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10/11/2009

"Evitamos uma guerra civil", diz último presidente da Alemanha Oriental

El País
Juan Gómez
Egon Krenz é para muitos alemães a relíquia incorrigível da divisão do país e do muro que a encarnou durante 40 anos. O ex-chefe de Estado da República Democrática Alemã (RDA) em 9 de novembro de 1989 hoje vive na margem do mar Báltico, a 50 metros de uma praia de areias brancas por onde passeiam gaivotas . Os mais jovens não lembram, como a garçonete do bar próximo a sua pequena casa em Dierhagen (leste da Alemanha), que desconhece que seu vizinho é o sucessor de Erich Honecker e que foi durante 50 dias a autoridade máxima de um Estado prestes a se extinguir. O último líder do partido único SED. O chefe do birô político.

Egon Krenz

  • AP Photo/Hans Edinger
Entre a rejeição taxativa e a beata ignorância, Krenz também recebe alguma homenagem. Foi o que aconteceu há duas semanas em Petershagen, perto de Berlim, para escândalo e protesto de seu prefeito. Passou quatro de seus 72 anos na prisão, condenado por sua responsabilidade nas mortes do Muro de Berlim. Agora se recusa a dar entrevistas de aniversário. Depois das gestões inúteis com sua editora e uma infrutífera conversa por telefone, valeu pedi-la pessoalmente em Dierhagen.

"Veja bem", disse Krenz sorridente na última quarta-feira diante da entrada de sua casa, "que tenho convidados e não há muito espaço." A residência tem telhado de vime, paredes brancas e um jardim. Um automóvel Audi ocupa o curto caminho. A cerca de madeira, com a placa "E. Krenz", estava aberta de par em par, a chave na fechadura.

Krenz continua um homem alto, de voz firme. Seu sorriso ao encontrar um estranho inesperado no meio de seu jardim demonstra que não é desconfiado. Aceitou conversar por um momento no frio do outono, sob a leve chuva que precedeu uma nevasca. No final concordou: "Deixe suas perguntas que responderei por escrito".

El País: Na carta que enviou ao presidente federal, Horst Köhler, o senhor pede uma interpretação objetiva da história.
Egon Krenz:
Ele disse em um discurso em 9 de outubro, no 20º aniversário da manifestação de Leipzig: "Nas redondezas da cidade havia tanques e a polícia tinha instruções de disparar sem mirar quando chegasse a ordem". Eu posso jurar que isso não é verdade. Nem havia tanques nem houve intenções de usar a violência. Nem em 9 de outubro nem em 9 de novembro de 1989. Se o chefe de Estado transforma meros rumores em fatos, a memória se ressente. Em 1990 havia dois Estados alemães. Agora se diz que a República Federal da Alemanha (RFA) foi uma espécie de paraíso terreno e a RDA, o correspondente ao inferno.

El País: O Muro de Berlim contribuiu para evitar que a guerra fria se aquecesse?
Krenz:
É lamentável que os líderes de opinião reduzam a RDA ao arame farpado, a um muro e à falta de liberdade. É evidente que o muro não caiu do céu. Em 1961, Kennedy disse que "não é uma solução especialmente agradável, mas é, maldita seja, melhor que uma guerra". Não era só a fronteira entre as duas Alemanhas. Era algo único: a fronteira entre o sistema capitalista e o socialista, o bloco da Otan e o do Pacto de Varsóvia. Quem não levar isso em conta banaliza o rancor da guerra fria entre 1946 e 1989. Eu sempre lamentei profundamente os mortos e os feridos na fronteira. Cada um deles é demais. Mas não seria sincero se negasse que durante o confronto entre os blocos a RDA não poderia mudar essa fronteira unilateralmente.

El País: Como avalia sua condenação a seis anos e meio de prisão? Admite alguma culpa?
Krenz:
Escrevi todo um livro sobre isso. A RFA tem de enfrentar por si mesma o fato de ter levado aos tribunais, contra a legalidade da RDA, os dirigentes de um Estado reconhecido por mais de 130 países. Mas sou suficientemente otimista para estar convencido: a história me absolverá.

El País: Pensou-se em reprimir os protestos?
Krenz:
Não! Embora a sentença condenatória me pareça equivocada, esta se refere aos fatos de 1989 e reconhece que fizemos o possível para evitar uma guerra civil. Essa realidade não deve ser varrida pela atual difamação da RDA. Também é falso que os líderes da RDA quisessem reprimi-las violentamente e que as ordens de Gorbachev o impediram. Militares russos de alta patente me asseguraram que não houve essas ordens. Também não está documentado.

El País: O senhor disse que Gorbachev é um traidor. Por quê?
Krenz:
Não sou capaz de pensar com a simplicidade que me atribuem alguns. Eu confiava em Gorbachev. Mesmo depois de seu jogo duplo às nossas costas em relação à unidade alemã em 1989. Tive nele a esperança de um socialismo renovado. Mas desde que disse que sua meta de vida foi vencer o comunismo, eu respondo: não acredito. É uma desculpa que ele inventou depois de 1991. Só lembra o que lhe convém. O que saiu é errado ele transforma em suas supostas intenções políticas. Parece-me um falsário. Putin descreveu o naufrágio da União Soviética como uma catástrofe geopolítica do século 20. Gorbachev não é inocente dessa catástrofe.

El País: Como é sua lembrança pessoal daquele dia?
Krenz:
Ambivalente. Foi uma data importante da história. Os dirigentes da RDA decidiram permitir a saída do país a partir de 10 de novembro. Uma informação errônea de meu camarada do birô político Günter Schabowski fez que muitos fossem para a fronteira no próprio dia 9. Não para quebrar o muro, como se insiste agora, mas para passar tranquilamente. Acreditavam que havia sido permitido. As tropas da fronteira não tinham instruções de deixar passar ninguém, o que provocou uma situação muito tensa. Era a fronteira externa do Pacto de Varsóvia. Deixaríamos que as coisas seguissem seu curso ou restauraríamos a segurança na fronteira legal usando a força armada? Poderia ter significado uma guerra civil. Inclusive havia o perigo de que as potências, que insistiam na divisão de Berlim em quatro zonas de ocupação, se vissem arrastadas. Na manhã do dia 10 me disseram de Moscou que a RDA carecia de justificativa para ter aberto a fronteira. O fato de que em 9 de novembro tenha corrido champanhe e não sangue é, em primeiro lugar, mérito dos órgãos de segurança da RDA. Hoje são desprezados, marginalizados e socialmente discriminados.

El País: O senhor tinha consciência da força simbólica que o 9 de novembro iria adquirir?
Krenz:
Não houve um assalto maciço dirigido a desmontar as fronteiras. Isso foi dito depois. Quando falei por telefone com Helmut Kohl em 11 de novembro, ele me agradeceu "a abertura da fronteira" e não "a queda do muro". Os alemães e os europeus escaparam do risco de que dois Estados travassem uma guerra interina. Mas o mundo não é mais seguro nem mais justo depois de 1990.

El País: O que seria diferente se tivessem siso conservados dois Estados?
Krenz:
Só se pode especular. Não critico a unidade alemã, mas a maneira como foi feita. Que não tenha sido de igual para igual. Muitos alemães do leste se sentem cidadãos de segunda ou terceira classe. Em vez daquele "nós somos o povo" de 1989, muitos sentem hoje que "nós éramos o povo".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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