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17/11/2009

Casal Kirchner se beneficia da oposição dividida na Argentina

El País
Soledad Gallego-Díaz
Em Buenos Aires
No próximo 10 de dezembro Cristina Fernández de Kirchner e a Frente para a Vitória, dirigida por seu marido, Néstor Kirchner, perderão a maioria absoluta no Parlamento argentino e começará uma complicada etapa de coabitação que já provocou grandes tensões. O sistema parlamentar fez que, entre as eleições de 28 de junho, que Kirchner perdeu, e a formação do novo Parlamento, tenham transcorrido cinco meses nos quais a oposição, dividida, pareceu não saber bem o que fazer, enquanto os Kirchner se lançavam a uma intensa atividade.

O casal K

  • AFP/Presidência

Nesse tempo, os Kirchner puseram em ação dois planos sociais e conseguiram a aprovação da polêmica Lei Audiovisual. Também tentam que antes do dia 10 o Congresso aprove a Lei da Reforma Política, que provoca igualmente divisão entre a oposição. As novas normas obrigariam, entre outras coisas, que todos os partidos realizem eleições primárias simultâneas e abertas, e impediriam a publicidade política paga por particulares. Um de seus aspectos mais polêmicos é que não regulamenta a publicidade estatal em períodos eleitorais, com o que o governo fica em posição de absoluta vantagem.

"Não é que Kirchner tenha aproveitado estes meses para ressuscitar, enquanto a oposição não era capaz de fazer valer seu voto. A realidade é que enquanto não se formar o novo Congresso não é possível desenvolver políticas concretas nem fechar acordos", afirma Eduardo Amadeo, um peronista dissidente. Segundo Amadeo, o primeiro acordo da oposição será conhecido nesta terça-feira, com a exigência de que os presidentes de comissões parlamentares passem a refletir a nova situação. Não está claro, porém, que Elisa Carrió dará seu voto para desalojar o atual presidente da Câmara, o kirchnerista Eduardo Fellner, apesar de que este seria um autêntico golpe diante da opinião pública.

Em todo caso, o novo Congresso vai tirar uma importante fonte de poder da presidente, à qual ainda restam dois anos de mandato. Embora a oposição funcione como uma simples soma de grupos, é previsível que chegue a acordos para disputar com o governo o controle da agenda política e social e para paralisar boa parte das iniciativas governistas. A presidente tem a possibilidade de exercer seu direito ao veto, uma prerrogativa de difícil utilização.

Nos cinco meses que transcorreram desde as eleições, os Kirchner desenvolveram uma intensa atividade. O ex-presidente recuperou o controle formal do Partido Justicialista (PJ), de cuja presidência se demitiu teoricamente no dia seguinte a sua derrota eleitoral. No entanto, no PJ há cada vez mais vozes dissidentes. Entre outras a de Eduardo Duhalde, um grande barão do peronismo, disposto a usar todo o seu poder na sombra para destronar os Kirchner.

O ex-presidente parece buscar o apoio nos pequenos grupos parlamentares, acentuando seu papel como eventual líder da esquerda, apesar dos constantes escândalos financeiros que acompanham sua gestão e seu patrimônio. Kirchner conta com o favor da Carta Aberta, um movimento liderado pelo filósofo Juan Pablo Feinmann e o jornalista Horacio Verbitsky, para os quais, acima de tudo, está a política sobre direitos humanos que Kirchner desenvolveu e que permitiu julgar muitos dos torturadores anistiados na época de Carlos Menem.

Dentro dessa estratégia, nos últimos dois meses a presidente Cristina Fernandes anunciou dois planos de cunho social: a atribuição universal de 180 pesos (32 euros) para cada filho menor de 18 anos em famílias de desempregados ou de salário mínimo, e um fundo de 1,8 bilhão de euros para que cooperativas de desempregados possam criar até 100 mil postos de trabalho.

As duas iniciativas despertaram fortes críticas, porém. Primeiro por seu aroma clientelista e segundo por suas características concretas. No caso dos 180 pesos por filho, a medida será financiada com fundos da Previdência Social, isto é, serão os idosos que adiantarão o dinheiro de suas pensões para pagar essas bolsas. Além disso, o anúncio coincide com a notícia de que o governo da província de Buenos Aires (com 30% da população do país), dirigido por um fiel kirchnerista, deixou de pagar bolsas e subsídios para mais de 250 mil crianças da região e busca desesperadamente fundos para enfrentar esses atrasos.

Por sua vez, a iniciativa para financiar cooperativas de desempregados provocou uma autêntica guerra entre os possíveis beneficiários, que lutam para ver quem fica com a maior parte. Grupos de desempregados queixam-se de que existe uma distribuição tendenciosa e que os fundos só chegam a associações fiéis ao governo.

As medidas sociais não tranqüilizaram as ruas. Pelo contrário, as duas últimas semanas foram palco de uma intensa atividade piqueteira, com interrupções de tráfego e incidentes variados. O caos se acentuou com uma greve do metrô de Buenos Aires, provocada não por reivindicações salariais mas por brigas entre grupos sindicais que se detestam.

A questão é que, segundo as pesquisas, 91% dos habitantes de Buenos Aires querem que o governo faça algo para que diminua o clima de confronto na rua, e esse estado de ânimo se reflete também em uma importante deterioração da figura da presidente, que não consegue superar os 25% de apoio há muitos meses.

Nesse clima, o novo Congresso vai iniciar seus trabalhos, com o olhar posto nas eleições de 2011 e nos dois principais candidatos que vão concorrer. O radical está cada vez mais claro: Julio Cobos, atual vice-presidente, que defende bem sua alta popularidade. A dúvida é quem será o candidato peronista. Há quem creia que Néstor Kirchner lutará por essa nomeação e os que acreditam que já está amortizado e que o PJ conseguirá encontrar um bom nome nestes dois anos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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