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18/11/2009

O muro que caiu na América Latina

El País
Miguel Ángel Bastenier
Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, há mais e menos Europa; maior extensão, menor coesão. Uma evolução que nem por ser positiva deixa de emaranhar as coisas. E se, por extensão, esse acontecimento mudou o mundo, a América Latina não poderia ficar à margem. Os efeitos sobre o mundo latino-americano podem ter sido menos visíveis, de explosão retardada, mas muito mais esclarecedores do que no caso europeu. Hoje existe muito mais América Latina do que há 20 anos, e essa realidade tem algo a ver com o desmoronamento da União Soviética.

A "distração" que Washington reserva há alguns anos em relação aos assuntos latino-americanos costuma ser atribuída a preocupações mais urgentes: Irã, Iraque e Afeganistão-Paquistão, mas a razão fundamental é anterior. O desaparecimento da União Soviética enfraqueceu consideravelmente a atenção norte-americana para seu antigo quintal do sul, e isso preparou o terreno para um desenvolvimento autônomo da América Latina, que antes teria sido impensável.

É verdade que antes que Mikhail Gorbachev suicidasse seu país a capacidade de envolvimento que Moscou possuiria na região, assim como as ambições internacionalistas de Havana, haviam perdido quase toda a fé em si mesmas, mas só a destruição do marxismo-leninismo poderia pôr um ponto final no que fora a grande preocupação dos EUA. O fim do império soviético permite hoje igualmente que sua sucessora, a Rússia, se relacione com a América Latina de forma que só pode preocupar a direita mais incorrupta. O compacto Putin-Medvedev vende aviões e Kalashnikovs para Hugo Chávez e adquire direitos de aguada nos portos venezuelanos, mas isso não altera a equação fundamental. Todos podem se abastecer no supermercado russo, e só uma eventual colaboração nuclear entre os dois países - que hoje ninguém imagina - ressuscitaria o espectro da aliança Moscou-Havana.

Com os EUA de férias, incapazes de se impor a um antigo e diminuto cliente como Honduras, e a URSS extinta, o baralho é cortado de novo na América Latina. E, paralelamente, nos últimos anos, fenômenos emergentes de signos diversos afetam o mundo ibero-americano. A China desembarca como um colosso econômico no continente; o Brasil, recentemente obsequiado com os Jogos Olímpicos do Rio, apresenta sua candidatura à direção branda do continente, do qual pretende que fale com voz senão dirigida, pelo menos unificada; e a Venezuela, mesmo aspirando a uma construção parecida, levanta uma proposta política de esquerda que se diz radical, com a qual opta a algum tipo de hegemonia ideológica sobre o concerto de nações latino-americano.

Como disse Enrique Iglesias na semana passada no Fórum Europa, este pode ser o momento da América Latina, quando desapareceu ou mudou de natureza a ação das superpotências, atuais ou passadas, em seu meio; quando o continente de fala espanhola ou portuguesa aparece como uma grande oportunidade econômica para o investimento internacional; como um conjunto de países que se falasse com uma só voz poderia se gabar de possuir mais de um terço do PIB dos EUA, 40% da água potável do mundo, a maior concentração de biodiversidade do planeta, uma capacidade de gestão macroeconômica da crise que não possuía no início dos anos 1990 e, sobretudo, uma série de multinacionais latinas - brasileiras, argentinas, mexicanas - além das espanholas, que podem ser os agentes desse desembarque do mundo na América Latina e da América Latina no mundo. Mas tudo isso só é possível se forem limadas as diferenças políticas internas, que surgem em grande medida graças à desatenção dos antigos patrões.

As instituições para tudo isso foram criadas antes e depois desse período de "férias": o Mercosul, que debate o ingresso da Venezuela; a CAN e a CAF andinas; a Alba, organização chavista que agrupa um sentimento nacionalista pan-latino-americano com o qual sempre se deve contar; o Conselho Sul-americano de Defesa, que deveria tornar desnecessário o vozerio bélico venezuelano ou o recurso colombiano a forças armadas estrangeiras, ou a aposentadoria de forças insurgentes na fronteira entre vizinhos, e o projeto de fundo brasileiro, um organismo que agruparia a América não-anglo-saxã para matar de inanição a OEA, dominada pelos EUA. E, com todas elas, a própria organização das cúpulas ibero-americanas, que, como dizia seu secretário-geral, Enrique Iglesias, seria o mecanismo ideal para a participação espanhola nesse novo campo de jogo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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