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15/11/2009

Todos mentimos, o que muda é a dose

El País
Silvia Blanco
El País
Se alguém muito entusiasmado lhe der um pastor-alemão de porcelana em tamanho natural no seu aniversário, o mais provável é que você diga "muito obrigado" e sorria como puder. Mesmo que lhe pareça um cachorro absurdo e você esteja maquinando que, para jogá-lo no lixo, o mais prático será quebrá-lo a marteladas.

A um gentil "Como vai?" no elevador do escritório, pouca gente responderia que está muito deprimida porque vai se divorciar, mesmo que seja verdade. Pura sociabilização. Mark Twain mostrou isso claramente em seu sarcástico "A decadência da arte de mentir": "Ninguém poderia viver com alguém que dissesse a verdade de habitualmente; por sorte, nenhum de nós nunca teve de fazê-lo". Ele escreveu isso mais de um século antes que Robert Feldman, professor de psicologia na Universidade de Massachusetts, estabelecesse em seu livro "The Liar in Your Life" [O mentiroso na sua vida] que mentimos entre duas e três vezes em uma primeira conversa de dez minutos com um novo conhecido.

Mentimos porque há público. Porque os outros existem. As relações exigem esse tipo de ficção consentida, quase sempre inofensiva. O psiquiatra Carlos Castilla del Pino, em seu livro póstumo "Conductas y Actitudes" (ed. Tusquets, 2009), afirma que "a vida social exige temperar, isto é, melhorar como pudermos a imagem de nós mesmos diante dos outros".

Para Nicolas Sarkozy, a comemoração da queda do Muro de Berlim o fez escorregar. Em 9 de novembro publicou em sua página no Facebook suas lembranças sobre o que ele fazia nesse dia 20 anos atrás. Disse: "[naquele dia] pela manhã nos interessamos pelas informações que vinham de Berlim e que pareciam anunciar as mudanças na capital dividida da Alemanha. Decidimos deixar Paris com Alain Juppé para participar do evento que se perfilava".

Ou bem a memória o traiu (não seria estranho: falseamos nossa própria biografia com relativa facilidade sem intenção de enganar) ou ele mentiu, como tentaram demonstrar alguns jornais franceses ("Libération", "Le Figaro"). Afirmam que esteve em Berlim, sim, mas uma semana depois.

Tal devoção por protagonizar momentos históricos não é nova, segundo Miguel Catalán, professor de ética da comunicação na Universidade Cardenal Herrera de Valência e autor do tratado "Seudología" [Pseudologia], editado por Mario Muchnik, do qual publicou três volumes: "Na Espanha houve um momento em que todo mundo parecia ter participado 'in situ' das revoltas de maio de 1968. Um bom número de escritores e intelectuais espanhóis parecia se encontrar casualmente em Paris nesse exato momento, e depois contou sua experiência pessoal em artigos e livros", explica.

Mas há mentiras que crescem demais e atingem o outro extremo da falsidade, a impostura. Para isso é preciso cálculo, vontade de enganar, muita energia, engenhosidade, memória e provavelmente muito tempo. É assim que se consegue ocultar a própria identidade para cimentar uma nova sobre uma mentira. Há grandes diferenças das "mentirinhas", sim, mas o preocupante é que as grandes e gordas mentiras seguem, segundo Castilla del Pino, mecanismos idênticos.

O caso de Enric Marco é exemplar. O homem passou quase 30 anos, de 1978 até 2005, dizendo que havia estado no campo de concentração nazista de Flossenbürg. Recebeu a Cruz de Sant Jordi, uma das mais altas distinções concedidas pelo governo da Catalunha. Deu centenas de conferências. Inventou-se um número de deportado, 6448. Presidiu a associação Amical de Mauthausen. Quando um historiador que passou três anos rastreando a vida de espanhóis que foram vítimas do Holocausto descobriu, demonstrou e denunciou a impostura, Marco disse à agência de notícias Efe que não o fez "por mal". "Parecia que [quando começou a contar essa história] me davam mais atenção e podia divulgar melhor o sofrimento dos que passaram pelos campos de concentração."

Não é difícil compreender - embora não se compartilhe nem se aceite - que um político minta para ocultar que roubou dinheiro público ou que recebe um suborno; que um assassino conte um filme mais ou menos verossímil à polícia para tentar demonstrar que não tem nada a ver com aquele cadáver, ou que alguém invente todo tipo de desculpa para manter uma infidelidade. São mentiras instrumentais, têm um objetivo pontual e correspondem aos três principais motores da falsidade: "poder, sexo e dinheiro", indica Catalán.

