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31/10/2009

Michael Bloomberg, o rei da Big Apple

El País
Antonio Caño
Em Nova York
O multimilionário de 67 anos, que a revista "Forbes" situa como o homem mais rico de Nova York e a oitava fortuna dos EUA, com um patrimônio aproximado de US$ 17,5 bilhões, se apresenta na terça-feira pela terceira vez (depois de mudar a lei que o proibia) na eleição para a prefeitura de Nova York.

Por um dia, depois de muitos anos, Michael Bloomberg encontrou esta semana concorrência em Nova York. O começo do campeonato mundial de beisebol, ao qual os New York Yankees não chegam desde 2003 e que não ganham desde 2000, eclipsou por um momento a figura onipresente do prefeito mais poderoso que esta cidade já teve.

Por alguns dias, sua campanha para a reeleição foi silenciada pelos gritos dos torcedores - "Let's go Yankees, let's go!" - e seu rosto nos jornais foi substituído pela grande figura do esporte nacional na atualidade, o soberbo jogador de beisebol Alex Rodríguez.

Isto não representa um grande prejuízo para Bloomberg. O prefeito não precisa de muita publicidade: ganha por mais de 10 pontos em todas as pesquisas, e quiseram os torcedores nova-iorquinos que a vitória de sua equipe nesta final estivesse tão próxima quanto a de seu prefeito na próxima terça-feira. A coincidência dos dois acontecimentos reforça, em todo caso, o momento brilhante que vive esta cidade.

Nova York melhorou ostensivamente com Bloomberg. Os índices de criminalidade caíram - sem necessidade de recorrer aos métodos extremos de seu antecessor, Rudolf Giuliani -, aumentou a qualidade da educação e dos serviços públicos e se resistiu ao assédio da crise econômica.

Em linhas gerais, pode-se dizer que Nova York se recuperou em todos os sentidos da comoção dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e que a Bloomberg, que assumiu pela primeira vez a prefeitura apenas quatro meses depois dessa trágica data, se deve conceder grande parte do crédito.

É o que reconhecem os três jornais da cidade, incluindo "The New York Times", que pediram em seus editoriais o voto para Bloomberg. Embora se apresente como candidato do Partido Republicano e do Partido

Independente, também conta com o apoio de muitos democratas da esquerda refinada desta cidade, que aplaude sua política social, sua posição avançada sobre a imigração e sobretudo sua liderança nacional na luta contra as armas de fogo. Bill Clinton o chamou de "grande prefeito". Barack Obama o promoveu a "prefeito extraordinário".

Ele é tolerado pelos negros e hispânicos, aceito pelos sindicatos - agradecidos pelos aumentos de salários dos funcionários públicos - e, é claro, aplaudido pelos grandes patrões de Wall Street, encantados que um dos seus governe sua cidade. É difícil encontrar um setor influente desta sociedade que não manifeste reconhecimento público pela gestão de Bloomberg.

Muitos de seus méritos são, porém, consequência direta de seu dinheiro. A revista "Forbes" o situa como o homem mais rico de Nova York e a oitava maior fortuna dos EUA, com um patrimônio aproximado de US$ 17,5 bilhões. É uma quantia suficiente para ter podido pagar uma brilhante carreira política - seu nome soou com frequência para a Casa Branca - sem ter de recorrer ao penoso processo de coleta de fundos em que outros políticos investem a maior parte de suas energias.

Nessa última campanha, calcula-se que gastou US$ 150 milhões, um recorde absoluto, muito acima do que outros grandes milionários da política americana, como Ross Perot ou Steve Forbes, investiram em suas respectivas aventuras.

Mas, mais que para ganhar campanhas, Bloomberg usa seu dinheiro, procedente principalmente da empresa de informação econômica que leva seu nome, para ganhar influência. Em seu último debate eleitoral, nesta terça-feira, seu adversário, William Thompson, revelou que depois que a prefeita da cidade vizinha de Newark divulgou seu apoio a Bloomberg este lhe enviou um cheque de US$ 26 mil para sua campanha de reeleição.

Bloomberg não desmentiu. Nunca negou o benefício do dinheiro na política nem renunciou a sua situação de privilégio. "Se alguém crê realmente que está fazendo algo e pode deixar um legado de melhores escolas, mais postos de trabalho e ruas mais seguras, por que não gastar dinheiro?", disse o prefeito em certa ocasião. "O objetivo é melhorar a educação, reduzir a criminalidade e construir casas, e não competir politicamente em igualdade de condições."

