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29/10/2009

A geração "Peter Pan" está hipotecada

El País
Josep Garriga
Nos EUA eles foram batizados de "kidults" - do inglês "kid" (criança) e "adults". Na América Latina optaram pelo jogo de palavras "adultescentes", pela união de "adultos" com "adolescentes". Na Espanha os sociólogos preferem defini-los como trintões com síndrome de Peter Pan, enquanto os especialistas em marketing os chamam de Geração X. Segundo os últimos dados demográficos do Instituto Nacional de Estatística, constituem o segmento de população majoritário na Espanha, com quase 8 milhões de pessoas, e em consequência representam um grupo crescente de consumidores.

São os últimos filhos do "baby boom" dos anos 1970, e em geral todos correspondem aos mesmos padrões. Fazem parte da geração mais bem preeparada, mas que se chocou com um mundo que mudou repentinamente diante de seus narizes. Agora, devem construir uma nova realidade e pensam, talvez com razão, que estão chegando tarde. São jovens que romperam esquemas, abriram novos caminhos à base de lutas sociais e, de repente, se veem amarrados a uma hipoteca ou, pelo contrário, têm de voltar ao ninho familiar, para a casa da qual ansiavam se emancipar. Definitivamente, um fim de percurso infernal. E dizem a si mesmos: "Não entendo nada".

O único refúgio que lhes resta hoje é o retorno à fase juvenil. Mas, como retroceder no tempo se mostra impossível, mantêm as mesmas atitudes e formas de lazer de então. Por isso são chamados de "kidults", "adultescentes" ou Peter Pan.

O problema dos trintões começa - e nunca melhor dito - em seu pecado original: o próprio tamanho de sua geração. Não é que nasceram muitos; nasceram demais. O índice de fecundidade alcançou 2,8 filhos por mulher fértil. Esse estigma os marcou desde então: massificaram as classes das escolas, depois as do colégio, as da universidade e, uma vez com o diploma embaixo do braço, as filas de pedido de emprego e os departamentos de desemprego.

O sociólogo Enrique Gil Calvo aponta que, além de seu peso demográfico, os trintões herdaram o objetivo de se emancipar com um apartamento próprio, uma cultura enraizada na Espanha e na Itália, mas não no norte da Europa, onde o próprio Estado promove e subvenciona o aluguel. "Aqui o Estado do bem-estar só se entende para as pessoas mais velhas, de modo algum para os jovens", afirma o sociólogo Pau Miret, do Centro de Estudos Demográficos. "E na Espanha as pressões para comprar uma moradia eram muito fortes e constantes", acrescenta. A porcentagem dos que residem em propriedades próprias na Espanha se situa em 92%, contra 6% em imóveis de aluguel.

Mas como comprar uma residência com um contrato temporário e sem estabilidade no emprego? A Geração X foi a primeira que assinou hipotecas com prazo de 35 e 40 anos. "Se hipotecavam não só pelo fato de comprar um apartamento, mas porque significava comprar a emancipação a que todo jovem anseia. E os bancos aproveitaram esse anseio", resume Lorenzo Navarrete, decano do Colégio de Sociólogos de Madri. A essa pressão familiar e social - "um aluguel é jogar dinheiro fora", os recriminavam - somou-se a queda das taxas de juros e entidades financeiras que os receberam de braços abertos.

No entanto, sua situação se assemelha à do peixe que morde a cauda. O primeiro pilar para a transição para o mundo adulto é o mercado de trabalho, porque representa a base para o resto das transições. Isto é, a compra da moradia, a criação de uma família e os filhos. Mas se o primeiro pilar não é suficientemente sólido ou se parte, o resto se afunda e, com ele, inclusive a trajetória vital. Por isso a idade de emancipação na Espanha se situa entre as menores da Europa, em 45,6% do total de jovens.

"Pouco a pouco o efeito se multiplica, porque enquanto não conseguirem o capital para dar a entrada no apartamento ou um contrato estável vão adiando a saída de casa. Mas continuam pensando que a compra de uma residência é o melhor investimento, porque o título universitário não basta", insiste Gil Calvo, que denomina esse grupo Geração H, devido a "hipoteca". Um relatório dos EUA evidencia que os trintões representam a primeira geração que, em termos relativos, ganha menos que a de seus próprios pais.

"É a primeira geração na história da humanidade que não teve de fazer o que seus pais faziam. Isso cria incerteza. Além disso, o totem da residência lhes falhou", comenta Gerard Costa, professor de marketing social da escola de economia Esade. E Navarrete, de acordo com essa análise, aponta outra frustração: "Brigaram por todos e com todo mundo, e em muitas ocasiões atiraram a toalha para poder ir embora. E agora quase não desfrutam essas conquistas sociais que conseguiram. É uma geração à qual devemos muito, e eles, por sua vez, também devem muito, mas aos bancos".

