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01/11/2009

"Sou socialista, mesmo sendo rico", diz Sting

El País
Joseba Elola
Gordon Matthew Sumner é um homem que está colocando ordem em sua vida. Sua mãe morreu aos 53 anos; seu pai aos 57; ele acaba de completar 58. Não pode ir ao enterro de nenhum dos dois quando eles faleceram no final dos anos 80; estava em turnê. Gordon Matthew Sumner, mais conhecido como Sting, diz que hoje em dia está enfrentando os fantasmas do passado.

El País: O que esse processo lhe traz?
Sting:
Uma sensação de estar ligando os pontos, de fechar um círculo; de que não fique nada sem ser dito nem feito. Estou num período da minha vida em que preciso colocar as coisas em ordem.

El País: Por quê?
Sting:
Porque é isso que os seres humanos fazem em algum momento. Há uma parte de sua vida na qual tudo é caos, movimento; há outro momento no qual você precisa ordenar e limpar a casa.
  • Reuters

Agora faz 33 anos que ele deixou Newcastle em busca de uma carreira musical em Londres. Foi em dezembro de 1976, no comando de um Citroën Dyane abarrotado. Com ele viajavam Frances, sua primeira mulher; Joseph, seu primeiro filho, recém-nascido, e um cachorro. Pouco suspeitava naquele momento que viajava rumo a um sucesso mundial com sua banda, The Police, o projeto pelo qual será lembrado. O grupo com o qual disse que nunca voltaria a tocar e com o qual percorreu o mundo há um ano e meio.

Há alguns meses, Gordon Matthew Sumner voltou a Newcastle. Fez a viagem de volta. Para enfrentar seus fantasmas, diz. Seu novo lançamento não está livre do processo no qual anda debruçado. "In on a Winter's Night" é uma coleção de canções de inverno onde há chaminés, espíritos, contos e fantasmas. Sting abriu as portas de sua casa em Londres ao El País. Apareceu com o aspecto de um Capitão Haddock de olhos azuis e cabelo castanho. Bonito, alto e hoje, um pouco seco.


El País: Então estamos diante do seu álbum branco.
Sting:
Sim, com sorte será isso. Parece que as pessoas gostam, pode ser que faça sucesso. Não esperava fazer esse disco agora.

El País: Por que não?
Sting:
Porque nunca sei o que vou fazer em seguida. Alguém me sugeriu há 18 meses: "Por que não faz um disco de natal?". Eu respondi: "Não, não faço isso. Farei um disco sobre o inverno". Comecei a pesquisar discos sobre o inverno de diferentes séculos. Canções sagradas, seculares, folk... Para produzir um disco diferente; não é um disco normal.

El País: É um pouco estranho que, a estas alturas de sua carreira, alguém chegue da gravadora para sugerir que você faça um disco de Natal.

Sting se move no assento de couro preto no segundo andar de sua casa em Londres. O couro preto do sofá range pela primeira vez durante esta entrevista

Sting: Eu escuto as sugestões, posso dizer sim ou não. Mas, bem, sim, provavelmente é uma ideia comercial. Para mim o inverno é uma estação que me intriga, me inspira.

A casa de Sting em Londres fica a quase meio quilômetro do Palácio de Buckingham. Fica de frente para o parque St. James. No segundo dos quatro andares fica a sala em que acontece a entrevista, um espaço para relaxar, para tocar: piso de largas tábuas de madeira, sofá de couro preto desgastado tipo Chester, um piano de cauda, um suporte com partituras e um baixo elétrico do qual se apropriou a rainha da casa, sua filha Coco.

Coco também é protagonista nas almofadas do sofá da sala, no térreo. O rosto de cada um dos quatro filhos fruto de seu segundo casamento com a atriz e produtora Trudie Styler está estampada nas almofadas que repousam sobre o sofá. Todo um exercício kitsch.


