UOL Notícias Internacional
 

21/10/2009

Af-Paq ou Paq-Af?

El País
M.Á. Bastenier
Desde outubro de 2001 se trava uma guerra pelo Afeganistão, às vezes de baixa intensidade, mas ultimamente com febre alta, que ameaça se transformar na guerra de Barack Obama, hoje às voltas com a necessidade de definir uma estratégia vitoriosa ou sofrer um grave contratempo presidencial. Obscurecida pelo desatino do Iraque, a contenda só passou ao primeiro plano durante a campanha do líder democrata à Casa Branca. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas norte-amerocanos, almirante Mike Mullen, considerou em outubro passado impossível "ganhar a guerra só matando inimigos".

Duas escolas de pensamento se chocam sobre como se ganha ou se perde essa guerra, iniciada por George W. Bush sem qualquer plano de paz ou de reconstrução. A versão restritiva é encabeçada pelo vice-presidente Joe Biden, que quer uma troca de prioridades entre o que se denomina Af-Paq (Afeganistão-Paquistão) para o Paq-Af, congelando a contenda no primeiro país enquanto se orienta o maior esforço militar para o vizinho Paquistão. Segundo essa posição, no Afeganistão a guerra é travada fundamentalmente contra insurgentes, os taleban, com presença da Al Qaeda, mas no Paquistão é onde estão os santuários do terrorismo internacional.

Exército paquistanês ergue novas bases para controlar a zona taleban

O general Athar Abbas explicou que o exército está consolidando suas posições antes de continuar avançando no território dos mehsud, a tribo que constitui a espinha dorsal dos taleban paquistaneses. A Operação Caminho da Salvação constitui um teste da determinação do governo para enfrentar uma insurgência cada vez mais ousada. No terceiro dia de operações morreram dois soldados e 18 rebeldes, o que eleva as vítimas mortais para nove e 78, respectivamente, segundo as cifras oficiais



Biden rejeitaria, por isso, qualquer aumento do contingente norte-americano, que é de 89 mil soldados. E a versão expansiva, que domina o general Stanley McChrystal, comandante dos EUA e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Afeganistão, pede de 40 mil a 60 mil soldados a mais para poder começar a se pensar em ganhar a guerra. Afirma-se que essa injeção de efetivos deu resultado há dois anos no Iraque, mas não pode ser a única receita.

É duvidoso que no Iraque se conseguisse a pacificação relativa que conhecemos porque chegaram 30 mil novos soldados. Esta deve ser atribuída à compra, suborno ou aluguel de cerca de 100 mil ex-militares sunitas, na maioria militantes do regime de Saddam Hussein, que estavam desempregados e agradeceram a ajuda para mudar de lado.

No Afeganistão, o pessoal que poderia fazer isso, a etnia pashtun, se opõe cada vez mais ao regime do presidente Hamid Karzai, ao qual, embora também seja pashtun, considera vendido a minorias como a tayiko. E, especialmente, em um meio de geografia tão pouco urbana, é difícil enquadrar alguém como se fez com os sunitas de Bagdá e das cidades iraquianas. Além disso, nem tudo o que brilha é reforço.

No Vietnã, quando o contingente norte-americano atingiu sua maior cifra, 500 mil militares, só 70 mil se encontravam simultaneamente em combate, tal era o apetite logístico de um exército que precisa de três refeições diárias e frequentes viagens de refresco à retaguarda. Enquanto uma divisão norte-americana consumia 20 toneladas mensais de víveres, as unidades norte-vietnamitas equivalentes ingeriam duas, segundo fontes do Pentágono. Esse novo contingente seria tão guloso quanto os anteriores, e só uma fração se somaria à força combatente.

Há, no entanto, uma terceira escola, talvez compatível com a Paq-Af, que é defendida vagamente pela administração de Cabul: a negociação com os taleban, com os quais já falaram emissários de Karzai no final de setembro na Arábia Saudita. Essa posição se basearia em que seria possível conviver com os fundamentalistas, presentes de alguma maneira no poder, porque, uma vez desligados da Al Qaeda, não constituiriam ameaça para Washington. Mas o câncer é o próprio Afeganistão. Se no Iraque, embora ao preço de um desastre humano, se pode falar em um esquema de administração é porque uma maioria do país, os 70% de xiitas, quer um Estado viável, na medida em que eles o governem.

Ao contrário, as recentes eleições presidenciais, declaradas fraudulentas pela ONU (Organização das Nações Unidas), poderiam ter de se repetir, e Karzai não está em condições de negociar nem de controlar nada. A corrupção, os chefes guerreiros, o trabalho nulo de reconstrução empreendido pela força internacional - Cabul está sem água corrente e eletricidade -, falam de um país sem Estado, que é o que teria de ganhar a guerra e promover a paz. Em 2008, havia 85 mil soldados afegãos treinados pela força estrangeira, e até 2011 se prevê que aumentem para 150 mil, mas seu ânimo de combate parece limitado.

Bush tinha de fazer algo diante do megacrime das Torres Gêmeas e, com o amparo da ONU, desencadeou a operação Afeganistão. Esta é, por isso, uma herança legítima de Obama, mas não menos venenosa. Sem mencionar a crise mundial, o conflito árabe-israelense, o Irã nuclear ou o futuro do Iraque, o presidente norte-americano também joga aí seu mandato.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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