UOL Notícias Internacional
 

11/11/2009

Declarações bélicas de Chávez rompem equilíbrio regional

El País
M. Á. Bastenier
Até alguns dias atrás o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o colombiano, Álvaro Uribe, eram os melhores adversários que cada um poderia encontrar. Ambos tiravam proveito político e eleitoral da inimizade do outro. O mandatário de Bogotá, porque a própria existência estrondosa mas basicamente inofensiva de seu homólogo de Caracas habilitava seus eventuais desejos de reeleição para um terceiro período; e o bolivariano porque a cessão de uso de sete bases colombianas aos EUA foi um excelente argumento para seu anti-imperialismo midiático. Mas não mais. Chávez rompeu o equilíbrio inamistoso e, com seus apelos à guerra contra a Colômbia, a coloca na posição de potência agredida, ao mesmo tempo que dá um tiro no pé em seus próprios desígnios.

Jobim minimiza discurso bélico de Chávez e defende presença da Venezuela no Mercosul

O ministro Nelson Jobim (Defesa) afirmou nesta terça-feira (10) que o Brasil age "com moderação" em relação à ameaça de guerra feita pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, contra a Colômbia. E defendeu a entrada da Venezuela no Mercosul, assunto que está sendo discutido no Senado Federal

O líder equatoriano, Rafael Correa, demonstrando mais uma vez que só é chavista de conjuntura, prossegue a reconciliação com Bogotá; o pomposo presidente Morales, na Bolívia, se afasta de qualquer propósito belicoso; e até a Espanha deveria fugir de qualquer familiaridade desnecessária com o venezuelano. Tudo isso reforça Uribe em sua intenção de levar as ameaças do país vizinho ao Conselho de Segurança da ONU.

Ator tão bem informado quanto o ex-presidente colombiano Ernesto Samper fala de situação de "pré-guerra", e a prestigiosa revista "Semana" de Bogotá afirma que todo mundo na capital comenta essa possibilidade. O jogo venezuelano havia consistido até agora em atiçar o fogo, embora só até o grau de incêndio de baixa intensidade, mas o chavista-em-chefe, com um panorama eleitoral para 2010 relativamente sombrio e um desabastecimento galopante da população, deu um passo em direção ao abismo e parece cada dia mais escravo de suas palavras: "Se quiser a paz, prepare-se para a guerra" - versão local do latim "si vis pacem para bellum".

Sempre se afirmou que os dois presidentes se parecem muito; e é verdade que as circunstâncias os levaram a dar soluções semelhantes - a reeleição - a problemas que ambos creem que afetem seus respectivos países, assim como também não lhes foi estranho o costume de falar à nação por cima das instituições, mas nem por isso as diferenças são menos descomunais. Na Colômbia as instituições funcionam tanto quanto em qualquer democracia latino-americana; alguns malfeitores políticos vão para a prisão; o Congresso luta por suas prerrogativas; e a imprensa não tem que pedir perdão por existir. Tudo isso experimenta, por sua vez, uma forte recessão na Venezuela, talvez a caminho do totalitarismo "light", como predisse a grande voz da oposição venezuelana, Teodoro Petkoff. A complementaridade entre ambos era só funcional. A verdadeira relação é a atual.

Bogotá espiona Caracas, como afirma Chávez? Todos os países, mesmo aliados e sobretudo limítrofes, informam-se uns aos outros através dos chamados serviços de inteligência, e por isso seria ruim que Venezuela e Colômbia não observassem essa precaução. Uribe abriga planos de magnicídio contra seu homólogo? Absurdo total; porque, além de que isso não se faz mais, com que finalidade iria se privar de um rival multiuso como o bolivariano?

As acusações de Bogotá, diferentemente, erguem-se sobre bases muito mais sólidas. Embora o conteúdo dos computadores de Raúl Reyes, o chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia abatido em território do Equador por forças colombianas, tenha sido vendido com uma encenação florida por Bogotá, é difícil duvidar de suas revelações. Quem pode afirmar cegamente que o chavismo não tenha protegido, financiado e acolhido a guerrilha colombiana? A situação criada pela desmesura do líder venezuelano é sem dúvida preocupante, mas também perfeita para que o presidente brasileiro Lula exulte como mediador. Por isso se propõe a oficiar uma cerimônia de aproximação entre os dois países na cúpula de 26 de novembro em Manaus, prevista, entretanto, para tratar do clima meteorológico, e não político.

E se Chávez não perdeu o mundo de vista se prestará ao apaziguamento, o que só pode agradar a Uribe porque, com o espetáculo que seu adversário está dando, já lhe fez mais de meia campanha eleitoral, caso necessite. A Colômbia, evidentemente, não quer - embora não tema - a guerra; a opinião pública venezuelana, com exceção do chavismo psiquiátrico, tampouco; e parece quase impossível que Chávez sozinho, mesmo que quisesse, possa arrastar seu país para semelhante insensatez geopolítica. As bases militares podem constituir uma afronta simbólica, mas jamais uma ameaça militar. Como a do dramaturgo francês Jean Giraudoux, esta guerra não deveria ocorrer.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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