UOL Notícias Internacional
 

05/11/2009

Matriculados na euforia, formados no desastre

El País
Amanda Mars
No dia em que Cristina Carbó assistiu a sua primeira aula na Escola Superior de Desenho Elisava, em 3 de outubro de 2005, a Bolsa espanhola alcançou os 10.880 pontos. O índice de desemprego estava em um dos níveis mais baixos das últimas décadas, em 9,33%. As construtoras espanholas entregaram naquele ano até 716.035 residências, um dado esperançoso para uma estudante como ela, recém-chegada à faculdade de desenho, com especialidade em decoração interiores, em Barcelona. A Espanha definitivamente desafiava a Europa, com um crescimento econômico de 3,5% naquele ano, quase o triplo da zona do euro.

Três anos, oito meses e 13 dias depois, em 16 de junho de 2009, Cristina apresentou seu projeto de conclusão de curso na escola, e ao sair dela com seu diploma de graduação superior embaixo do braço o cenário tinha mudado: o desemprego castigava 17,93% da população ativa e a Espanha completava seu primeiro ano em recessão, com uma queda de 4,2% em relação ao ano anterior. O número de construções de residências iniciadas em 2009, diziam os construtores nessa época, não passaria de 200 mil. E a Bolsa, que importava bem menos a Cristina, não passava dos 9.499 pontos. O chamado "milagre econômico espanhol", em resumo, foi dado por morto por todos os especialistas que antes o elogiaram.

Cobertura completa da crise

  • UOL


Desde então, Cristina enviou pelo menos 30 currículos. Para construtoras, escritórios de desenho, bolsas de trabalho... Nem um único chamado de resposta, nenhuma entrevista de trabalho, nenhum processo de seleção em andamento.

Há 1,2 milhão de jovens entre 20 e 29 anos na Espanha que buscam trabalho, 52% a mais do que um ano atrás. Quase 127 mil deles buscam seu primeiro emprego, segundo dados do terceiro trimestre da pesquisa de população ativa (EPA), que é o melhor termômetro do mercado de trabalho. E, aproximando-se a lupa desses jovens parados, mais de 290 mil têm formação superior (47% a mais).

Perdida entre as estatísticas, a geração de Cristina é essa de universitários que se matricularam nos anos da euforia econômica, a maior e mais duradoura época de bonança que a Espanha viveu em décadas, e foi aprovada em seu último exame agora, no desastre. "No início você ouvia notícias da crise e pensava que isso não ia acontecer com você, mas o medo começou a nos invadir em fevereiro, quando começamos a preparar o projeto. O pior é que seus pais também acreditam que quando você acabar os estudos já começará a ganhar seu dinheiro, a ter uma nova vida", reflete a jovem, que está perto de completar 22 anos.

O acesso ao primeiro emprego foi difícil para todas as turmas de universitários, devido ao círculo vicioso de que sem experiência não há trabalho e sem trabalho nunca se consegue essa experiência. Mas agora, com a crise, aquele primeiro emprego precário - contrato de estagiário e subvenção ao empresário - está em queda livre nas bolsas de trabalho. Com isso, muitos jovens decidem prolongar sua etapa educativa.

Ontem mesmo uma pesquisa da Fundação Bertelsmann indicou que a maior preocupação dos jovens espanhóis de 18 a 30 anos é o desemprego, e nem sequer se incomodam que o trabalho que encontrem seja mal remunerado ou precário. Mais da metade gostaria de constituir seu próprio negócio em detrimento dos que optariam por ser funcionários.

O catedrático de ciência política da Universidade Autônoma de Madri Fernando Vallespín, que dirigiu o estudo, indicou que a preocupação relativa ao desemprego é lógica, já que a Espanha ocupa os primeiros lugares europeus de desemprego juvenil (48%). Por isso, considerou lógico que somente 4% e 7% dos jovens, respectivamente, considerem um problema os baixos salários ou os contratos precários: "Existe tal falta de emprego que a única coisa que importa é ter o trabalho, mesmo que seja mal pago".

Mas esse primeiro estágio já não é tão fácil de conseguir. Como amostra, um dado: a Fundação Universidade e Empresa costuma facilitar um primeiro emprego de estágio para 1.500 a 2 mil diplomados, mas este ano calcula que a oferta será 30% mais baixa. E no Serviço de Orientação Laboral da Universidade de Las Palmas, por exemplo, o número de empresas que solicitou recém-formados na universidade caiu 40%, enquanto os jovens que pedem ajuda aumentaram 15%. Além disso, "notamos um importante aumento na demanda de informação por parte dos estudantes, tanto em especialização de pós-graduação como nos pedidos de acesso à universidade", explica o vice-reitor Nicolás Díaz. Neste último caso, "no que diz respeito aos alunos maiores de 25 anos, duplicou a demanda em relação ao ano anterior, e os pedidos beiram 2 mil só nesse grupo", acrescenta Díaz.

Com esse panorama, muitos jovens optaram por voltar aos livros, fazer pós-graduação ou mestrado, e assim melhorar sua formação diante da tão esperada recuperação econômica. Por isso a população ativa, quer dizer, as pessoas que trabalham ou buscam trabalho, diminuiu com a crise.

