UOL Notícias Internacional
 

12/11/2009

Tensão na fronteira da Venezuela com Colômbia

El País
Maye Primera
Em San Antonio del Táchira
A guerra começou há cinco anos na cidade de San Antonio del Táchira, o ponto de passagem mais movimentado na fronteira entre Venezuela e Colômbia. Começou com os cinco primeiros mortos que caíram vítimas de tiros na Praça Bolívar; com um bando de assassinos dispostos a limpar o povoado dos bandidos comuns; e com uma comunidade de comerciantes desesperados, dispostos a pagar a "vacina" (cota mensal de dinheiro) pela segurança que não lhes forneciam nem a polícia nem a Guarda Nacional venezuelanas.

Aqueles que então puxaram o gatilho para limpar a localidade de malfeitores, viciados em drogas e prostitutas, cinco anos mais tarde também controlam o contrabando de combustível e alimentos, e o tráfico de drogas. Além disso, reivindicam o recente homicídio de dois guardas nacionais, o que crispou novamente as relações entre Venezuela e Colômbia, rompidas desde agosto passado. E os governos de Caracas e Bogotá, ocupados demais em suas diferenças políticas, parecem ter escolhido se bater em duelo antes de coordenar uma estratégia para combater essas máfias que mantém nas sombras a economia da fronteira comum.
  • Juan Barret/AFP

    Os presidentes Álvaro Uribe Vélez (à esq.), da Colômbia, e Hugo Chávez, da Venezuela, se encontram no Palácio de Miraflores, em Caracas (Venezuela) no início deste ano


"Nem Álvaro Uribe nem Hugo Chávez sabem como é o problema aqui. Eles mesmos deixaram os 'paras' [paramilitares] avançar e agora querem vir nos meter em uma guerra", queixa-se Jairo, um dos centenas de taxistas que cobrem a estrada que liga San Antonio del Táchira à cidade de Cúcuta, capital do departamento colombiano de Norte de Santander. Ele também teve de pagar vacina aos "paracos", nome genérico que os colombianos dão aos grupos que praticam extorsão e impõem sua lei na fronteira. Porque todos são obrigados a pagar, ou morrer.

Só o negócio das vacinas gera milhões. Cada comerciante de San Antonio del Táchira paga aos "paras" entre 40 e 400 euros por mês (entre R$ 102,8 e R$ 1.208), ao câmbio oficial, por sua segurança. Os mototáxis pagam entre 26 e 80 euros (entre R$ 66,8 e R$ 205,6). As companhias de táxi, mais de 360 euros (cerca de R$ 925). E os que infringem as regras - não andar pela rua depois das 22 horas, não beber em excesso, não se drogar - também devem pagar multas de até 600 euros (cerca de R$ 1542). Os policiais sabem de tudo: conhecem o valor das multas, os lugares de reunião. Mas não atuam, segundo eles, porque ninguém se atreve a denunciar a extorsão. E sem denúncia não há delito.

"Devo admitir que no início os paras fizeram seu trabalho, limparam bastante. Fizeram o que a polícia não podia fazer. Mas já estão passando dos limites. E nisso estão metidos venezuelanos e colombianos", confessa um funcionário da polícia científica. A instituição foi encarregada de analisar os pedaços de corpos que de vez em quando aparecem no rio Táchira, que separa os dois países; os pedaços dos "que não fizeram caso" e foram assassinados e cortados por suas faltas com uma motosserra e tiveram seus membros lançados à água. Outros são enterrados. Há pelo menos três fazendas na fronteira, conta o policial, dedicadas a fossas comuns desde que foram arrebatadas pelos paras de seus donos legítimos.

