela, e valores como o diálogo, o multilateralismo ou o desejo de mudar o mundo impregnam seus já célebres discursos. Mas, nestes tempos de comunicação maciça, por todos os meios possíveis, o simbólico se situa com frequência acima do factual. Por isso, a mensagem antes que o fato, o conceito universal de paz compreensível em todos os códigos de comunicação do planeta, é o que se quis distinguir com o Nobel da Paz. Para alguns, seria melhor chamá-lo de Nobel da Comunicação.
  • Liester Filho/Folha Imagem - 15.jun.2005

    Primeiro presidente americano de origem africana, Obama foi escolhido por seus esforços na redução dos estoques de armas nucleares e por reiniciar o estagnado processo de paz no Oriente Médio



Obama é com toda probabilidade o homem mais famoso do planeta, a "face mais visível" entre os 205 candidatos ao reconhecimento concedido pelo Instituto Nobel de Oslo. Além da ambição de sua agenda política, foram premiados seus gestos, apesar de os EUA ainda terem duas guerras em curso, no Iraque e no Afeganistão, e de a promessa do fechamento de Guantánamo, previsto para o início de 2010, ser, por enquanto, de difícil cumprimento, segundo anunciou o secretário da Justiça.

Antoni Gutiérrez-Rubí, consultor político e assessor de campanhas, reconhece que houve uma mudança de critério em relação às escolhas anteriores, deixando claro que, em sua opinião, se tratou de um prêmio para a "esperança". "Quer dizer", parece que "os discursos e os gestos dos primeiros meses abriram um caminho para a paz". Nesse sentido, segundo ele, convém lembrar que Obama é o chefe do maior exército do mundo, o que transforma de certa maneira a própria concessão do prêmio em uma mensagem à comunidade internacional - porque é "importante que esse chefe atue com essa carga". E assim o Nobel se transformaria em um convite para agir a favor da paz, um verdadeiro "chamado à ação", mais que um reconhecimento a uma paz conquistada.

O colunista e prêmio Pulitzer Thomas L. Friedman ironizou na quinta-feira esse propósito, nas páginas do "Herald Tribune", dizendo que se o presidente encontrasse uma maneira de distribuir os soldados que estabilizarão o Afeganistão e o Paquistão sem mergulhar o país em um Vietnã, então sim mereceria um Nobel, mas o de Física.

Na quinta-feira também transcendeu que, no início, três dos cinco membros do comitê de Oslo foram contrários à concessão, sendo informou o jornal norueguês "VG". A representante no comitê do Partido do Progresso, Inger-Marie Ytterhorn, a conservadora Kaci Kullmann Five e a socialista Agot Valle mostraram objeções. Em particular, Ytterhorn demonstrou suas dúvidas sobre a capacidade de Obama exatamente para manter seu compromisso internacional. "Havia esperado mais debate, especialmente sobre o problemático, a guerra no Afeganistão", explicou Valle.



No entanto, afinal prevaleceu o critério do secretário do comitê e ex-primeiro-ministro trabalhista Thorbjörn Jagland, e os outros membros entraram em acordo. Fizeram-no ressaltando exatamente essa capacidade para criar um "novo clima" na política e nas relações internacionais. Mas o que foi eficaz, em apenas nove meses de mandato, diante dos membros do comitê norueguês? Jagland, além disso, respondeu às críticas afirmando que "Obama foi agraciado com o prêmio exatamente pelo que conquistou". Mas, por enquanto, o que Obama conseguiu é precisamente comunicar e transmitir seu projeto.

"Ele conseguiu difundir uma mensagem de mudança", indica Roberto Izurieta, professor de organização política na Universidade George Washington e consultor. "Porque o prêmio tem a ver com essas mensagens que transmitem esperança em relação ao governo anterior de George W. Bush, que estava mais concentrado em uma mensagem de força", explica.
Como fez isso? Muito tem a ver com seu verdadeiro caráter e com a forma de mostrá-lo aos demais, segundo um preceito dos estudos sobre estratégias de comunicação. Juntos, esses dois aspectos formam um par perfeito, ou quase. "As estratégias políticas eficazes precisam estar de acordo com o temperamento de um líder", prossegue Izurieta, que acompanhou de perto as primárias democratas e a campanha presidencial de Obama no ano passado.

Você sabe como é escolhido o ganhador do Nobel?



