UOL Notícias Internacional
 

20/10/2009

Embustes do golpista Micheletti e as manobras do deposto Zelaya bloqueiam saída para crise política

El País
Pablo Ordaz
Na Cidade do México (México)
Como se o presidente Manuel Zelaya não tivesse inimigos suficientes, agora são seus amigos que se empenham em apertar ainda mais a corda ao redor de seu pescoço. O último foi o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega. Ele declarou no sábado que "a resistência hondurenha" anda buscando armas e campos de treinamento em território da Nicarágua, Guatemala e El Salvador. É preciso reler três vezes a informação para assegurar-se de que as declarações são efetivamente de Daniel Ortega, e não do golpista Roberto Micheletti, que, desde que os militares tiraram Zelaya de Honduras, há mais de três meses, não fez outra coisa que lançar calúnias e mentiras para se manter a todo custo no poder que usurpou. Os embustes dos golpistas e os disparates dos supostos amigos de Zelaya confabulam para fazer do conflito hondurenho um lamaçal onde afundam todos os prognósticos. Sobretudo os mais otimistas.

Você acredita num acordo que ponha fim à crise?

As mentiras de Micheletti são muitas e muito variadas. Disse que revogaria o estado de sítio que decretou há quase um mês e ainda não o fez. Disse que puniria o responsável por tirar Zelaya do país e o general Romeo Vásquez continua à frente do exército. Disse que seus três negociadores tinham plenos poderes para pactuar com os de Zelaya uma saída para o conflito, mas cada vez que se aproximam lhes dão um banho de água fria, radicalizando-se ainda mais...

Mas entre todas as mentiras se esconde uma verdade. Foi o que confessou o próprio Micheletti à bem-intencionada e enorme delegação da Organização dos Estados Americanos (OEA) que visitou Tegucigalpa nos últimos dias 8 e 9 de outubro. "Prestem atenção ao que lhes digo", disse aos signatários em meio a uma grande bronca pela televisão, "neste país não tememos os EUA nem o Brasil nem qualquer outra potência estrangeira... O único que tememos aqui é Mel Zelaya. Temos pânico de Mel Zelaya."

Personagens da crise: os protagonistas

  • AP Photo/Jose Luis Magana

    Manuel Zelaya foi eleito presidente de Honduras pelo Partido Liberal (centro-direita) em 2005 e assumiu no ano seguinte, com mandato até 2010. Durante seu governo, aproximou-se dos governos de esquerda da região e Honduras passou a fazer parte da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), bloco liderado por Venezuela e Cuba. Em junho deste ano, tentou promover um referendo para mudar a Constituição e permitir a reeleição presidencial, iniciativa que foi considerada ilegal pelo Parlamento e pelo poder Judiciário. No dia 28 de junho, quando iria levar adiante a votação, Zelaya, ainda de pijamas, foi expulso do país por militares e deposto do cargo de presidente. Voltou ao país de modo secreto em 21 de setembro, e desde então está abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa

  • REUTERS/Tomas Bravo

    Roberto Micheletti, também do Partido Liberal, era presidente do Parlamento hondurenho quando Zelaya foi deposto. Assumiu a Presidência e defende que a manobra foi legítima, com o objetivo de proteger o país de um suposto golpe de Zelaya contra a democracia. Durante seu governo interino, que não foi reconhecido por nenhum outro governo, o país foi expulso da OEA e teve parte do financiamento externo congelado

E por isso os negociadores de Zelaya e Micheletti se desesperam cada vez que, superados todos os outros trâmites, tropeçam repetidamente na mesma pedra: a restituição do presidente deposto. Manuel Zelaya afirma em boa lógica que se não voltar a ocupar a cadeira presidencial os golpistas terão ganhado. A comunidade internacional, com uma unanimidade nunca vista, o apoia. Mas qualquer um que tenha falado desde 28 de junho - data do golpe - com Micheletti, o general Vásquez, os juízes, os políticos e os empresários; tenha lido os jornais hondurenhos e observado o ódio que pelo menos a metade da população professa por Zelaya duvida muito de que alguma vez possa ser tirada a fotografia, mesmo que simbólica, de Zelaya voltando ao poder na Casa Presidencial. E então?

Então passam-se os dias, o presidente deposto cumpre sua jornada número 27 encerrado na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, Micheletti aparece feliz rentabilizando a classificação da seleção de futebol para a Copa do Mundo e os candidatos dos diferentes partidos executam, diante de uma população mais preocupada com a dengue e a violência de rua, um arremedo de campanha para as eleições que deverão se realizar em 29 de novembro. Eleições que deveriam ser a saída do labirinto, mas que a comunidade internacional não reconhecerá se Zelaya não regressar à Casa Presidencial... mesmo que seja por um curto período, com os poderes mutilados e para a foto.

Sabendo que as coisas estão assim complicadas, farto de seu cárcere diplomático forrado com papel de alumínio para evitar as supostas radiações do inimigo, Zelaya faz o impossível para suavizar seu perfil de líder arrogante, amante dos microfones e das declarações exageradas. É então que entram em cena seus amigos e colegas... O nicaraguense Daniel Ortega e o venezuelano Hugo Chávez apareceram no sábado na Bolívia com declarações que são um verdadeiro presente para Micheletti. Disse Ortega: "A resistência hondurenha está buscando armas..." Insistiu Chávez: "Só estou alertando. Não sou um incentivador. Mas que ninguém se surpreenda se surgir um movimento armado nas montanhas de Honduras". A resistência, como não poderia ser diferente, negou de forma taxativa que esteja buscando fuzis ou treinamento, nem fora nem dentro de Honduras.

Zelaya não quer ser o diabo com chapéu que Micheletti pinta com os lápis que Ortega e Chávez lhe emprestam.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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