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27/10/2009

Procura-se um papa negro

El País
Miguel Mora
Em Roma
Muitos em Roma lembram que no dia em que Carol Wojtila foi eleito papa, em 1978, Carlo Cremona, um padre que comentava o conclave pelo rádio, exclamou ao vivo: "'Coño', nomearam um papa negro". Quase 30 anos depois, a canção "Sarà vero, vogliamo un Papa Nero" (Será verdade, queremos um papa negro) foi um sucesso no Festival de San Remo e a canção mais ouvida de 2004. Mas, por acaso, o catolicismo está pronto para fazer o que fizeram os EUA, escolhendo Barack Obama para presidente? O Vaticano terá alguma vez um chefe negro, ou, como diria Berlusconi, bronzeado?

A ideia pode parecer descabida, mas Filippo di Giacomo, ex-missionário no Congo durante 12 anos, lembra que seria apenas uma volta às origens, "já que na série dos primeiros dez sucessores de São Pedro quatro eram africanos ou, melhor dizendo, 'afer', quer dizer, de pele negra". Nas últimas três semanas o Sínodo Africano reuniu em Roma 247 bispos e 14 cardeais do continente faminto. A assembléia, que terminou na última sexta-feira, refletiu sobre os problemas africanos e abordou o futuro de uma forma crítica. Sobre o desenvolvimento e suas vertentes paz e justiça, os bispos lançaram duras críticas contra a política financeira e adotaram ideias dos fóruns antiglobalização. O documento final atribui "guerras e conflitos, crises e caos" às "decisões e ações de pessoas que não têm qualquer consideração pelo bem comum e, com frequência, à cumplicidade trágica e criminosa entre responsáveis locais e interesses estrangeiros".

Relatório aponta Mianmar, China e Irã como piores em liberdade religiosa

O governo norte-americano expressou nesta segunda-feira sua preocupação com a repressão religiosa em Mianmar (antiga Birmânia), China e Irã, e em outros países considerados menos restritivos, como Venezuela e Cuba, onde a liberdade de culto também é desprezada. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, apresentou o relatório anual sobre liberdade religiosa, que analisa as restrições, abusos e melhoras para garantir a diversidade de culto e que serve como indicador para sua política externa.



Os bispos denunciaram o saque de riquezas naturais por parte das multinacionais que recorrem à corrupção das elites políticas locais. "O que a BP, a Shell ou a Mobil fazem no delta do Níger não posso imaginar que o façam no mar do Norte ou no Texas", disse John Olorunfemi Onaiyekan, arcebispo de Abuja, Nigéria. O sínodo reclama um modelo de comportamento ético das empresas que operam na África, critica a falta de formação das classes dirigentes locais africanas e clama contra a OMC (Organização Mundial do Comércio), que "sufoca o desenvolvimento da agricultura e das indústrias locais, impedindo o autoabastecimento".

"Ao contrário do sínodo de 1994, desta vez a África contou a si mesma desde dentro", explica Filippo di Giacomo. "O que causa indignação é que uma reunião aberta, com um documento que parece escrito por Gramsci e que aborda todos os temas que a esquerda invoca na campanha eleitoral tenha sido ignorada por um preconceito anticlerical idiota. O sínodo foi uma assembléia do Terceiro Mundo como as de Bandung e Medellín nos anos 50 e 60, mas a esquerda mais uma vez olhou para outro lado."

Além disso, em Roma se escutaram gritos de rebelião das mulheres africanas. O cardeal Turckson, de Cabo Costa (Gana), reputado sociólogo, disse que é preciso "evangelizar a cultura tradicional para libertá-la da poligamia, da violência doméstica, das discriminações nas heranças, dos casamentos forçados..." Felicia Harry, superiora da Congregação das Missionárias de Notre-Dame , reivindicou que "as freiras não devem servir só para ensinar o catecismo, decorar as igrejas, lavar ou remendar os hábitos, mas devem fazer parte dos conselhos paroquiais e diocesanos".

A coexistência com o islamismo é outro tema crucial. O sínodo elogia a coabitação de países como Nigéria, Gana ou Camarões, afastada do modelo violento que rege em lugares como o Sudão, onde houve seis crucificados nas últimas semanas. Os bispos pediram ao Vaticano que adapte as liturgias do continente ao rito clássico latino (medida já aprovada no Congo pelo cardeal Ratzinger em 1987). E lembraram que a disciplina canônica em ambientes de fome, doença, pobreza e promiscuidade "deve servir como alternativa social inspirada nas categorias culturais do povo e não das hierarquias".

Além disso, defendem a versão africana da Teologia da Libertação, elaborada, entre outros, por dois camaronenses: o teólogo jesuíta assassinado Engelbert Mweng e seu discípulo Jean Marc Ela, recém-falecido no Canadá. "Nossas dioceses devem ser modelos de bom governo, de transparência e de boa gestão financeira", dizem as conclusões. "Temos de continuar fazendo o possível para combater a pobreza, grande obstáculo para a paz e a reconciliação. As sugestões nesse âmbito para criar programas de microcrédito merecem uma atenção particular."

Na última década o catolicismo africano aumentou seus fiéis em 700%, segundo o Vaticano, e hoje 30% das paróquias italianas têm párocos de fora da comunidade, na maioria subsaarianos. Dentro de dez anos a África será um dos grandes viveiros do catolicismo, e com 25% de batizados vai superar os 20% que haverá no Ocidente. "Esse peso se refletirá sem dúvida na composição do conclave", salienta Disse Giacomo. Em Roma se diz que o papa gostaria que cardeais como Napier, da África do Sul, ou Turckson, de Gana, fossem trabalhar na Cúria. Até hoje os dois papáveis agradeceram à Ratzinger e o fizeram saber que preferem continuar, como disse Gustavo Gutiérrez, "bebendo a água de seu próprio poço".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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