Vejamos um exemplo. Na última sexta-feira, nas primeiras linhas do comunicado emitido pela Casa Branca depois da concessão do prêmio, destaca-se um episódio familiar. "Bom dia. Bem, eu não havia previsto acordar esta manhã com isto. Depois de receber a notícia, Malia [filha do presidente] entrou e disse: 'Papai, você ganhou o Prêmio Nobel da Paz e é aniversário de Bo [a cachorra da família]!'... Portanto, é bom ter filhos para que ponham as coisas em perspectiva."

A mensagem de proximidade, de cotidianidade, é evidente. Imaginam Hugo Chávez contando a mesma coisa? Só a comparação exige um esforço de contextualização. É que, nas palavras dos especialistas, os comportamentos não são receitas assépticas que têm o mesmo efeito sobre todas as pessoas. "A mensagem de Obama em um temperamento parecido com o do presidente da Venezuela ou de Rafael Correa não teria o mesmo resultado", afirma Izurieta.

Assim, as promessas do presidente dos EUA, por enquanto, convencem a comunidade internacional, pelo menos as elites. "Seus gestos favorecem uma política de diálogo e negociações, e é exatamente o que foi destacado pelo comitê de Oslo", comenta-se em Washington. O paradoxo, no entanto, é que esse mito de Obama parece às vezes mais europeu que americano. Diego Beas, jornalista e colaborador do Personal Democracy Forum Europe, um encontro sobre o impacto das novas tecnologias na política, acredita que esse prêmio "foi concedido no momento mais adequado para que os republicanos possam criticar Obama". Tratar-se-ia, na sua opinião, da "desculpa perfeita para dizer que o presidente está mais perto das elites europeias e que não tem cintura política suficiente para resolver os problemas dos cidadãos".

À margem da crítica, trata-se de um comentário que de alguma forma revela a importância da chamada "marca Obama". Um conjunto de mensagens, estratégias, atitudes que não teriam significado a mesma coisa há apenas 20 anos. A face amável e o humor do presidente americano funcionam tão bem, em todo o mundo, por duas razões, segundo os especialistas: porque coincidem com seu verdadeiro caráter e porque estão de acordo com o espírito de nossos tempos, globais, multilaterais, mas, sobretudo, sensíveis aos símbolos, à influência do ciberespaço e à importância da comunicação. Izurieta o explica graficamente no livro "Cambiando la escucha" [Mudando a escuta]: "Em uma era de entretenimento, quando Madonna ou Al Pacino conseguem os maiores índices de audiência, os políticos devem competir com eles para conseguir a atenção do público".

A audiência de Obama é mundial e o fascínio que exerce sobre ela se reflete também nas palavras que concluem a decisão do comitê do Instituto Nobel. "Durante 108 anos, o comitê norueguês do Nobel tentou fomentar exatamente essa política internacional e essas atitudes das quais Obama é hoje porta-voz mundial. O comitê apoia o apelo de Obama que diz que 'este é o momento de todos nós assumirmos nossa parte de responsabilidade para uma resposta global aos desafios globais'."
Um dos primeiros a qualificar de prematura a concessão do prêmio foi o ex-presidente polonês Lech Walesa, co-fundador do sindicato solidariedade. "O quê?", espetou surpreso para jornalistas que lhe perguntaram sua opinião. "Já? Foi rápido demais. Obama ainda não teve tempo de fazer nada", ele disse. Walesa, que recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1983, foi agraciado em um momento chave e esse reconhecimento também foi estratégico para seu tempo, ao representar um revés para o Kremlin. No entanto, o prêmio para Walesa se justificava por suas conquistas reconhecidas.

Por esta razão, na quinta-feira, por exemplo, o presidente da Fundação Príncipe de Astúrias afirmou que os prêmios de "estímulo" deveriam ser uma exceção diante de trajetórias assentadas. E por essa razão algumas das ONGs mais ativas no panorama internacional ainda preferem guardar certa distância, e, embora felicitem o mandatário americano pela concessão do prêmio, também lhe lembram que ainda resta um caminho a percorrer. A Anistia Internacional o instou a concentrar seus esforços para promover a paz em torno da justiça, dos direitos humanos e do Estado de Direito, "em consonância com o espírito do galardão recebido". "O presidente Obama tomou algumas medidas positivas no sentido de melhorar os direitos humanos nos EUA e em outros países, mas ainda resta muito a fazer", deixa claro Irene Khan, secretária-geral da organização.

O diretor da Human Rights Watch, Kenneth Roth, pede a Obama em um comunicado um ato concreto de boa vontade: "Por exemplo, pôr fim à derrota que representa o centro de detenção de Guantánamo e garantir que os prisioneiros sejam julgados ou libertados, como o presidente Obama honrará este prêmio". Da comunicação à realidade; das palavras aos fatos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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