"A população ativa diminuiu desde o terceiro trimestre de 2007. Concretamente, entre os menores de 30 anos há 440 mil pessoas que deixaram de trabalhar ou de buscar trabalho, devido principalmente ao prologamento dos estudos", indica Antoni Espasa, diretor do Boletim de Inflação e Análise Macroeconômicos (BIAM), da Universidade Carlos 3º.

Se fosse preciso dar nomes e sobrenomes a todos esses números, os de Cristina, a jovem de 22 anos, estariam entre eles. "Estou me mexendo desde junho e não encontrei nada, por isso agora entrei em uma pós-graduação de perímetros privados (tradução: decoração de interiores específica para o setor residencial). Continuar estudando me dá a oportunidade de conseguir estágios em empresas, mesmo com salário menor."

A crise não passou ao largo de nenhum setor e nenhum grupo populacional, mas o desemprego foi acentuado entre os jovens. Dos 1,4 milhão de postos de trabalho que foram fechados nos últimos dois anos, 90% eram ocupados por pessoas de menos de 30 anos. E a psicose já se instala nas conversas dos grupos de amigos.

A passagem do tempo só causa desespero. Marta Gimenez, 22 anos, estudou psicologia na Universidade de Barcelona e acabou seu estágio em fevereiro. "Primeiro procurava trabalho no meu ramo, mas quase não havia e quando havia exigiam experiência. Quando chegou abril, voltei a pegar trabalhos esporádicos como recepcionista em feiras e congressos, como fazia quando estudava. No início não queria, mas hoje estou aceitando", explica.

José é engenheiro técnico de obras públicas em Valência e seu currículo esteve na lista de espera da McDonald's durante quase um ano. "Mas nem de lá me chamaram, tinha gente na frente. Desde que acabei os exames, em setembro de 2008, procurei emprego em toda parte", conta o jovem de 26 anos.

Há menos de um mês o chamaram de uma construtora e lhe ofereceram um trabalho de estagiário por 600 euros (R$ 1.530) ao mês. Sua situação e a de seus colegas de estudos é peculiar: "Preferimos não apresentar nosso projeto de fim de curso porque então teremos a licenciatura e não poderão mais nos contratar para estágios, o que sai mais barato para eles, teriam de nos pagar mais de 600 euros e, é claro, perderíamos o trabalho".

José prefere não dar seu nome verdadeiro para não ter problemas nessa empresa em que espera trabalhar um dia com um contrato normal. Ampliar os estudos, no opinião de Antoni Espasa, é uma boa estratégia, já que a crise passa uma conta muito desigual em função do nível de formação das pessoas. Enquanto os jovens entre 20 e 24 anos com formação superior têm um índice de desemprego de 29,9%, os que ficaram com a educação secundária têm de 36,7%. O mesmo acontece dos 25 aos 29 anos, a taxa de desemprego fica em 16,3% para os formados mas chega a 28% para os de formação secundária.

Os números são claros: quanto maior a formação, menor o desemprego. E em geral mais dinheiro. Outra coisa é que essa última diferença, a brecha salarial entre formados e não formados, isto é, o incentivo econômico para continuar estudando, tem se estreitado nos últimos anos, tal como deixou claro a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais desenvolvidos.

Mas os com mais anos de estudos continuam sendo menos vulneráveis à crise. Outro elemento que a OCDE critica é que 22,7% dos trabalhadores indefinidos e 40,27% dos eventuais entre 16 e 30 anos realizam um trabalho que exige menos preparo do que possuem.

Jordi Planas, formado em economia e doutor em sociologia pela Universidade Autônoma de Barcelona, acaba de realizar um estudo sobre as universidades catalãs e afirma que "a maior parte dos estudantes diz que sua formação lhe serve no trabalho". Outra coisa é cada diplomado se dedicar exatamente àquilo para o que teoricamente estudou. "Mas não creio que haja um emprego predeterminado para um tipo de formação. O que devemos pensar? Pobre Javier Solana, que é físico de formação e não conseguiu ser físico, só chegou a secretário-geral da Otan ou representante da União Europeia em Relações Exteriores?", pergunta. "Ou Jordi Pujol, que não pôde exercer a medicina e foi presidente de uma comunidade autônoma durante 20 anos..."

O diretor-gerente da Fundação Universidade e Empresa, Fernando Martínez Gómez, explica que os formados em cursos de humanas costumam ter mais incerteza no início, mas defende que o mundo da empresa deveria se abrir mais para esse perfil de futuro profissional: "Explicamos aos empresários que os formados em filologia inglesa, por exemplo, podem trabalhar no departamento internacional, ou os psicólogos no departamento de recursos humanos".

Espasa opina que "os jovens estão levando a pior parte da crise porque é mais fácil demiti-los do que aos mais velhos". "Há necessidade de uma reflexão sobre o mercado de trabalho, com tempo, de forma consensual. Se temos um índice de desemprego que é o dobro do europeu, alguma coisa estamos fazendo errado", reflete.

Mais de 1,3 milhão de jovens se matricularam nas universidades espanholas no ano passado, para o curso 2008-2009. Ao contrário de Cristina, Marta ou José, eles começam seus estudos superiores na recessão, e a questão é qual será o clima econômico quando terminarem. Diz a Comissão Europeia que a Espanha terá um índice de desemprego superior a 20% até 2011, embora situe a saída da recessão para a segunda metade de 2010. Mas o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, a antecipa para o fim deste ano ou o início de 2010.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h49

    -0,59
    3,131
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h51

    -0,21
    65.044,82
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host