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15/11/2009

Paris chama os cidadãos a responderem: "O que é ser francês?"

El País
Antonio Jiménez Barca
Em Paris (França)
Na segunda-feira passada, o ativo e controverso ministro da Imigração e Identidade Nacional francês, o ex-socialista Éric Besson, lançou um polêmico debate que polarizou (e polariza) a vida francesa e que tem, como origem da discussão, a pergunta diabólica: "Em que consiste ser francês?"

Ser francês é...

  • Jacques Brinon/AFP
Até 31 de janeiro, todos os franceses estão convidados, usando seu nome ou de forma anônima, na página www.debatidentitenationale.fr, a dar a resposta - sua resposta - a este pergunta escorregadia num país que tem 11% de imigração. Segundo dados do ministro, 14 mil franceses já deram sua definição. Refletem o que pensam de si mesmos, com sua diversidade e suas contradições.

E com um certo senso de humor. Um participante que se esconde sob o apelido de Pseudo assegura: "Ser francês consiste em louvar o homem e não em aparecer em nenhum currículo; é amar a diferença, elogiar a tolerância, rechaçar as ditaduras, a corrupção... e não participar de debates como este".

Jacqueline, entretanto, aprova, como muitos outros, a ideia: "Ser francês é ler e escrever a língua francesa, cantar 'A Marselhesa' nos eventos patrióticos e esportivos, hastear a bandeira, conhecer nossa história, respeitar nosso Estado de direito e amar nossa paisagem. Parabéns, senhor ministro, por esta iniciativa!".

"A Marselhesa", o hino nacional francês, vaiado há um ano no estádio de futebol de Saint Denis antes de uma partida entre as seleções da Tunísia e da França por torcedores moradores da periferia parisiense, aparece em muitas das frases. Em sua maioria positivas. Mas não em todas: "Sou bretão, francês, europeu, cidadão do mundo, filho espiritual de Gandhi, Einstein, Espinoza e muitos mais. Não preciso de uma identidade nacional para dizer o que eu sou: sou um homem livre, e ninguém me fará cantar as infames estrofes belicosas da Marselhesa...".

Há palavras que, junto com A Marselhesa, são muito citadas: valores, história, tradição, orgulho... Três exemplos: "a França é um país de raízes cristãs, admitamos e nos orgulhemos disso. Se nosso país vai mal, é justamente porque os franceses renegam suas origens e as destroem", disse Benoit.

"Para mim, ser francês consiste no orgulho de pertencer à maior nação do mundo, tanto por sua influência quanto por sua história", acrescenta Fabian. "Ser francês consiste em defender os valores ligados a 1.500 anos de história. Esta pode ser herdada ou merecida. Por isso, ser francês não é só viver na França. É ser consciente e ter orgulho de nossa história comum, participar do desenvolvimento de nosso país, trabalhando e respeitando nossas leis, nossas tradições e cultura judaico-cristã: quando se vai a um restaurante, ninguém leva a própria comida", disse Marwan.

Há quem não esteja de acordo com tantas palavras grandiosas: "Ser francês não consiste em ter orgulho de sê-lo. Tampouco em ter vergonha. Mas não esqueçamos que a palavra francesa para orgulho [fierté] tem a mesma etimologia de feroz. Por que meter o orgulho em tudo? Já temos bastante por parte de alguns comentaristas esportivos...".

Entre as propostas, há testemunhos emocionantes. Um é do filho de um refugiado argelino: "Em 1960, meu pai chegou à França, tornou-se francês e declarou: sei que meus filhos nunca voltarão à Argélia. Ele não se enganou. Ser francês é compreender porque escolhemos sê-lo ao nos enraizarmos nesta terra, ao respeitá-la, inclusive quando não ela é um paraíso". Outro é de um professor: "Ser francês é confiar na educação para a liberdade, a igualdade e a fraternidade, para que as palavras gravadas nas entradas de nossas prefeituras (e em sua página na internet, senhor ministro) não sejam em vão. Há 30 anos contribuo com isso, ensinando em colégios que não ficam nos bairros mais ricos. Ser francês é respeitar os direitos humanos, que não se limitam aos franceses, que eu saiba."

Há quem defenda as origens rurais da França, sua determinante laica, sua essência frente à Europa e frente ao mundo. E há quem vá por outro lado, como Rafael: "A identidade nacional é plural na França. Está melhor representada no metrô do que na Assembléia Nacional".

Também escrevem leitores que, como a esquerda francesa, desconfiam do debate por considerá-lo um chamariz político de Sarkozy. Dois exemplos: "Este é um debate muito prático: em tempos de confusão geral, dividem-nos para nos governar melhor. A ideia de nação está próxima do fascismo, já que se pressupõe que uma nação é superior à outra". "Tudo isso não é nada além de uma manobra política para provocar aos eleitores de direita diante das eleições de março próximo. Eu sou francês por acaso, não por escolha."

A propósito da necessidade de que os imigrantes aprendam francês, Sally assegura: "É normal que aprendam a língua. Mas nós também deveríamos aprender a sua. Sonho com um país em que falar o árabe ou o chinês seja tão normal quanto falar inglês".

Na mesma linha, Khader acrescenta: "Se amam as cores da bandeira, que amem também as cores da pele".

Durante meses, continuarão chegando ideias, propostas e definições. De um e de outro lado. Serão milhares de maneiras de definir e explicar o que é ser francês. Todas inúteis para alguém que identifica pelo apelido de Nicopol: "A França, como todos os outros países, faz parte de um todo. Assim, se você pergunta o que é ser francês, ninguém será capaz de descobrir. O que é ser terráqueo para você?"

Tradução: Eloise De Vylder

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