Esse contexto turbulento criou, segundo a maioria dos sociólogos, uma geração desencantada, desorientada, perplexa, arrasada, com sensação de peso, enormes e constantes dúvidas porque o mapa de caminhos que seus pais traçaram já não lhes serve e precisam se orientar com um novo, em branco, e com valores diferentes. "É uma geração decepcionada, que não se adaptou, que poderia romper mas não o fez, e isto comporta um desgaste. Mas eu vejo o eixo nas dúvidas, já que se encontraram sem rede de proteção e têm uma sensação de oportunidade perdida", resume Gerard Costa.

Os trintões casados que buscam descendência, em sua maioria, copiam esses parâmetros de dúvidas constantes, considera Calvo. "Saberei ser um bom pai?", perguntam-se. "Têm medo de fazer errado. Mas, incapazes de impor autoridade aos filhos, decidem mimá-los e superprotegê-los. Os protocolos de seus pais não lhes servem e agora precisam de um manual de utilização", comenta. Mas inclusive neles - no casal - se dá uma contradição: culturalmente são transgressores e modernos, mas social e politicamente conservadores. "É uma mistura contraditória e ambivalente", acrescenta o sociólogo.

Esse conservadorismo também se verifica em seu imobilismo profissional e em sua visão do mundo do trabalho. Para seus pais, o sucesso e o progresso profissional representavam uma meta; em troca, os trintões têm outra escala de valores e dão maior importância a outra série de elementos, como o lazer e satisfazer suas emoções. Por isso, como salienta Costa, "as empresas atacaram sem dó essa faixa etária".

Os slogans publicitários da loja de móveis Ikea refletem com precisão a situação pessoal e o estado de espírito dos trintões. "Onde cabem dois, cabem três" não se destinava aos casais que queriam ser pais, mas aos trintões chamados "bumerangue", os que voltam para a casa de seus pais depois de uma etapa frustrada e frustrante de emancipação. E são inúmeros. "Redecore sua vida" era um gancho para essa geração que não entende nada perpétuo e é desencantada, indica Pilar Alcázar, jornalista e autora do livro "Entre singles, dinkis, bobos y otras tribus", sobre as oportunidades de negócios destinadas a esses grupos de 30 anos. E por fim "A República independente de sua casa" é sinônimo de busca de emancipação, inclusive no lar. Também é dirigido aos que vivem sozinhos. E a Geração X é a mais abundante. Segundo a última EPA, do terceiro trimestre de 2009, na Espanha há 539.300 residências unifamiliares de pessoas ativas nessa faixa etária.

O consumo dos trintões está ligado sobretudo ao lazer entendido como retorno e nostalgia à fase juvenil, porque também implica uma mudança de valores. "Antes era malvisto que uma pessoa tivesse um lado infantil, mas hoje é diferente", acrescenta Alcázar. "É um segmento mais consumidor. Quando era jovem entreviu essas coisas mas as desfrutou com limitações. Agora pode fazê-lo com amplidão", acrescenta Costa. E Navarrete traz sua explicação sociológica: "A síndrome de Peter Pan é a garantia de manter a equidistância entre se sentir integrado e ao mesmo tempo livre. Mesmo já pensando como adultos, conservam atitudes e atributos juvenis. Uma luta contracultural". Também é verdade que os termos "juventude" e "juvenil" foram ampliados e incluem pessoas de 34 anos que são e se sentem jovens.

Os estudos de mercado e, definitivamente, os hábitos consumistas desses trintões não falham. Em Barcelona, por exemplo, se esgotaram as famosas bonecas Baby Mocosete. Não foram compradas pelos pais para seus filhos, mas pela mãe para seu próprio prazer. No último fim de semana, o filme de desenho animado "Vicky, o Viking" bateu recordes de bilheteria. A maioria dos espectadores eram trintões com sua prole. O mesmo aconteceu em 2005 com "Mortadelo e Salaminho". Os exemplos se estendem aos musicais de Mecano, Abba ou Queen. Ou à reedição de filmes como "Guerras nas Estrelas". Ou aos anúncios: a recuperação do spot em preto e branco do gel Legrain-París e o "Anda, los donuts". E, como não, a Playstation ou o Autorama.

"Quanto ao lazer, são jovens que gastam muito. Mas poupam em coisas práticas, porque não deixam que os enganem. Utilizam as companhias aéreas de baixas tarifas ou os 'outlets' de roupas. Mas em troca gastam muito para satisfazer suas emoções e caprichos", afirma Alcázar. E Gerard Costa exemplifica: "A figura do Jockey do Batman custa mais de 200 euros (R$ 522) e foi um sucesso. E as de Tim Burton se esgotaram". A Baby Mocosete também custa mais de 200 euros.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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