El País: Como foi a turnê de reunião com o The Police? Disseram que houve, mais uma vez, uma briga de egos no grupo.
Sting:
Isso não é o importante. O importante é que atamos os pontos, fechamos o círculo. Dissemos: "Aqui estamos". Precisávamos mostrar ao público que podíamos voltar a fazê-lo. Esta aí.

El País: Ficou satisfeito com a experiência?
Sting:
Foi uma das turnês mais bem sucedidas da história. Meu instinto foi de fazê-la nesse momento, eu me sinto bem. Criamos um sentimento de nostalgia, o público desfrutou disso. Ganhamos muito dinheiro, consegui mais liberdade. Foi um sucesso em todos os níveis.

Sting pronuncia a palavra sucesso com orgulho. Ele continua fazendo sucesso. Ainda que seja um sucesso baseado no passado. Ainda que seus trabalhos se baseiem, já faz alguns anos, em repertórios alheios. Ainda que a inspiração como compositor lhe pareça esquiva e que viva fundamentalmente abraçado a suas qualidades de intérprete, quer seja para cantar músicas tradicionais (as do compositor John Dowland do século 16 em "Songs from the labyrinth", 2006), as canções que compôs quando era jovem (eis aí sua turnê 2007-2008 com o The Police) ou seu novo lançamento, onde há temas de Schubert e Bach.

El País: Por que não gravou algo novo com o The Police?
Sting:
Porque havia sido um exercício para criar nostalgia. Não íamos fazer nada novo. Foi isso o que pensei.

El País: Isso foi algo que você percebeu durante a turnê?
Sting:
Acho que sabia disso desde o princípio. Que íamos recriar algo, não fazer algo novo.

Sting vendeu 80 milhões de álbuns com o The Police. Têm vinhedos em sua propriedade da Toscana, onde gravou o disco, que será lançado em 10 de novembro; um castelo em Wiltshire (sudoeste do Reino Unido); uma cobertura dúplex em Manhattan, Nova York; uma casa em Malibu, Los Angeles. Sua fortuna está estimada em 205 milhões de euros, segundo a lista dos homens mais ricos do jornal The Sunday Times.

El País: O que ainda existe daquele jovem que subiu num Citröen Dyane no final de 1976?
Sting:
Encontrei-me com esse cara há pouco tempo, voltei à minha cidade. Passei duas semanas lá. Fazia 40 anos que eu não passava duas semanas lá.

El País: Em Wallsend [sua cidade natal]?
Sting:
Na região de Newcastle. Estive com a minha gente. Encontrei velhos amigos, pessoas com as quais estudei; encontrei com alguns fantasmas que já não estão entre nós, mas que continuam na minha mente, mais fantasmas do que eu imaginava... Vi a mim mesmo fazendo essa viagem há 40 anos, e decidi voltar. Teve sentido para mim, de certa maneira, isso deu forma à minha vida.

El País: E reconhece o cara do Citroën?
Sting:
Claro que o reconheço, e o compreendo melhor do que ele me compreende. Ele não me entende para nada. É bom fazer isso numa idade como a minha, 58, e ter essa perspectiva da vida em vez de andar à deriva.

El País: Numa entrevista que foi publicada nesse jornal, você dizia...
Sting:
Deve estar certo, então.

El País: Deve estar certo, sim; você dizia que gostava do jogo da fama e do sucesso. Continua gostando?
Sting:
Sim. Continua sendo um jogo, de toda forma, e os jogos não são tão importantes. São divertidos. Mas isso não é a vida. A vida está em outro lugar. A vida são as relações, a família, os amigos. Eu não me vejo como esse personagem famoso, não me vejo como Sting. Sei quem sou e leio coisas absurdas sobre mim, às vezes falam de uma pessoa muito má, outras de uma pessoa muito boa, mas a verdade está no meio. Não quero ser nem o demônio, nem o santo; gosto de ficar no meio, gosto dessa liberdade.