"Há algo de gratuito e desnecessário nessa impostura, e portanto de criativo", prossegue. "Mente só para ocupar o centro da atenção. Além de natural (no fundo, poucos preferem passar despercebidos a ser protagonistas), essa motivação retém algo do egocentrismo associal da infância, e por isso pode nos fazer sorrir, porque descumpre o primeiro preceito da prudência adulta nesses casos: nunca se deve mentir quando dizer a verdade é mais vantajoso. O problema surge quando a impostura é radical ou vital; quando ocupa o centro da personalidade do sujeito."

O que há por trás de um impostor? Por que ele arrisca tudo por uma invenção aparentemente desnecessária? "Uma insatisfação sobre a própria personalidade que ele tende a compensar de maneira simbólica. No início há uma recompensa imediata, conta-se algo que impressiona os outros em um pequeno âmbito. Mas depois é cada vez mais difícil ser convincente, envolve-se mais pessoas e perde-se o controle", comenta Catalán.

Castilla del Pino explica em seu livro que "a impostura é uma incongruência no processo permanente de construção e uso da identidade obtida. (...) Exige tal memória de evocação sobre as muitas mentiras contadas que sempre existe o risco de se autorrevelar. O impostor transgride de maneira total os pactos de veracidade que regem de maneira decisiva a interação que, fora a questão moral, constituem uma economia mental. A tensão é de tal ordem que às vezes os leva à confissão como maneira de resolver a angústia".

Uma mentira exige muitas outras. Uma grande mentira exige compromisso. Calcular, elaborar, elucubrar possíveis cenários perigosos e respostas para perguntas incômodas, capacidade de improvisação. Para José María Martínez Selva, professor de psicologia na Universidade de Murcia e autor de "La Gran Mentira" (ed. Paidós, 2009), é preciso distinguir entre o impostor instrumental, o que ele chama de "canalha", ou o fabulador. Marco entraria na primeira categoria. Tania Head, na segunda.

Essa barcelonesa cujo nome real é Alicia Esteve Head chegou a presidir a associação de vítimas do World Trade Center. Tania Head entra em cena logo depois dos atentados de 11 de Setembro em Nova York, quando o mundo inteiro está comovido pelo desastre. Ela explica à mídia, no ponto zero, que estava no 78º andar da torre sul, entre as 20 pessoas que sobreviveram embora se encontrassem em andares mais altos que os afetados pelo impacto do avião. Dizia trabalhar nos escritórios da Merrill Lynch e que um homem, pouco antes de morrer, lhe deu sua aliança de casamento para que a entregasse a sua mulher. Como se não fosse suficientemente impactante, seu relato incluía a tragédia de seu namorado, Dave, que morreu na torre norte e com o qual estava prestes a se casar.

Os jornais "The New York Times" e "La Vanguardia" desmontaram a história em setembro de 2007. O jornal espanhol reuniu dados sobre Alícia Esteve, que nem era filha de diplomatas nem havia estudado em Harvard nem em Stanford. "É a autêntica fabuladora", opina Martínez Selva. "Nem todo mundo é capaz de mentir assim. Ela se recria nos detalhes, desfruta sendo o centro da atenção e impressionando os demais a golpe de emoção. Esse tipo de pessoa é capaz de continuar mentindo, de mudar de ambiente ou de país e reinventar-se, diferentemente de Enric Marco, que, uma vez descoberto, parou. Ele evitava contar anedotas de sua passagem pelo campo e compartilhar experiências com os sobreviventes."

Quanto mais gente estiver envolvida na mentira, maior o risco assumido pelo impostor. Para alguns dá exatamente na mesma. A realidade se transforma em um mero estorvo que pode ser modificado. O fabulador simplesmente a ignora. Se for confrontado com dados, improvisa outra versão. Mas a maioria faz um cálculo que acaba sendo impossível de controlar: a bola tem vida própria e é difícil de parar. Apesar de ter começado com algo muito pequeno, em um entorno próximo, como ocorreu com Marco. "Uma vez imerso nas palestras e conferências, de falar no Congresso dos Deputados e presidir a Amical de Mauthausen, descer dessa roda teria sido quase tão difícil quanto tirar a própria vida", explica Catalán.

