UOL Notícias Internacional
 

03/11/2009

Karzai: a imagem do "novo" Afeganistão

El País
R. Lobo Em Cabul (Afeganistão)
Em um mundo governado pela imagem, Hamid Karzai obteve metade de seu êxito internacional graças a seus trajes exóticos: a capa verde de seda chamada chapam e seu gorro karakul. Essa elegância causou sensação em sua primeira aparição nos Estados Unidos. Era fevereiro de 2002. O contraste entre aquele homem educado que se expressava em um inglês perfeito e os grosseiros talebans que disparavam seus canhões contra os Budas de Bamiyan e maltratavam as mulheres resultou na mais eficaz campanha política.
  • Presidential Palace/AP

    Mudança em curso O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, conquistou os americanos por ser um homem educado e com inglês impecável, muito diferente dos grosseiros talebans iconoclastas, que maltratam as mulheres. Agora, passados os anos, os fracassos políticos, os casos de corrupção e os soldados ocidentais mortos em um país que em vez de avançar retrocede, a imagem do amigo afegão começa a se diluir. Talvez para sempre



Agora, passados os anos, os fracassos políticos, os casos de corrupção e os soldados ocidentais mortos em um país que em vez de avançar retrocede, a imagem do amigo afegão começa a se diluir. As virtudes viram defeitos, e a memória enfraquece. Ninguém se lembra de mais nada, nem os arquivos da imprensa.

Foi o escolhido para o dia seguinte pela administração americana anterior, lançada a uma guerra internacional contra o terror que tanto servia para expulsar os talebans como para derrubar velhos amigos como Saddam Hussein. A ele lhe foi entregue o governo de Cabul, simbolicamente (quem tem Cabul tem o poder), e em Cabul continua, fechado em seu palácio do qual quase não sai, mais como prefeito de uma cidade que é uma ilha de relativa segurança em um mar de tubarões.

É um homem encurralado por medos e ameaças reais e imaginárias que vão recortando seu espaço vital, seu ar político.

Do Karzai distinto dos primeiros anos, eleito presidente em dezembro de 2004, pouco resta. Cercado pelos talebans, cada vez mais ousados e eficazes em seus ataques, o presidente da imagem, o homem com o qual o Ocidente acreditava estar levando democracia às montanhas do Afeganistão, foi islamizando seu discurso e as leis em uma tentativa de sobreviver. Esse é seu último projeto: o tudo ou nada.

Então negociou e voltou a negociar este ano com os grandes senhores da guerra, os que destroçaram o país depois da saída dos soviéticos. Em agosto, às vésperas do primeiro turno, mandou aprovar uma lei que contentava os xiitas hazaras mais conservadores, segundo a qual a mulher poderia ser privada de alimento caso negasse ter relações sexuais com seu marido. A mudança de uma administração Bush para uma Obama o atropelou de surpresa. Suas desavenças com o enviado especial americano, Richard Holbrook, mostram uma nova distância, são a prova de que o homem-de-palha adquiriu vida própria e já não gosta de seus criadores.

Em um mundo governado pela imagem, o Ocidente se vestiu com sua própria capa de seda e cobriu com ela os olhos para não enxergar. As primeiras imagens de Cabul libertada dos talebans, onde os homens raspavam a barba e as mulheres descobriam o rosto oculto pela burca diante das câmeras de televisão, se revelaram tão falsas quanto as últimas eleições.

Os anos de Karzai, o homem do Ocidente, não melhoraram a situação da mulher, submetida frequentemente a uma tradição feudal e machista. Karzai esconde sua esposa Zinat, confina-a em seu palácio em um papel secundário, apesar de ser uma mulher instruída e capaz que bem poderia encabeçar uma verdadeira mudança. "Meu esposo não gosta, não posso sair sem sua permissão", declarou em uma ocasião. A imagem projetada por esse gesto, por essas palavras, é devastadora.

Hamid Karzai é um pashtun, a etnia majoritária do país, da qual surgem os talebans. Pertence à mesma tribo do mulá Omar e do pai de seu rival Abdullah Abdullah, que é visto no Afeganistão como tadjique por causa de sua mãe, e porque foi braço direito do líder histórico dos tadjiques afegãos, Ahmed Masud.

A biografia de Karzai ressalta que ele lutou contra a invasão soviética, mas o fez a partir do gabinete de um dos chefes mujahidin próximo da CIA. Dessa época vêm suas ligações com os Estados Unidos, que com o tempo se tornaram mais complexas, com seu trabalho para a petroleira californiana Unocal, uma colaboração que anos depois continua gerando muita notícia em um país inclinado à exageração histórica, e no qual todos os afegãos veem uma conspiração estrangeira em cada movimento político.

Tradução: Lana Lim

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