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21/10/2009

"Vamos para o trabalho como quem vai para a prisão", conta empregado da France Télécom

El País
Antonio Jiménez Barca
Em Paris (França)
São cerca de 200 trabalhadores, a maioria de meia-idade. Pertencem à France Télécom, a empresa francesa mais famosa nos últimos meses, tristemente, devido à onda de suicídios que a abala: 25 em 19 meses. O último aconteceu na semana passada, quando um operário em licença se enforcou em sua casa na região da Bretanha. As duas centenas de trabalhadores se reuniram ontem em uma pequena praça de Paris para protestar pela morte dele, mas também pela situação laboral de todos, pelo ambiente estressante e indigno, que, segundo eles, sofrem diariamente e que causa a crise.

Suicídios na France Télécom obrigam governo francês a agir

Não há gritos nem lemas, aplausos ou insultos. Eles formam grupinhos, conversam quase em voz baixa. Em um desses grupos está Patrick, 58 anos, que se apressa a contar sua história: "Eu era técnico. Trabalhei a vida inteira como técnico. Cuidava de instalar redes de telefone embaixo da terra. Mas depois me disseram que precisava me reciclar. Puseram-me em uma sala para vender por telefone produtos da empresa: televisão ou internet, ofertas disso ou daquilo... Eu aguentei, mas outros não: pedem licença ou a aposentadoria antecipada..."

Todos concordam: por trás do mal-estar crônico dos trabalhadores dessa empresa de mais de 100 mil assalariados, dos quais 80 mil são funcionários públicos, encontra-se o duplo processo de reestruturação que sofre a companhia: a empresa estatal passou em 1995 a se transformar em uma empresa privada (26,5% do capital continuam nas mãos do Estado), que por sua vez se metamorfoseia constantemente para competir em um setor exposto a uma incontível evolução tecnológica.

Um diretor que ontem, embora um pouco afastado, se encontrava no lugar do protesto, resumiu assim a situação, depois de um gesto de tristeza: "Não sei como chegamos a isto. Suponho que porque tudo foi feito depressa demais e sem contar com as pessoas. E as pessoas não são um computador que se pode ligar e desligar ao capricho de quem manda".

A onda de suicídios causou a queda do número 2 da companhia, Louis-Pierre Wenes, a cabeça visível do processo de transformação, e ameaça acabar com o cargo do presidente, Didier Lombard, que apesar da pressão garantiu na semana passada que não está disposto a se demitir.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, o índice de suicídios na França (um dos mais altos da Europa) é de 26,2 por 100 mil habitantes para homens e 9,2 para mulheres. Na France Télécom se situa em 18, entre homens e mulheres. Mas todos concordam que há algo errado quando os suicídios aparecem repetidamente relacionados com o local de trabalho.

Perto do diretor, no meio de um grupo mudo, como quase todos neste protesto de gente abatida, encontra-se Jean-François Cascoux, sindicalista de 50 anos, empregado no departamento de administração da empresa, que vê claramente quem é o culpado: "Tudo é condicionado ao lucro. Antes éramos uma empresa com vocação de serviço público. Agora só servimos aos acionistas. Mas os que se jogam pela janela não são os acionistas, nem os banqueiros, como em 1929, mas os trabalhadores. Uma funcionária se atirou há um mês e meio aí em Paris, porque seu chefe lhe havia dito que iam transferi-la e porque não parou de lhe dizer nos últimos meses que não servia para nada".

Esse operário afirma que nos últimos anos os trabalhadores foram pressionados demais: "E os mais frágeis simplesmente não aguentaram". Depois denuncia as transferências fulminantes ("devido às reestruturações, de um dia para outro mudam você de cargo e o obrigam a mudar-se 100 quilômetros"); critica "as condições de trabalho de alguns operários de 50 anos, transferidos para vendas por telefone, tratados como se estivessem na creche, obrigados a pedir licença para ir ao banheiro".

E conclui: "Há um ambiente depressivo para todos. Porque todos, mesmo que não estejamos muito mal agora, nos perguntamos: 'O que vai ser de mim no futuro? Quanto tempo vou durar?' Vamos para o trabalho como se fôssemos para a prisão".

A empresa tomou medidas: paralisação das transferências fulminantes, ajuda psicológica, questionários enviados aos trabalhadores para conhecer sua situação. Mas os sindicatos desconfiam e exigem uma mudança de filosofia.

Em uma esquina, com dois companheiros, Valerie Febrier, 45 anos, afirma: "Fizeram o possível para que as pessoas não sejam felizes, para que os que somos funcionários públicos vamos embora. Ainda faltam 15 anos para eu me aposentar. Não sei como vou trabalhar, como vou aguentar, como vou fazer para continuar todo esse tempo".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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