UOL Notícias Internacional
 

04/11/2009

O candidato da "decepção" seduz os chilenos

El País
Manuel Délano
Em Santiago
Nenhum partido influente o apoia. Ele fala tão rápido que às vezes é difícil entendê-lo. Há um ano não aparecia nas pesquisas e o presidente do Partido Socialista, no qual militava, o apelidou pejorativamente de "Marquito". Mas hoje políticos e analistas levam a sério o deputado e candidato presidencial independente Marco Enríquez-Ominami, que subiu em algumas pesquisas para as eleições de dezembro até alcançar o candidato da coalizão governante, o ex-presidente Eduardo Frei, e que pode obter melhor resultado no segundo turno para competir com o candidato da direita, o empresário Sebastián Piñera, que encabeçava as pesquisas.

O cineasta e filósofo Enríquez-Ominami, que durante o golpe militar que derrubou Salvador Allende, em setembro de 1973, era um bebê de três meses, é hoje, aos 36 anos, a grande surpresa das eleições presidenciais de 13 de dezembro. Se neste domingo nenhum dos quatro candidatos obtiver mais de 50% dos votos, os dois com maior apoio disputarão o segundo turno em 17 de janeiro.
  • Santiago Llanquin/AP

    O candidato independente Marco Enriquez-Ominami discursa em fórum em Santiago do Chile



Estas são as primeiras eleições presidenciais das últimas décadas que os chilenos vivem sem a presença do ex-ditador Augusto Pinochet, e agora a coalizão de centro-esquerda, Concertação, que governa desde 1990, enfrenta uma situação inédita: seu candidato não é o favorito nas pesquisas para chegar ao palácio de La Moneda e, inclusive, poderia não passar para o segundo turno. Quase a metade dos eleitores que historicamente se pronunciaram pela Concertação hoje preferem o irreverente Enríquez-Ominami.

O apoio popular de mais de 70% que a presidente Michelle Bachelet alcança nas pesquisas - o maior que já teve um governante do Chile - não se aproxima do que poderia obter o democrata-cristão Frei. Para reverter a situação, o governo pôs toda a carne na churrasqueira há alguns dias. A mãe e o filho mais velho de Bachelet uniram-se à campanha de Frei e os ministros mais populares acompanharão o candidato governista em seus atos. Na opinião dos analistas, a soma dos votos de Frei com os de Enríquez-Ominami representaria uma derrota da direita. Mas a verdadeira disputa será travada no primeiro turno entre os dois candidatos.

Enríquez-Ominami, que saiu da Concertação porque não permitiram que ele concorresse nas primárias, conta com um apoio heterogêneo que procede da decepção e o desgaste de uma coalizão que governa há 20 anos, do eleitor que aspira a um rodízio de gerações e também de um setor liberal insatisfeito com o conservadorismo da direita que acompanha Piñera.

"Ninguém, nem os que o apoiaram da direita, sonhou que em quatro meses seria possível partir a Concertação em dois", afirma a socióloga Marta Lagos, da consultoria Mori Internacional, em um artigo de opinião. Para ela, a eclosão de Enríquez-Ominami constitui um reflexo da crise de representação dos partidos políticos. Com grande apoio da imprensa ao mais midiático dos candidatos, "criou-se um monstro político que torna verossímil uma candidatura sem partidos. A linha fina que separa isso de um populismo deveria nos preocupar", afirma Lagos.

Para o sociólogo Mauricio Rodríguez, da consultoria Alcalá, especializada em estudos qualitativos, o fenômeno Enríquez-Ominami brota das insatisfações e tensões da transição para a democracia, que geraram decepção, apatia e lideranças sem conexão social. No início da campanha, Enríquez-Ominami afirmou em entrevista ao "El País" que governará com os partidos, mas não com suas atuais hierarquias. Parte de sua sedução vem do fato de não ter o apoio dos partidos do "establishment". Afirma que gosta da esquerda de "julgamentos complexos", e em seu programa, que não causa preocupação entre os empresários, propõe elevar impostos e mudar o sistema presidencialista. Crítico da corrupção, denuncia o desgaste do oficialismo e rejeita tanto Frei quanto Piñera, qualificando-os de candidatos conservadores.

Filho do ex-líder do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol) Miguel Enríquez, que morreu em 1974 resistindo em um tiroteio aos agentes repressores da ditadura, foi adotado por Carlos Ominami, então companheiro de partido de Enríquez, e cresceu no exílio em Paris. O sobrenome composto Enríquez-Ominami é um reconhecimento a seu pai e ao pai adotivo, que hoje é senador e o acompanha na batalha eleitoral para La Moneda. Sua mulher, que dirige um popular "reality show" na televisão estatal, é outro esteio de sua campanha.

Enríquez-Ominami proclama ser herdeiro natural do progressismo de Bachelet. Agora é a vez dos jovens, afirma, e seu lema eleitoral é "a mudança continua". Em um diálogo de um livro recente, se pergunta "qual é meu mérito". E responde: "Só o fato de que estou disposto a perder".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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