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26/10/2009

O livro mais longo da história

El País
Ana Teruel
Em Paris (França)
Londres, 1943. Os aliados se reuniam na capital britânica para começar a organizar o mundo depois da barbárie nazista e já surgia uma ideia que levou mais de meio século para se concretizar. Foi a primeira vez que se falou de escrever uma história universal na qual se enfatizasse o que os povos haviam construído juntos, em oposição à destruição da guerra, um trabalho que a Unesco levou a cabo a partir da década de 50. O resultado são seis coleções de uma média de sete volumes nas quais foram mobilizados mais de 1.600 especialistas de todo o mundo durante quase seis décadas. No começo do mês, vários autores que participaram dessa aventura se reuniram em Paris para analisar como melhor divulgar esse tesouro que constitui o livro mais longo da história.

O gigantesco projeto começou oficialmente com o início da coleção História da Humanidade em 1952, batizada num primeiro momento de "desenvolvimento científico e cultural da humanidade", num esforço para relatar uma visão histórica multidisciplinar. Com os anos, foram somadas outras quatro coleções regionais sobre a África, Ásia Central, América Latina e Caribe, e uma temática sobre o Islã. Falta publicar três volumes do Caribe e um sobre o Islã antes do final do ano que vem.

"A visão em si já era utópica", relata Ali Moussa, chefe da sessão de diálogo intercultural da Unesco. "Entretanto, entre a utopia e a realidade, sempre há um abismo". Quando foi criada a primeira comissão de especialistas, em plena Guerra Fria, as divisões eram patentes entre os ocidentais e especialistas do Oriente. Apesar de tudo, conseguiram superar as diferenças e levar o projeto adiante. O outro grande desafio era fugir do etnocentrismo e o primeiro debate foi sobre a divisão da história. É célebre o episódio do especialista chinês que destacou que, durante o Renascimento europeu, no século XIII, seu país já havia tido vários renascimentos e decadências.

Apesar dos esforços, a primeira versão continuou sendo muito europeia e já nos finais dos anos 70 foi lançada uma segunda edição mais universal, cujo último volume saiu finalmente no ano passado. Havia sido lançada uma História Geral da África, destinada a "descolonizar a história do continente e mostrar sua diversidade". À medida que foram se tornando independentes, a partir dos anos 60, os países africanos foram ingressando nos organismos internacionais, incluindo a Unesco, e reclamaram uma coleção dedicada a seu continente. Aqui também os debates foram constantes, como um que aconteceu em 1964 no Cairo sobre o caráter africano do Egito antigo. "O Egito para os ocidentais sempre foi separado da África, apresentado como uma história mediterrânea, mas alguns especialistas insistiram que ele está ancorado no vale do Nilo", explica Moussa.

Seguiram as coleções sobre a Ásia Central, uma região sobre a qual não existia nenhum estudo geral, América Latina, num esforço para se aproximar da história desde o ponto de vista de suas sociedades, sobre o Caribe, privilegiando "uma visão desde o interior" e sobre as contribuições do Islã ao mundo. No processo, vários dos maiores colaboradores não viveram para ver sua obra completa, como o historiador americanista espanhol Guillermo Céspedes del Castillo, falecido em 2006.

"Todo esse trabalho não tem sentido se não for conhecido, utilizado, reutilizado e relido", explica Moussa. A primeira tarefa será agora a tradução. No momento, as seis coleções não estão disponíveis em um único idioma. A da América Latina existe só em espanhol e a do Caribe só em inglês. Para aumentar sua difusão, a organização também sabe que precisa publicar edições mais baratas, utilizar as novas tecnologias para distribuir conteúdos gratuitos online e lançar uma estratégia mais agressiva para aumentar sua presença nas universidades. Ainda que sua grande ambição se centre no continente africano.

A Unesco participará da próxima conferência de ministros de Educação da União Africana, com a qual trabalha para elaborar conteúdos pedagógicos de primeiro e segundo graus comuns à todos os Estados.

Conta com o apoio político dos governos em questão e com um financiamento de dois milhões de dólares da Líbia. "Se funcionar, a África será o primeiro continente que terá baseado sua integração regional numa história comum", assinala Moussa. Embora o projeto tenha sido concebido durante a Segunda Guerra Mundial, tenha superado as tensões da Guerra Fria e mudado de prisma com a descolonização, surge hoje como um antídoto à teoria do choque de civilizações de Samuel Huntington. "Depois da guerra em que houve um choque das ambições, aspirávamos à compreensão mútua. É incrível que 50 anos mais tarde, essa ideia tenha voltado e tenha tido uma repercussão formidável", considera Moussa. "É uma generalização vulgar e grotesca crer que uma cultura é um bloco, para mim, realmente, é o cúmulo da estupidez".

Tradução: Eloise De Vylder

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