UOL Notícias Internacional
 

02/11/2009

O vespeiro do Afeganistão-Paquistão

El País
Carlos Mendo
Peshawar, Rawalpindi, Islamabad, Kandahar, Cabul. São nomes que até pouco tempo atrás, para encontrá-los, era preciso recorrer à literatura de Rudyard Kipling - um paquistanês de Lahore, se tivesse nascido em nossos dias - ou aos capítulos da obra magna de Winston Churchill sobre a história dos povos de fala inglesa dedicados à aventura colonial britânica no sul da Ásia, que se refletiu na criação do British Raj, ou administração inglesa, que abrangia do Afeganistão à atual Mianmar.

Entenda a violência no Paquistão e no Afeganistão

Por que há conflitos nos dois países, e há alguma ligação entre eles? O mundo tem motivos para se preocupar com a violência nos dois países? O que está sendo feito para combater os militantes?

Hoje esses lugares protagonizam uma série quase diária de chacinas indiscriminadas de civis - homens, mulheres e crianças inocentes - massacrados algumas vezes em nome do fundamentalismo islâmico mais extremista, e outras pelo ódio intertribal alimentado pela etnia pashtun, majoritária dos dois lados da famosa linha Durand que teoricamente divide Paquistão e Afeganistão. E digo teoricamente porque a fronteira de mais de 2.500 km que separa os dois países ao longo da linha traçada em 1893 pelo então secretário das Relações Exteriores do governo britânico na Índia, sir Mortimer Durand, para pôr fim à guerra anglo-afegã nunca foi totalmente aceita por nenhum dos dois governos devido às ambições territoriais de Afeganistão e Paquistão sobre as zonas pashtun dos dois lados da fronteira.

E, para acrescentar gasolina à fogueira, existe outro fator de risco, que desestabiliza ainda mais, se possível, a situação: a desconfiança genética do Paquistão, especialmente de suas forças armadas, da Índia, produto de três guerras entre os dois países - duas pela Caxemira e uma terceira pelo desmembramento do Paquistão Oriental, hoje Bangladesh -, desde a divisão do subcontinente decretada pela Grã-Bretanha em 1947 e que deu lugar ao nascimento das duas nações.

Boa prova dessa desconfiança é que, apesar dos ataques mortais taleban no coração das principais cidades do país, dois terços do exército paquistanês continuam concentrados não só na Caxemira, mas no resto da fronteira com a Índia. A ofensiva para reconquistar o vale do Swat no centro do país foi contundente e um verdadeiro êxito para suas forças armadas.

A atual no Wuaziristão sofre de fragilidade, como se se pretendesse, na opinião de especialistas militares ocidentais, mais que destruir a guerrilha taleban, eliminar só a sua cúpula. Como declarou na última sexta-feira o enviado especial americano à região, Richard Holbrooke, os EUA estão tentando averiguar se o exército pretende simplesmente "dispersar" os militantes (do Wuaziristão) ou, pelo contrário, busca sua destruição, como desejaria Washington.

Afinal, não seria a primeira vez que o serviço secreto paquistanês utiliza os taleban para desestabilizar as zonas de fronteira com o Afeganistão e como agentes terroristas na Caxemira indiana. Apesar de os EUA sob o governo Obama terem fundido acertadamente a estratégia para os dois países em uma só política, Af-Paq, e apesar de uma ajuda de US$ 7,5 bilhões a Islamabad nos próximos cinco anos, a cúpula militar paquistanesa, cujas relações com o governo civil do presidente Asif Ali Zardari se deterioram, reluta em empregar-se a fundo nas áreas tribais. E tem motivos para essa relutância, que nasce da desconfiança sobre a posição dos EUA como aliado do Paquistão no futuro.

Não só não compreendem que Washington, que recentemente consagrou a Índia como potência nuclear apesar de não ser signatária do tratado de não-proliferação, não pressione Nova Déli para conseguir um acordo na questão da Caxemira, como lembram do estampido dos EUA no Afeganistão uma vez consumada a retirada soviética do país em 1989. E as indecisões de Obama na definição de uma nova estratégia e no envio de tropas ao Afeganistão, somada à atitude suicida abandonista predominante nos países europeus da Aliança Atlântica integrados à Isaf, só fazem aumentar esse temor paquistanês.

Esse é o panorama que Hillary Clinton encontrou em sua primeira visita como secretária de Estado a Islamabad, saudada pelos terroristas com uma chacina de cerca de cem pessoas em Peshawar na véspera. E as promessas de amor eterno ou as declarações de que "a luta do Paquistão é a luta dos EUA" são necessárias e oportunas. Mas por si sós não vão mudar a percepção do problema. Trata-se de uma questão de liderança, que imprima uma confiança baseada na determinação. E essa liderança e essa determinação estão ausentes, por enquanto, em Washington.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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