É habitual que uma grande mentira, mesmo que não tenha suplantação da identidade ou impostura no sentido de mentir sobre si mesmo até ser outra pessoa, leve a cometer crimes. É o caso da família Heene, os pais do "menino do balão". Na última quinta-feira eles admitiram as acusações por denúncia falsa, por mobilizar as autoridades para que resgatassem seu filho de um perigo inexistente, informa a BBC.

Há 15 dias o cientista sul-coreano Hwang Woo-suk, especialista mundial em clonagem, foi condenado a dois anos de inabilitação por falsear o programa de pesquisa com células-tronco que dirigia. Hwang tinha um enorme prestígio profissional, uma carreira sólida e tinha conseguido clonar um cachorro (esta descoberta foi verificada). Em 2005 publicou um estudo que criou falsas expectativas em relação à cura de doenças como o Alzheimer ou o câncer, manipulando dados. Ele fez isso na revista "Science", uma referência internacional de rigor e qualidade. "É um impostor, sim, mas neste caso sua conduta é condicionada pela enorme pressão que representa dirigir um laboratório de pesquisa de ponta, com muita gente sob seu comando. Teve a tentação e foi vítima da fama", explica Martínez Selva.

Nas grandes mentiras sempre existe a dúvida de se, à força de repeti-las e contá-las, o impostor acaba acreditando nelas. A maioria deles não sofre qualquer enfermidade mental, explica Jerónimo Saiz, presidente da Associação Espanhola de Psiquiatria. Mentir é quase sempre uma escolha. Desde a mera maquiagem da realidade para que se adapte à imagem que queremos dar em um dado momento, até a grande mentira, buscamos coerência. Quando se conta algo falso que produz culpa ou intranquilidade, é habitual que se relativize ou se incline, que não se leve em conta o dado que nos confronta com a realidade. O tornamos óbvio intimamente se decidimos continuar com o engano, explica o psicólogo Pedro Rodríguez.

Levar esse mecanismo ao extremo pode explicar em parte a persistência na falsidade, até que se torne inevitável reconhecê-la. A própria configuração da memória - um processo ativo que se refaz constantemente - propicia que haja gente capaz de lembrar como verdadeiros fatos que nunca ocorreram, sobretudo em relação à infância, explica o catedrático em fisiologia da Universidade Complutense, Francisco José Rubia. "Ao armazenar lembranças, comparamos com o que já conhecemos e nesse processo utilizamos emoções, crenças, expectativas e realidade. Tendemos a embelezá-los e a contá-los várias vezes, assim os vamos modificando", afirma. De fato, o autoengano é positivo, já que "nos ajuda a suportar as frustrações da vida. As pessoas deprimidas manifestam o que chamamos de realismo depressivo: a imagem que têm de si mesmas se parece mais com como os outros as veem. Não fazem como as outras pessoas, dizer a si mesmo que é boa pessoa, que é inteligente e elevar suas virtudes", conta Martínez Selva.

A mentira é uma questão de dose: um pouco de autoengano e um pouco de cortesia para poder sair à rua. As demais ficam para os que preferem finais com fogos de artifício.

A aterrissagem abrupta do menino do balão

O balão inflado com mentiras em que se elevou o casal Heene do Colorado (EUA) acabou de desinchar na quinta-feira. A BBC informou que ambos tinham aceitado as acusações de denúncia falsa e que portanto enfrentam uma pena entre dois e três meses de prisão. Admitindo o embuste, conseguiram evitar que fossem acusados de conspiração e de induzir um menor ao crime, seu filho, e por isso poderiam ter pegado seis anos de prisão.

O casal já tinha participado de "reality shows" na televisão. Há algumas semanas devem ter sentido saudade. Pensaram que se fingissem que seu filho de 6 anos estava em um balão que havia se elevado descontroladamente, conseguiriam passar para a posteridade. Mesmo que por um breve momento. Durante horas eles conseguiram. As redes de televisão dos EUA emitiram imagens do balão à deriva e a notícia se espalhou por meio mundo; a polícia e os bombeiros se preparavam para resgatar o rapaz em um raio de 64 km. Com grande dramaticidade, os pais compungidos esperavam o milagre enquanto o menino estava escondido em um quarto de despejo em sua casa. Agora eles admitem que sabiam de tudo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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