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28/10/2009

Um tupamaro da terceira idade quer ser presidente no Uruguai

El País
Miguel Ángel Bastenier
O que é preciso para que um ex-guerrilheiro tupamaro chegue à presidência de um país como o Uruguai, líder de estabilidade política na América Latina? Não tanto que ele renuncie ao que foi, como que se faça maior e mude o mundo ao seu redor. José Mujica, 75 anos, é o tupamaro da terceira idade que hoje, depois da realização do primeiro turno das eleições presidenciais, tem a oportunidade de chegar ao cargo, embora em posição mais frágil que seu antecessor, Ramón Tabaré Vázquez, porque o partido de ambos, a Frente Ampla, perdeu a maioria no Parlamento.

Haverá segundo turno em 29 de novembro, no qual Mujica enfrentará o candidato do Partido Nacional, Luis Alberto Lacalle, que presidiu o país como defensor do neoliberalismo de 1990 a 1995. O esquerdista certamente havia obtido a maioria absoluta de votos válidos, mas como no Uruguai são computados os votos em branco e nulos ficou "ad portas", com 48% das preferências expressas, contra 28% de seu rival, que no entanto recebeu o apoio do resto da direita, para impedir que um ex-inimigo do sistema chegue ao poder, mesmo em tempo de desconto.

A sociedade uruguaia, basicamente fabricada entre o fim do século 19 e a Segunda Guerra Mundial, com a marca do grande presidente modernizador José Batlle y Ordóñez (1903-07; 1911-15), é possivelmente a mais antiga da região; uma "antiguidade" sem dúvida à europeia, nascida com a colônia e cinzelada com a refundação imigratória desse período, depois do extermínio dos indígenas, à diferença da pura antiguidade cronológica que reclamam os povos originários da América. As sociedades indígenas da Bolívia, Equador e Peru ficaram irremediavelmente feridas pela conquista espanhola e hoje são uma realidade truncada e assimétrica, onde o tradicional é uma invenção moderna e o antigo se perdeu ou é um colar de miçangas. Por isso, a população uruguaia, que por sua homogeneidade e caráter ocidental não poderia servir de modo algum de arquétipo do latino-americano - e quem pode? -, é no entanto o perfeito portador do legado daqueles primeiros pais.

Esse mundo já havia completado um ciclo modernizador com a vitória da esquerda em 2005 e a conseguinte presidência de um social-democrata de manual, Tabaré Vázquez; essa vitória havia dado lugar a uma primeira grande alternância ao fim de um século e meio de dominação do Partido Colorado, que deteve o poder desde 1864, com apenas duas interrupções a favor do Partido Branco em 1958-64 e a citada de 1990-95; a Frente Ampla aspira por isso a consolidar sua "uruguaiedade" com esse mandato do veterano ex-revolucionário, também de manual, José (Pepe) Mujica.

Por isso, não é de estranhar que a campanha eleitoral fosse de entonação retrospectiva. Lacalle acusou o esquerdista de não ter deixado de ser quem era, de ter empunhado armas guerrilheiras no início dos anos 70 contra um governo democrático, senão matado ele próprio alguns de seus inimigos "contra-revolucionários"; e disse temer por isso não o tupamaro que foi, mas o radical injusto que, segundo o candidato de direita, poderia ser hoje; e Mujica atribuiu a Lacalle antigas concupiscências com o próprio general Franco e, para escolher modelos mais próximos, Pinochet Ugarte ou Alberto Fujimori.

O duelo Mujica-Lacalle constitui, por fim, um novo confronto em escala latino-americana. Se ganhar o primeiro, embora já tenha feito saber que prefere a esquerda educada do brasileiro Lula à estrepitosa do venezuelano Chávez, este último ficaria confortado com a manutenção do equilíbrio entre direita e esquerda, hoje favorável a esta última; mas se o fizer o segundo, o bloco conservador e pró-americano - Peru e Colômbia, potências principais - teria melhorado suas posições.

O resultado do 29 de novembro será, como complemento, a primeira de sete consultas presidenciais que em um ano modificarão ou não o alinhamento externo da América Latina. O Uruguai agora; o Brasil em outubro de 2010 para a sucessão do esquerdista Lula; e no meio Honduras, do neochavista Manuel Zelaya; o Chile da socialista Michelle Bachelet; a Bolívia do indigenista Evo Morales; do centro-esquerdista Oscar Arias na Costa Rica; e do direitismo de Álvaro Uribe na Colômbia. Se a mudança afetar Brasil e Chile, a América Latina teria mudado de cara. Tudo isso começa com a modesta disputa dentro de um mês entre um ex-tupamaro e um conservador de toda a vida.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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