UOL Notícias Internacional
 

27/10/2009

Guerra suja na direita francesa

El País
Antonio Jiménez Barca Em Paris (França)
Tudo começou com um bolsista espertinho, chamado Florian Burges, aficionado por romances policiais, que enquanto trabalhava como ajudante dos consultores da Arthur Andersen no banco luxemburguês Clearstream, gravou sem permissão uma listagem de contas bancárias ocultas que só continha números, e as levou para sua casa em um disquete, convencido de que as cifras ofereciam chaves para descobrir um sistema de lavagem de dinheiro. Essa é a peculiar origem do caso "Clearstream", cujo processo judicial, que determinou parte da vida política francesa, se desenrolou durante um mês e terminou na sexta-feira. Por ele passaram, além do bolsista (agora gestor de creches), generais-espiões, confidentes mentirosos, juízes, ex-ministros e jornalistas especializados em revelar "podres".
  • Maya Vidon/EFE - 02.mai.2006

    O velho confronto entre o presidente Nicolas Sarkozy e ex-premiê Dominique de Villepin polarizou por meses a vida política na França



Mas, acima de tudo, serviu para que o ex-premiê e ex-ministro de Relações Exteriores, Dominique de Villepin, acusado de denúncia caluniosa, e Nicolas Sarkozy, presidente da República, reclamante, dois pesos pesados da direita francesa que sempre se detestaram, continuassem se enfrentando, desta vez em um tribunal e com uma multidão de advogados no meio.

Quem ganhou? Não se sabe. A sentença, que será emitida em 28 de janeiro, esclarecerá se Villepin, que em 2003, quando era ministro de Relações Exteriores, personificou na tribuna da ONU a voz da velha Europa para denunciar a guerra do Iraque, é culpado de ter torpedeado a emergente carreira de Sarkozy ao permitir que uma denúncia caluniosa seguisse seu curso, deixando seu rastro de veneno por onde passava: as mesmas listas roubadas pelo bolsista, já falsificadas com nomes introduzidos clandestinamente, entre eles o de Sarkozy, enviadas a um juiz especializado em assuntos obscuros e de corrupção.

O político de porte nobre e atraente, de modos aristocráticos, teve dias memoráveis no julgamento, que fez relembrar o convincente orador e astuto comunicador de outras épocas: no primeiro dia, quando toda a França olhava para a sala do tribunal onde aconteceria o julgamento, Villepin aproximou-se da muralha de câmeras de televisão para denunciar o "encarniçamento" de Sarkozy ("estou aqui por ele", disse), reservar para si a primeira página de todos os jornais do dia seguinte e assim ganhar em um minuto o primeiro assalto de uma luta que ainda não havia começado, e que duraria um mês.

O segundo assalto chegou no quinto dia do julgamento, quando um Villepin sereno, firme, reconvertido em seu papel de homem de Estado, contestou ter participado do complô uma vez que "no Ministério de Relações Exteriores se trabalha com certezas", e negou ter mencionado ou ouvido o nome de Sarkozy na reunião chave de toda essa história, realizada no gabinete de Villepin em 9 de janeiro de 2004.

Mas depois chegou a vez de juntar as peças. Testemunhou outro dos presentes nessa reunião determinante, o general Philippe Rondot, um velho especialista em espionagem aposentado que tem a mania de anotar tudo em caderninhos de campo. Rondot afirmou que o nome de Sarkozy surgiu propositalmente na listagem que o terceiro participante da conferência, Jean-Louis Gergorin, acabava de tirar do bolso do paletó. Assim escreveu Rondot em seu caderninho, e assim o ratificou, diante do olhar gelado de Villepin. O segundo momento em que a distinção de Villepin cambaleou foi há poucos dias, quando o promotor o acusou de lavar as mãos, apesar de conhecer a lista e saber que era falsa. "Pôncio Pilatos não pode permanecer impune", disse o promotor.

Em torno dessa trama política a dois, ronda outra dupla protagonista na peculiar fauna do caso Clearstream, composta pelo citado Gergorin e por Imad Lahoud. O primeiro, ex-diretor do conglomerado European Aeronautic Defense and Space Company (EADS), 53, é um tipo nervoso, medroso, arisco, pálido, obcecado pela morte de seu chefe nas mãos da máfia russa, segundo ele, principal acusado, segundo o promotor, de todo o complô, encaminhado a prejudicar, além de Sarkozy, velhos colegas e altos cargos de sua antiga empresa, também introduzidos na lista falsa.

Próximo de Gergorin sempre esteve Lahoud, 43, ar de estudioso ou de iluminado, óculos redondos de armação preta, ex-corretor da Bolsa, especialista em informática tão inteligente quanto instável, obcecado pela ascensão social e por se aproximar dos poderosos, ex-confidente do general Rondot, que o considerava muito pouco confiável por alardear o fato de conhecer Bin Laden, mentiroso crônico que deu durante a instrução várias versões do caso.

Foi ele que, através de um jornalista investigativo, conseguiu o disquete do bolsista, e que introduziu o nome de Sarkozy próximo de uma das contas. Segundo ele, porque Gergorin, para quem trabalhava na EADS, depois lhe exigiu que a manipulasse. "Foi uma etapa de minha vida em que eu estava muito frágil, e ele se aproveitou, eu era sua coisa", afirmou na sexta-feira em uma emissora de televisão. Gergorin nega tudo.

O juiz determinará no dia 28 de janeiro quem está mentindo, se é Gergorin ou Lahoud, e quem vence, Sarkozy ou Villepin.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,79
    3,152
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    1,18
    65.148,35
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host