UOL Notícias Internacional
 

13/11/2009

Okinawa: símbolo da cooperação militar nipo-americana

El País
Andres S. Braun
Em Okinawa
Ela é chamada de "o único porta-aviões dos EUA que não pode afundar". Seus 1.200 quilômetros quadrados - superfície pouco menor que a da ilha espanhola Grande Canária - abrigam mais de 30 complexos e bases norte-americanas: 75% das instalações militares que Washington tem em solo japonês.

Por isso Okinawa foi o símbolo mais importante da cooperação entre as duas potências desde o final da Segunda Guerra Mundial, além de continuar sendo um enclave estratégico fundamental para os EUA; sua localização a meio caminho entre o sul das principais ilhas do Japão - cerca de 400 km - e a costa oriental chinesa - cerca de 300 km - lhe permite vigiar a imprevisível Coreia do Norte e avaliar de perto a crescente pujança do exército chinês na região.
  • Yuriko Nakao/Reuters

    Caças norte-americanos sobrevoam base militar em Okinawa, no Japão, no início deste ano


No entanto, desde que o Partido Democrata de Yukio Hatoyama assumiu o poder em setembro, esta ilha se transformou em um enorme quebra-cabeça diplomático. Especialmente no que diz respeito à controversa base aérea de Futenma. Hatoyama anunciou que a transferiria para fora do país depois de vencer as eleições em 30 de agosto passado, mas o descontentamento demonstrado por Washington desde então e a ausência de alternativas paralisaram sua decisão.

Barack Obama visita o Japão nesta sexta-feira e no sábado, e as conversas que mantiver com o primeiro-ministro japonês serão fundamentais para o destino de Futenma e para aliviar os atritos entre os dois governos. Por um lado, Washington aposta em mudar a base para uma área do norte da ilha - tal como acordaram os dois países em 1996 e novamente em 2006 -, embora se trate de uma área com ecossistema protegido pelo Ministério do Meio Ambiente japonês.

Por outro lado, o Partido Social Democrata - parceiro de Hatoyama no governo - e a população local, cansada de conviver com esse tipo de instalação militar que ocupa 20% de sua ilha, insistem em se livrar dela. Foi o que demonstraram no domingo passado, quando cerca de 20 mil cidadãos se manifestaram na cidade de Nago a favor de tirar a base de Okinawa. Em todo caso, Hatoyama tem a última palavra, embora já tenha pedido mais tempo para enfrentar seu maior desafio até agora. Sua decisão poderia ser adiada para 2010, e os analistas começam a achar inconsistente sua política "para contentar a todos".

Futenma abriga cerca de 4 mil fuzileiros-navais na cidade de Ginowan, no sudeste da ilha. Dirigindo desde a capital, Naha, as bases monopolizam quase todo o lado esquerdo da estrada. Ao chegar, o zumbido incômodo dos helicópteros CH-46D começa a ser escutado a cada dez minutos. Às vezes até cinco ou seis sobrevoam Ginowan, quando não é algum atordoante caça F-18. É assim diariamente até as 11 da noite. Todos aterrissam e decolam desse complexo que ocupa um quarto do município e se situa em seu próprio centro urbano.

Há cinco anos um desses helicópteros se chocou contra o edifício de uma universidade. Por sorte, só três de seus tripulantes ficaram feridos. "Devido ao espaço que nos tiram Futenma e a base de Camp Foster, nossa densidade populacional é de quase 7 mil pessoas por quilômetro quadrado, maior que a de Tóquio. Isso aumenta o perigo de acidentes", explica o prefeito de Ginowan, Yoichi Iha, um independente que conta com o apoio do PDJ e outras formações de esquerda.

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"Como se fosse pouco, ao obter os planos da base em 2007 descobrimos que Futenma ampliou as pistas sem respeitar as áreas de segurança que deve haver nas cabeceiras, um padrão obrigatório para todas as bases aéreas norte-americanas no mundo. Isto põe em gravíssimo perigo cerca de 3 mil pessoas que vivem ao lado dela", acrescenta. Passaram-se 13 anos desde que Washington e Tóquio concordaram em transferir Futenma para Henoko, uma área menos povoada no norte de Okinawa, mas a base continua lá.

"Além do impacto ambiental, nenhuma prefeitura quer tê-la por perto. Além do perigo e do ruído, há os delitos em que o pessoal militar se envolve", explica Iha. As brigas de que os soldados participam são frequentes na ilha, embora nada comparável com o que aconteceu em 1995, quando três fuzileiros violentaram uma menina de 12 anos. Desde então o comando militar se mostrou mais estrito com o pessoal das bases, mas nos anos seguintes ocorreram várias denúncias de violação ou assédio.

No entanto, alguns não creem que a presença das bases seja negativa. "Elas dão trabalho para muita gente nesta ilha", conta Shin Atarima, um taxista de 77 anos que até os 65 trabalhou como engenheiro elétrico na base aérea de Kadena. Seu perfil corresponde ao dos eleitores que nos últimos anos elegeram para a prefeitura um governo apoiado pelo conservador Partido Liberal Democrata, que defende que as bases aumentam a riqueza da região.

A verdade é que os dados da própria prefeitura - a mais pobre do Japão - indicam que muitas bases minam o desenvolvimento da ilha e que sua contribuição para a economia local no início desta década foi de apenas 5%. "Só 200 pessoas de Ginowan [que tem 92 mil habitantes] trabalham na base, e parte de seus salários é abonada pelo governo japonês", argumenta Iha.

"É lógico que os EUA não querem abandonar Okinawa. Não há nenhum governo mais complacente com eles que o japonês. Não só vai pagar cerca de 4,5 bilhões de euros (R$ 11,5 bilhões) para transferir 8 mil fuzileiros-navais para Guam, segundo se acordou em 2006; dentro de Futenma ajudou a construir todo tipo de comércios e infraestruturas para facilitar a qualidade de vida de seu pessoal", acrescenta. É raro ver algum fuzileiro comprando algo em Ginowan; na base, uma cerveja custa seis vezes menos que fora dela. E nem mais procuram aparelhos eletrônicos, porque agora a base funciona com a voltagem norte-americana."

"Mas quando você traspassa as cercas de segurança a ajuda do governo japonês é quase nula. Os 500 milhões de ienes anuais - quase 4 milhões de euros (R$ 10,2 bilhões) - que nos dão como subsídio é muito menos do que obteríamos se os terrenos fossem devolvidos. Continuam considerando a população de Okinawa como cidadãos de segunda classe", comenta Iha, com relação a um ressentimento que vem de longe.

No século 17, esta ilha do reino independente de Ryukyu foi tomada pelo clã samurai Shimazu, de Kyushu, para comercializar com a China pelas costas do xogunato Edo. Depois o Japão imperialista anexou no século 19 todo Ryukyu, impôs à força a cultura e o idioma japoneses e militarizou a ilha. Isso fez que Okinawa sofresse uma das piores batalhas entre EUA e Japão durante a guerra do Pacífico, com 100 mil baixas civis - um em cada três okinawenses morreu.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os sucessivos governos do Partido Liberal Democrata japonês situaram em Okinawa a maior parte de suas obrigações militares com os EUA. Isto inclui que a ilha permanecesse sob o controle de Washington 20 anos a mais do que o resto do Japão, que recuperou sua soberania em 1952.

"Temos muitas esperanças de que a questão se resolva. Hatoyama foi um dos políticos que mais lutou por nossos interesses quando estava na oposição. Agora não tem outro remédio senão agir", afirma Iha.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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