UOL Notícias Internacional
 

06/11/2009

20 anos depois do Muro: Letônia, um país à beira da falência

El País
Andrea Rizzi
Enviado especial a Riga (Letônia)
Por motivo do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, "El País" inicia a publicação de uma série de reportagens sobre os países do Leste que começaram a se livrar das ditaduras comunistas. Primeiro capítulo: Letônia, um país à beira da bancarrota
  • AFP

    Multidão de alemães comemora sobre o Muro de Berlim em 1989, quando a barreira entre os lados ocidental (capitalista) e oriental (sob a influência do regime soviético) da Alemanha caiu



Vestindo uma roupa velha mas limpa, jornal aberto entre as mãos, Oleg Lukoshko aguarda sua vez em uma fila de cerca de 800 pessoas que se estende sobre uma calçada suja na periferia de Riga, a capital do país. Os letões acreditavam ter derrubado para sempre as filas humilhantes junto com seus piores pesadelos soviéticos, mas o capitalismo também pode infligir esperas infames a seus adeptos. Cerca de 30 metros mais adiante, de um portal verde que se abre todos os dias às 12 horas, o pessoal de um monastério ortodoxo distribui sopa de verduras e pão grátis.

À diferença de muitos de seus companheiros de espera, cujos hábitos delatam assíduas relações com o álcool, Oleg, 52 anos, tem um tipo que não se esperaria encontrar ali. Não é o único que não se encaixa. A recessão que açoita a Letônia não parece olhar a cara de ninguém. O país báltico, junto com seu vizinho Lituânia, sofrerá a contração do PIB mais forte do mundo em 2009: uma queda de 18%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Fiquei desempregado há mais de um ano, o auxílio-desemprego dura só nove meses, é preciso pagar o aluguel. Meus filhos me ajudam no que podem, mas não é suficiente", resume Oleg, que se orgulha de sua formação de soldador de estaleiro e sua qualificação de sexto grau na escala profissional soviética.
  • Arte UOL

    O muro de 155 km de extensão dividia Berlim em duas partes



O aumento do desemprego foi vertiginoso na Letônia, um país com 2,3 milhões de habitantes. Em setembro o índice estava em 18%, contra 8% um ano atrás. Uma situação dramática, se se considerar que o Estado está à beira da falência. Só um resgate de 7,5 bilhões de euros - um terço do PIB do país - liderado pelo FMI e a União Europeia (UE) o manteve flutuando.

O impacto brutal da crise destruiu de repente o sonho de bem-estar e liberdade que animou o apaixonado abraço do país ao Ocidente depois da independência, obtida em 1991. Na década atual tudo parecia ir de vento em popa. Índices de crescimento de 10%, a entrada na UE e na Otan, melhores salários. Falava-se em "Tigre Báltico".

"Em 2005 já começamos a perceber que tudo estava indo rápido demais, que havia demasiado crédito fácil e consumo e pouca produção de bens. Mas os políticos não pisaram no freio a tempo", comenta Andris Vilks, assessor para Economia e Finanças do atual primeiro-ministro, que tomou posse em março. A balança de pagamentos com o exterior projetava números vermelhos de 20% do PIB ao ano, a dívida do setor privado disparava. A Letônia vivia acima de suas possibilidades. O filme acabou de repente e começou um doloroso ajuste de contas. Em janeiro passado houve distúrbios em Riga, com uma centena de detidos. O governo caiu, o país parecia prestes a ir para o ralo.

A comunidade internacional não permitiu. As repercussões sobre países vizinhos e vários grandes bancos teriam causado danos muito além do reduzido tamanho da economia báltica. "Agora a situação está um pouco mais estável. O quadro macroeconômico melhora, embora o social continue piorando. O desemprego continuará crescendo. Mas não temos outra escolha senão duros cortes de gastos", diz Vilks.

Pedaços do muro de Berlim pelo mundo



Assim, na mesma fila de Oleg, encontra-se também Pavlis, 55 anos, guarda de fronteira aposentado. "Eu ganhava 158 lats. Hoje me dão 142 (pouco mais de R$ 520,00)", ele diz. Os aposentados tiveram cortes de 10%. Professores, médicos e policiais foram todos pior. Os serviços básicos tremem sob os golpes de tesoura. Como Oleg, Pavlis tem as mãos limpas e leva na bolsa uma revista de história.

"Alguns dizem que, conquistada a independência de Moscou, a perdemos agora para o FMI e Bruxelas", comenta Janis Dripe, ex-ministro da Cultura e presidente dos arquitetos de Riga. "É verdade que somos de alguma maneira prisioneiros. Mas creio que, apesar da frustração, continua predominando um sentimento de liberdade. Pelo menos agora somos vítimas de nossos próprios erros!", observa. "Houve muita ingenuidade. Acreditamos que depois de entrar na UE tudo só poderia ir melhor. As pessoas se endividaram loucamente e deram rédea solta a sonhos acumulados durante décadas de penúria", reflete o diretor da Biblioteca Nacional, Andros Vilks (por acaso homônimo do economista).

"Agora há várias coisas que me preocupam", ele diz, e se interrompe. Aproxima-se de uma estante e volta com um tijolo. "Com isto quebraram uma de nossas janelas durante os distúrbios de janeiro. A desordem social pode ser um problema. Mas me preocupo ainda mais com a criminalidade e a emigração." Pelas ruas de Riga, os panfletos que divulgam cursos de judô convidam a preparar-se para defender-se na selva em que a cidade poderá se transformar. A emigração é um espectro inquietante em um país com um claro declínio demográfico.

Os que ficarem terão de pôr o país em um novo trilho, reformular o modelo que fracassou. Não lhes falta talento e cultura para conseguir isso.

"De onde vem o senhor? Ah, Espanha... Sempre sonhei em visitar o Museu do Prado!", diz um que faz a fila com Oleg e Pavlis.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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