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07/11/2009

Kamal Mehsud, cantor popular no Paquistão, vive sob a ameaça do taleban

El País
Ángeles Espinosa
Em Islamabad (Paquistão)
Ele é muito popular entre os pashtun, mas suas canções de paz despertaram a ira dos islâmicos.

O sobrenome Mehsud no Paquistão identifica imediatamente seu portador com uma das tribos mais influentes do Uaziristão do Sul. Kamal Mehsud conseguiu ser conhecido por seu primeiro nome. Como cantor folclórico, sua fama ultrapassou os confins dessa região para se estender por toda a comunidade de língua pashtun, tanto em seu país como no Afeganistão.

Com um repertório que inclui os cantos à valentia de seu povo e temas de amor, Kamal tornou-se imprescindível nas grandes comemorações pashtun. Até que suas canções de paz irritaram os taleban.

"Recebi quatro ameaças telefônicas e correram rumores sobre minha morte", lembra na enésima casa que ocupa desde que escapou do Uaziristão em 2005. Kamal nos recebe vestido com uma elegante "kurta" azul e calças brancas. Está descalço, como é habitual nas casas paquistanesas, e Tahir, meu intérprete, e eu nos descalçamos. Logo depois chega sua mulher com chá e biscoitos. Sua presença inusitada, com a cabeça coberta, mas o rosto à mostra, diz muito sobre a liberalidade do cantor.

"Primeiro fui para Dubai por alguns meses e depois para a Inglaterra, porque lá tinha a possibilidade de me apresentar, mas enquanto estava fora ameaçaram minha mulher e meus filhos", conta enquanto nos serve o chá que ele quase não toca. Assim que voltou, vendeu as terras de sua família e buscou refúgio em Islamabad.

Os islâmicos radicais afirmam que a música vai contra o islã, apesar de durante séculos ter havido composições religiosas, especialmente entre sufistas e xiitas. No Uaziristão, essa interpretação se choca também com uma longa história de música e danças tribais. "Os uaziris sempre dançamos ao ritmo dos tambores", diz Kamal. As mulheres também? "Também, embora separadas dos homens", explica. "Mas agora os taleban não permitem."

Não há mais apresentações musicais nem mesmo nos casamentos. "As pessoas estão esquecendo seu folclore", lamenta Kamal com amargura. No entanto, os taleban consentem as canções que enaltecem a jihad, a guerra santa islâmica.

"Cantei pela paz para o exército", admite sem lamentar esse homem de 60 anos de porte elegante e vaidoso. Como simpatizante do partido nacionalista Awami, Kamal já havia trabalhado pela paz antes. Por isso, quando um produtor lhe ofereceu para cantar em Palwasha, uma minissérie contra o extremismo promovida pelo exército, não duvidou. Também não imaginou as consequências.

Recorreu às autoridades. Inicialmente o Ministério da Cultura lhe dava uma pensão. Mas com a mudança de governo esqueceram-se dele. Os taleban não. Em meados de outubro, justamente quando o exército realizava uma ofensiva contra seu enclave no Uaziristão do Sul, uma nova carta lhes lembrou que sua vida e a de sua família continuam ameaçadas.

Ele se refugiou durante três dias em uma mesquita. "Tenho medo. Não saio à rua. Você vê que não tenho nenhuma proteção." E as autoridades? "Me dizem para ligar para o 112." Mas o número de emergência da polícia pouco pode fazer para resgatar um folclore em extinção.

"A música morreu no Uaziristão", afirma Kamal enquanto mostra com orgulho as diversas menções de honra recebidas ao longo de sua carreira e velhos programas de apresentações. Em um deles, de 1993, um inimaginável Conselho das Artes do Uaziristão anuncia a apresentação em Islamabad de 20 artistas tribais, entre eles Kamal. "Sem dúvida demos um passo atrás."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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