El País: A fama também tem um custo.
Sting:
Sim, veja a vida de Michael Jackson, o cantor de pop mais famoso do mundo e provavelmente o mais infeliz, a equação é simples: o sucesso e a fama não significam felicidade, às vezes significam o contrário. Eu posso andar por qualquer cidade que não sou incomodado. Eu não convido a histeria, não vou com guarda-costas, assim as pessoas me respeitam, cumprimentam-me, podem pedir uma foto e eu tiro, mas não há histeria nem sensação de medo; odeio isso. Michael Jackson é o meu exemplo, ele estava rodeado de... histeria, do tipo equivocado de atenção... Assim não é surpresa que já não esteja entre nós.

El País: Outro jornal publicou que uma de suas cozinheiras, Jane Martin, acusou-o de tê-la demitido por estar grávida em 2007 e revelou algumas intimidades sobre seu estilo de vida. A mulher ganhou o julgamento. Como acabou essa história?
Sting:
[Tosse] Emprego mais de 100 pessoas na minha casa, em minhas casas. Estão muito contentes, eu as trato muito bem, sou muito generoso. Há ocasiões em que algumas pessoas querem tirar mais dinheiro, mais dinheiro; e a melhor maneira de tirar mais dinheiro é mentir, sempre há alguém que quer ouvir uma nova história sobre você, sempre. Vão aos jornais, contam a história, isso é uma merda. Não é certo [diz com um fio de voz].

El País: Há 15 anos você se colocava à frente de múltiplas causas, como a preservação da floresta amazônica; você tinha uma maior presença como ativista. Foi dissuadido pelas críticas que recebeu?
Sting:
Não foi pelas críticas. Simplesmente, às vezes, as celebridades e as causas confundem, porque as pessoas veem você, mas não veem aquilo do que você está falando. Agora fico nos bastidores. Arrecado fundos e são outros os que falam, os especialistas. Meu instinto me dizia há 20 anos que se destruíssemos a floresta, o clima sofreria. Agora comprovamos cientificamente o aquecimento global, portanto eu não estava falando besteira.

El País: Logo haverá eleições no Reino Unido, parece que os conservadores retomarão o poder. Qual é a sua opinião?
Sting:
Bom, aqui costumava haver uma esquerda; ela já não existe mais. É como se houvesse um só partido, nos parecemos mais com os EUA. E talvez isso não seja bom.

El País: Seu coração continua de esquerda, ou não mais?

Sting se mexe, o couro preto do sofá volta a ranger.

Sting: Sim, eu venho da classe operária. Continuo sendo de esquerda, continua sendo socialista [e ao se ouvir, começa a rir, como que antecipando a reação de alguns quando o lerem], embora seja muito rico.

El País: É?
Sting:
Sim.

El País: E o fato de ser tão rico não faz com que tenha nenhum conflito interior?
Sting:
Não. Sou muito rico, mas invisto o dinheiro nas pessoas. Emprego muita gente. Gasto o dinheiro, não guardo, eu gasto; e acredito que o gasto bem.

El País: O que você aprendeu durante a gravação deste último disco?
Sting:
o disco é sobre enfrentar os fantasmas do passado. Acredito que isso é o inverno: você se senta com os fantasmas e fala com eles, escuta o que eles têm a dizer. E só então pode passar para a primavera. É preciso enfrentar o passado.

El País: Foi esse processo que o levou a voltar a Newcastle?
Sting:
Sim, de certo modo. Foi bom voltar às minhas raízes. Há muitos fantasmas na minha vida: meus pais, meus amigos, minhas amantes... Há mais fantasmas do que eu lembrava. Foi bom falar com eles.

El País: E como se faz isso?
Sting:
Eles vêm à cabeça e você tem que lidar com eles. E não escapar.

El País: É um processo duro ou é algo que ajuda?
Sting:
É difícil, mas é importante fazê-lo; para sua psicologia, também. Se você o faz, logo pode seguir adiante.

Tradução: Eloise De Vylder

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