UOL Notícias Internacional
 

31/10/2009

A última glória da dança moderna

El País
Roger Salas
Em Haia (Holanda)
O adeus de Jiri Kilian serve para comemorar os 50 anos do National Dans Theater da Holanda. A incerteza pesa sobre o futuro da segunda companhia e fecha a terceira.

Uma rainha cercada de coreógrafos e falando descontraidamente sobre a ciência corêutica [o estudo do movimento do corpo no espaço]; um ministro da Cultura que costura um próspero e informado discurso comprometido com as necessidades e encruzilhadas da dança; um diretor de festival (Samuel Wuersten) que em seu discurso não falou dele mesmo nem de seus amigos, mas do que não pôde fazer no terreno global: um teatro abarrotado de artistas, público de balé, antigos bailarinos e mestres, jovens que são o futuro.

Uma verdadeira comemoração: o 50º aniversário do Nederlands Dans Theater (NDT), a companhia de balé moderno mais sólida da Europa e um dos eixos estilísticos do que acontece e aconteceu no gênero neste último meio século. A festa de gala dava início também ao Holland Dance Festival, este ano dedicado ao NDT. Dezenove dias com 70 apresentações e 20 produções, e onde, nos próximos dias 6 e 7 de novembro, estará a Companhia Nacional de Dança da Espanha.

Uma celebração sem exclusões. Na gala realizada no Lucent Danstheater, salientou-se tudo o que participou do empenho, tanto no trabalho criador como em seu avatar e sobrevivência, e onde houve, como disse no final um emocionado Jiri Kilian (nascido em 1946), grandes alegrias e grandes catástrofes, risos e brigas, êxitos e fracassos.

O teatro Lucent, sede e berço do NDT, preparou-se a fundo para essa festa. A reunião começou com um emocionante filme documentário de 15 minutos que relata sucintamente desde o branco e preto inicial aos sofisticados vídeos atuais toda a trajetória do conjunto, e que será visto no Teatro Real em junho de 2010. De 1959 até hoje, ensaios, turnês e estréias.

Vê-se a mítica Alexandra Radius, um Hans van Manen com topete muito anos 60, as primeiras incursões na televisão, os primeiros nus integrais do balé moderno, a construção desde a base da nova sede e um entusiástico Carel Birnie que tira do bolso do casaco uma maquete de papelão em miniatura para explicar à câmera a disposição das salas e a gestação do milagre.

Porque é verdade que em certo sentido o NDT é um milagre de bem fazer. Ao aparecer no documentário um trecho da "Sinfonietta" (Kilian/Janacek), o público não se contém: grita e aplaude.

O ambiente de festividade não tira a determinação. Tanto Kilian como Jim Vincent, atual diretor do conjunto, referiram-se com amargura em seus discursos aos cortes orçamentários e ao inevitável desaparecimento da NDT3 (a companhia dos velhinhos); sobre a NDT2 (a dos jovens) há muita incerteza.

A festa se compôs de três estreias absolutas, o que deixa claro a filosofia que sempre alimentou essa instituição: o novo em primeiro lugar. Começou com "Mémoires d'Oubliettes", de Kilian, espécie de despedida próxima da obra-prima e demonstrando capacidade e um poder formal que o situa como o coreógrafo de balé moderno vivo mais importante do planeta. Seguiu-se "Studio 2", da dupla composta pela espanhola Sol León e o inglês Paul Lightfoot, encerrando com "dissolve in this" do sueco Johan Inger.

Não se sabe o que seria da firma Lightfoot-León sem a blindagem cenográfica. De fato, continuam produzindo refugiados nas possibilidades de grande formato custoso e da mobilização tecnológica; dir-se-ia que dependem dessas sólidas estruturas.

Não é o caso de Kilian, que podemos despojar desses elementos e continua, potente, a substância do material coreográfico em toda a sua riqueza essencial; também se deve indicar que Lightfoot-León faz um uso epidérmico da música de Arvo Pärt (já coreografada inúmeras vezes) e que os bailarinos correspondem a estímulos dinâmicos distantes da proposta musical e baseados em efeitos.

A terceira peça está muito ligada à plástica visual de Forsythe, ao high-tech e à dureza de tratamentos corporais. Sobressai sob todas as luzes "Mémoires...", em que o checo nos fala do lixo, da impossibilidade de carregá-lo ou escondê-lo, ou simplesmente mostrá-lo. Lixo físico e moral que destrói qualquer ambiente vital. Foi um jubileu com três balés sombrios, pessimistas, amargos e próximos do tenebrismo. São os tempos que correm.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host