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11/11/2009

Quais talebans é preciso combater?

El País
Ramón Lobo Enviado especial a Cabul
Quatro tipos de insurgência controlam partes das áreas rurais do Afeganistão

"Dizer 'os talebans' é uma simplificação. Quando se combate uma simplificação, perde-se a guerra. (...) No Afeganistão há quatro tipos de insurgência que se financiam com o comércio do ópio. (...) Em muitas áreas rurais não há presença do Estado e as pessoas confiam mais nos insurgentes do que nas autoridades de Cabul e nas tropas estrangeiras. Os talebans são inteligentes, aproveitaram nossos erros, o último foi o desastre das eleições. (...) Sem um governo respeitado pelos afegãos, toda estratégia, nova ou velha, acabará em desastre." Essas são algumas das frases de um especialista em assuntos de segurança que pede para ficar no anonimato.

  • Reuters - 19.ago.2009

    Integrantes do Taleban exibem armas no Afeganistão na véspera da eleição no Afeganistão



Não existem números precisos, mas o Ministério do Interior afegão afirma que os talebans representam uma força de cerca de 40 mil homens. Em frente há outra com armamento moderno, liderada pelos EUA e a Otan, de mais de 100 mil, dos quais 68 mil americanos, 9.500 britânicos e 2.830 canadenses, os únicos que combatem e por isso sofrem a maioria das baixas. Esta segunda força, teoricamente superior, está em sérias dificuldades desde 2007. A proposta dos generais dos EUA é aumentá-la em 40 mil soldados e concentrá-la nos núcleos urbanos. Barack Obama teve oito reuniões com sua equipe nacional de segurança mas ainda não tem um plano para ganhar a guerra.

"Será um governo mais fraco. Falta-lhe legitimidade. O presidente [Hamid Karzai] foi nomeado pela Comissão Eleitoral Independente. Não se realizou o segundo turno e a corrupção é um grave problema, mas se você olhar de onde viemos, desde 2001 se pode afirmar que ocorreram grandes avanços", diz um alto funcionário da presidência afegã que também pede que seu nome não seja citado. Ele afirma que a chave de qualquer nova estratégia é que os afegãos percebam que é seu governo que dirige as operações militares, e não os estrangeiros.

"Há uma geração jovem que está fora do governo do país e cujo objetivo é ir trabalhar em outro país", diz o especialista em segurança. "Talvez o Ocidente devesse ter vetado os candidatos relacionados ao passado, proibir os senhores da guerra, mas isso é muito difícil porque ainda têm muito poder. São os que nomeiam governadores, chefes de polícia, juízes. As eleições legislativas da primavera são uma oportunidade para mudar parte da classe política, mas nesse clima sou pessimista. Acontecerá o mesmo que nas presidenciais."

O principal grupo insurgente no Afeganistão são os talebans. Surgiram em 1994 e em apenas dois anos tomaram o poder, expulsando os senhores da guerra mujahedin. São pashtun, a etnia majoritária do país. Sempre se acusaram os serviços de informação paquistaneses de serem os criadores desse movimento. Um de seus líderes é o mulá Omar, mas não o único. A crescente sofisticação de seus explosivos e de seus ataques faz os especialistas pensarem que por trás há uma clara direção militar, e voltam a indicar os serviços secretos vizinhos. O Paquistão nega qualquer relação com o movimento.

No segundo grupo, que é calculado em cerca de 5.000 combatentes, é o liderado por Gulbuddin Hekmatyar, um senhor da guerra que passou para os talebans. Parte de seu grupo, o Hizb-e-Islami, permaneceu fiel aos antigos senhores da guerra mujahedin e participa da administração Karzai. São consideradas pessoas com mais preparo que os talebans e têm uma grande capacidade de infiltração na polícia.

O terceiro é o mais radical e perigoso, conhecido como rede Haqqani. A CIA o considera o braço da Al Qaeda e o especialista em segurança o compara ao grupo de Abu Musab al Zarqaui no Iraque. É considerado responsável pelos atentados mais sangrentos, como os contra a embaixada da Índia. O chefe desse grupo é um antigo combatente contra os soviéticos, e portanto conhecido dos serviços de informação americanos, Jalaluddin Haqqani. O grupo é dirigido há alguns anos por seu filho Sirajuddin. Assim como o mulá Omar e Hekmatyar, acredita-se que vivam no Paquistão perto da fronteira afegã.

O quarto grupo é o mais complexo. Segundo o especialista ocidental, trata-se de bandos de crime organizado que atuam muitas vezes sob o guarda-chuva dos talebans, como se fosse uma franquia, mas com agenda própria. A maioria combate as tropas estrangeiras porque são um obstáculo para seus negócios de contrabando e drogas.

"O principal problema não é o militar, mas a corrupção, e é muito difícil mudar uma cultura baseada na guerra. Nenhum dos políticos afegãos que estavam no poder tem uma visão de Estado. Primeiro é a família e depois a tribo. As tradições estão acima da lei. Perdemos oito anos e nos metemos em uma situação impossível. Se [as tropas internacionais] ficarem, será um desastre; se forem embora também será um desastre. É terrível. Sou pessimista."

O alto funcionário insiste em que a chave é uma direção da guerra afegã. "Há vários países, entre eles a Espanha, que estão formando nossos oficiais, mas cada país tem uma cultura militar diferente."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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