Com essa filosofia, Bloomberg obteve a candidatura do Partido Independente depois de entregar US$ 250 mil a essa formação. Também tem o apoio de mais de 500 importantes ONGs que vivem literalmente de suas generosas contribuições. No ano passado Bloomberg dedicou US$ 235 milhões a obras de caridade e instituições sem fins lucrativos.

Sua casa na Rua 79 Leste de Manhattan é o destino mais cotado de Nova York. Há algumas semanas, em um jantar em homenagem ao prefeito de Londres, estiveram, junto de uma plêiade de artistas e conselheiros delegados, Rupert Murdoch, Arthur Sulzberger e Mort Zuckerman, respectivamente, proprietários de "The New York Post", "The New York Times" e "The Daily News".

A relação de Bloomberg com a mídia é excelente. Apesar de não ser um grande orador, seu aspecto aristocrático e seu estilo descontraído funcionam bem nos programas de televisão, nos quais é assíduo. Quanto aos jornais, todos viram nele um aliado muito conveniente nestes tempos de crise.

Tanto que várias vezes se insinuou a possibilidade de que ele compraria "The New York Times". "Melhor ele que esse mexicano", disse um diretor do jornal a Ben McGrath, um redator da revista "The New Yorker", referindo-se ao empresário Carlos Slim.

A imprensa passou, portanto, muito por alto nestas últimas semanas pelo fato tão polêmico há pouco tempo de que Bloomberg teve de mudar a legislação para poder concorrer a seu terceiro mandato. O mesmo "New York Times" condenou em sua época a pretensão de Giuliani de prolongar seu mandato. Não foi simples para Bloomberg tomar essa decisão. Nem sequer sua fortuna servia, até pouco tempo atrás, para dissipar as dúvidas que um terceiro mandato despertavam entre a população.

Um terceiro mandato não só violava o espírito da Constituição americana como coroaria Bloomberg como o rei da Grande Maçã, uma posição imprópria da tradição republicana deste país.

A crise financeira do verão de 2008 representou para Bloomberg a grande oportunidade para dar o passo. A incerteza que essa crise provocou entre as grandes famílias e os cidadãos modestos de Nova York elevou a figura do prefeito a limites sem precedentes. Apesar desse período tormentoso, anunciou sua decisão de se candidatar novamente.

Seja por desejo de notoriedade ou por seu insaciável espírito empreendedor, é notável que, aos 67 anos, um homem com seus recursos insista na labuta de uma prefeitura. Alguns de seus íntimos, que não são muitos, contaram que seu intento é deixar uma marca indelével nesta cidade, superar lendas como Fiorello La Guardia ou Nelson Rockefeller, e embora ainda não tenha uma praça famosa com seu nome sua fortuna já é mais de dez vezes maior que a do célebre mecenas.

A revista "New York", que há 40 anos publica uma lista com as pessoas mais influentes da cidade, concluiu em seu último número que "Bloomberg se transformou na única figura que realmente conta".

Exerce o poder quase sem contestação, e com tantos recursos quanto os do presidente do país. Conta, por exemplo, com seu próprio Air Force One, dois modernos Falcon que põe frequentemente a serviço de amigos poderosos, como o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. Entre seus aliados estão personagens tão relevantes desta cidade como o ex-governador Mario Cuomo.

Tudo isso é suficiente para garantir o apoio dos cidadãos? O dinheiro pode comprar o afeto dos eleitores? O dinheiro pode comprar as eleições? Certamente não. Provavelmente, se sua obra fosse insignificante, sua grande fortuna não teria bastado para que as pesquisas fossem tão favoráveis quanto são hoje.

Talvez, se o recolhimento de lixo não fosse feito hoje de forma mais pontual que nunca, nada teria evitado que a cidade estivesse hoje apostando em outro prefeito.

Mas Bloomberg é um trabalhador. Ninguém o viu gabar-se de seus méritos, menosprezar um adversário ou sentar-se no trono do sucesso. Como ele confessou em suas memórias, nunca se sentiu por cima de ninguém nem deu por garantido nenhum êxito. Reúne dois atributos que, como a beleza e a inteligência, não se juntam com frequência, mas quando o fazem são garantia de vitória: dinheiro e modéstia.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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