Sem água e sem luz, mas com planos de guerra

A caricatura do dia nas páginas de opinião do jornal "Los Andes", que circula no Estado venezuelano de Táchira, fronteiriço com a Colômbia, mostra um casal recém-casado em uma luxuosa festa de casamento. O noivo pergunta: "Meu amor, qual foi o melhor presente que ganhamos?", e a noiva responde: "Dois 'totumas' com nossas iniciais gravadas!" A totuma é uma vasilha feita com a fruta de uma árvore que era utilizada pelos venezuelanos para tomar banho no início do século passado, nos lugares onde não havia aquedutos nem água corrente



Os táxis em San Antonio del Táchira são, por sua vez, as "mulas" que servem aos paras para contrabandear o combustível que movimenta o departamento do Norte de Santander. Isso explica que nesta cidade de não mais que 50 mil habitantes, que é facilmente percorrida a pé, a prefeitura tenha registrado mais de 500 táxis: um para cada cem habitantes. Também explica que, apesar dos programas que o governo venezuelano promove para a compra de carros novos a preços subsidiados, os taxistas preferem modelos dos anos 1970: Ford Fairlane, Chevrolet Malibu, Dodge Dart, carros com tanque de combustível maior, que permitem contrabandear até 80 litros de gasolina para Cúcuta em uma só viagem, "sem molhar os pés".

Porque os contrabandistas também usam outras vias para cruzar o rio para a Colômbia, a pé ou de bicicleta, chamados de "caminhos verdes", mas nenhum é tão cômodo quanto cruzar a ponte internacional: basta subornar os guardas nacionais com o equivalente a 1 euro (R$ 2,57) por recipiente de 20 litros de combustível para que a fronteira se abra.

Um litro de gasolina na Venezuela é 60 vezes mais barato que um litro de água: custa 0,07 bolívar, cerca de 0,02 euro (R$ 0,05). Basta atravessar os 300 metros da ponte internacional Simon Bolívar, que comunica a Venezuela com a Colômbia, e o litro de gasolina aumenta 25 vezes seu valor original: no bairro de La Parada, que fica justamente na borda da fronteira colombiana, é vendida a 1 mil pesos colombianos o litro, equivalentes a 0,05 euro (R$ 0,12). Quando a Guarda Nacional aumenta os controles na fronteira, como ocorreu nas últimas três semanas, a escassez do combustível contrabandeado em Cúcuta faz que o preço dispare para o dobro, e que os mafiosos dispararem contra os guardas nacionais venezuelanos.

"Tomamos a decisão irrevogável de atacar com violência. Não vamos mais foder somente os vermes, agora chegou a vez dos malparidos guardas por não nos deixar trabalhar. Quem colaborar acontecerá o mesmo, esta organização decidiu. ... Morte aos cães." Isso dizia o panfleto que os paras distribuíram pelas ruas na quinta-feira, 29 de outubro. A ameaça vinha acompanhada de um "convite" para que os comerciantes fechassem suas lojas no dia seguinte em sinal de protesto pelos constantes fechamentos da passagem para a Colômbia. Todos obedeceram à mensagem: na sexta-feira, San Antonio amanheceu como se fosse domingo. E na segunda, 2 de novembro, às 15h30 da tarde, dois sargentos da Guarda Nacional, Gerardo Zambrano e Senir López, foram assassinados na Praça de El Palotal - a 2 km de San Antonio - por quatro bandidos de motocicleta que lhes atiraram pelas costas.

A versão do vice-presidente e ministro da Defesa, Ramón Carrizález, é que esse crime foi o início de um plano conspiratório que se prepara contra a Venezuela, ligado à "instalação de sete bases ianques" na Colômbia, e que o alvo dos disparos era na realidade o presidente Hugo Chávez.

Rubén escutou Chávez neste domingo quando chamou seus generais e a população para se preparar para a guerra, como última medida para enfrentar a crise com Bogotá. Rubén é colombiano, vivia do contrabando de gasolina em San Antonio del Táchira até uma semana atrás, quando a guarda o tirou do país. Agora vende água na metade da ponte Simon Bolívar, enquanto espera que a situação se acalme para voltar à Venezuela. Ele é reservista e está disposto a empunhar um fuzil para defender "a pátria". Qual das duas? "Pois, qualquer uma, a que me der de comer."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h29

    -0,03
    3,126
    Outras moedas
  • Bovespa

    13h34

    -0,33
    64.725,64
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host