UOL Notícias Internacional
 

07/11/2009

A atormentada vida de John Lennon

El País
Joseba Elola
Em Madri
Infância dura, sexo e drogas na decisiva biografia de Philip Norman sobre o "beatle".

Suíte do hotel Delmónico em Nova York, 28 de agosto de 1964. Um "folkie" apaixonado que começava a aparecer chamado Bob Dylan entra na suíte de um dos rapazes que andam em turnê pelos Estados e dos quais todo mundo fala, The Beatles. John Lennon organizou o encontro por meio de Al Aronowitz, jornalista amigo de Dylan. As duas figuras, que provavelmente são as mais influentes da música popular do século 20, admiram-se mutuamente, mas são incapazes de admiti-lo.

Dylan rompe o gelo e comenta que gosta da canção "I want to hold your hand", com seu estribilho tão contagiante "I get high, I get high" (fico louco, fico louco). John e Paul lhe confessam que não: o que a canção diz é "I can't hide" (não posso me esconder); uma coisa é o inglês britânico e outra, o americano.

Envergonhados, admitem que não é que tenham colado de repente esse verso no tema; de fato, apenas provaram maconha a sério. Dylan se oferece para remediar tal carência e enrola um cigarro, mas não é muito bom nessas lides. Afinal, como não poderia ser diferente, é o jornalista quem o enrola.

Esta é uma das diversas anedotas deliciosas contidas em "John Lennon", a sólida biografia de Philip Norman que a Anagrama lança em 26 de novembro na Espanha. Paul McCartney viu a luz com aquele bendito petardo compartilhado com Dylan. John e Ringo não conseguiam parar de rir.

A biografia de Philip Norman esclarece novas paisagens da atormentada existência do gênio rebelde dos Beatles. Já retratou Lennon como um sujeito torturado em "Shout!", publicado em 1981 e elogiado no ano seguinte como a grande biografia do quarteto de Liverpool.

Nesta nova versão, concentrada no compositor de "Imagine", dá uma volta de parafuso e tenta explicar as causas dessa infelicidade, dessa tortura interior. Para seu trabalho de pesquisa, Norman contou com a colaboração de Yoko Ono, Sean Lennon - o filho de John e Yoko - e Paul McCartney, além de George Martin - o produtor - e até Arthur Janov, o terapeuta do beatle; seu acesso a fontes é privilegiado, cimentado pelo respeito que infundiu seu trabalho anterior como biógrafo.

Philip Norman mergulha na infância do homem que compôs "Julia", essa jóia alojada no chamado "Disco Branco", para encontrar as raízes dessa infelicidade que acompanhou Lennon em seus escassos 40 anos de vida. "Nunca escapou das feridas de sua infância, nunca superou o fato de que seus pais o abandonaram", explica o autor em conversa telefônica de Londres.

Aos 6 anos, seu pai lhe pediu que escolhesse com quem preferia morar: com sua mãe Julia ou com ele. John acabou indo morar com a tia Mimi, a cuja correspondência privada se tem acesso pela primeira vez.

Lennon cresce em casa de sua rígida tia. Quando tem 17 anos, certa tarde, Julia, sua mãe, vem visitá-los. Ao sair, a caminho do ponto de ônibus, é atropelada pelo carro de um policial fora de serviço e morre. Pouco depois falece de uma hemorragia cerebral seu grande amigo Stu Sutcliffe, o primeiro baixista dos Beatles. "A pessoa que somos por dentro nunca muda. Ele foi muito infeliz. Sua enorme fama poderia ter catapultado sua autoestima", explica Norman, "mas ele se desvalorizava."

As 786 páginas dessa biografia mostram um homem que apesar de ser muito invejado sofria em seu dia-a-dia. "Ele podia ser duro e cruel, mas era tremendamente sensível, uma pessoa muito vulnerável."

As fitas cassete que gravou em seus dois últimos anos de vida, quando seu tormento interior parecia amainar, levam Norman a revelar um dos aspectos que mais chamaram a atenção dos tabloides britânicos quando se publicou esta biografia no Reino Unido, há um ano. Em uma dessas fitas, Lennon lembra o dia em que por acaso se deitou ao lado de sua mãe e tocou acidentalmente seu seio. Não soube se prosseguia ou não. "Sempre pensei que deveria tê-lo feito", confessa Lennon nas fitas. "Presumivelmente ela poderia ter aceitado."

Essa tendência à autoanálise e a provar de tudo que ilumina outra das revelações incluídas no livro. O episódio supostamente gay, que mais parece corresponder a um flerte intelectual, mas que Norman desfia nestas páginas. John e Paul tiveram uma relação de amor e ódio muito forte. E Yoko conta a Norman que ela acredita que houve um momento em que John considerou uma aventura com Paul, pelo fato de que um verdadeiro boêmio tem de provar de tudo.

O alvoroço que se armou com a distorção e amplificação desse episódio do livro conduz Norman a baixar o tom e a destacar com contundência a condição profundamente heterossexual do beatle.

Norman, que conheceu John nos anos 60, quando trabalhava como jornalista em uma gazeta local, mostra-se amargurado pela rejeição de Yoko Ono a esta biografia. "Ninguém exceto ela disse que a biografia seja maliciosa. Não sei por que diz isso. Yoko foi uma mulher demonizada por todo mundo e foi o grande amor de John, eram feitos um para o outro. Tinham muitas coisas em comum, entre elas sua sinceridade. Se você perguntava, eles respondiam. Ela foi muito sincera comigo nas 14 horas de entrevista que fizemos."

A biografia percorre com precisão a vida de Lennon e se encerra com um capítulo comovente em que Sean Lennon, o filho de John e Yoko, fala de coração aberto sobre seu pai e lembra aquela manhã em que acordou e sua casa estava cheia de pessoas com a cara muito séria. Era 9 de dezembro de 1980 e da rua subia até sua janela o barulho de policiais e câmeras de televisão.

Seu pai acabava de ser assassinado na noite anterior diante da porta de casa. Sean tinha então 5 anos. O menino que mal conheceu seu pai e que invejou o mundo por tê-lo conhecido, o garoto que ainda lembra de Lennon com cabeleira e quimono, andando sempre descalço pela casa, conta que entendeu que devia se comportar como um adulto e não chorar em uma situação como essa. "Não se preocupe, já vai encontrar outro", disse-lhe Yoko Ono naquela negra manhã.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,68
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,44
    64.861,92
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host