UOL Notícias Internacional
 

19/11/2009

Seca arrasa região central da Argentina

El País
Soledad Gallego-Díaz
Em Buenos Aires (Argentina)
O povoado chama-se Salsipuedes, está a 36 km de Córdoba, no coração geográfico da Argentina, e sempre intrigou os viajantes por seu nome insólito e as diversas lendas que correm sobre sua origem. Até há pouco tempo tinha um rio e até uma cachoeira chamada Salto de la Estancita. Hoje é um lugar no qual se briga a socos pela água e no qual os detidos por tentar assaltar os caminhões-tanque devem ser libertados porque a prisão não tem água nem para lhes dar de beber. A seca está fazendo estragos na província de Córdoba, onde não chove há quase um ano. Para ser mais exatos, onde caíram só 255 mililitros, menos que os 320 que marcaram a grande seca de 1950.

No corredor das chamadas Sierras Chicas (Serras Pequenas), a falta de água é angustiante. Mais de mil famílias devem ser abastecidas por caminhões-tanque, mas só há dois deles e demoram mais de nove dias para percorrer todas as casas. Tempo demais para renovar as reservas de água, por isso agora a municipalidade pensa em instalar depósitos em pontos fixos, protegidos pela polícia, e que os cidadãos vão retirar a água por seus próprios meios.

O intendente Sergio Cornejo não oculta seu medo: "É uma situação crítica. Temos 13 poços: um está seco, sete estão em estado crítico e os cinco restantes dão menos de 50% que o habitual". Segundo explica em seu site na Internet, os incidentes em torno dos caminhões-tanque foram apenas verbais, mas a polícia vai vigiar os depósitos para evitar que "as coisas piorem, na medida em que a escassez se intensifique".

Córdoba não é a única: a falta de chuvas está afetando toda a região central do país, especialmente as áreas vizinhas ao sul de Córdoba, como as províncias de San Luis e La Pampa.

Mas é em Córdoba que a falta de água, inclusive para beber, começa a ser um drama. A região inteira apresenta uma cor parda, queimada e empoeirada, e o pó que o vento levanta incomoda até na capital. Em muitas das propriedades agropecuárias da província se dão por perdidos os bezerros mortos de sede ou de fome, diante da impossibilidade de as vacas pastarem ou receberem forragem e água suficientes.

Dois milhões de hectares estão em emergência, mas sobretudo centenas de pequenas propriedades agrícolas no nordeste com menos de cem cabeças de gado, que poderão ficar na miséria. Famílias inteiras que poderiam engrossar os bairros que cercam a cidade e nos quais a miséria já é palpável.

A produção de trigo, que foi recorde em 2007-2008, cairá este ano 91,5% e será preciso importar grãos para cobrir as necessidades da província. É verdade que a produção de trigo caiu sobretudo porque a área semeada diminuiu 75%, em favor da soja transgênica, mas também que a seca acabou com o pouco que restava. O que assombra é a violência e a rapidez do processo: em poucos meses se passou de uma das maiores colheitas da história para praticamente nada.

Também é chamativo que em Córdoba capital e em muitas localidades da província as autoridades ainda não tenham aprovado medidas restritivas nem cortes programados. É como se ninguém pudesse crer que não vai chover antes do fim do ano. "Não choveu em setembro, nem em outubro, nem em novembro, mas isso é porque as chuvas estão atrasadas. Chegarão daqui a alguns dias", afirma o coordenador da Federação Empresarial Hoteleira, Alejandro Morini.

Eles têm certeza de que a água cairá com força dessas nuvens que se formam todas as tardes no horizonte, "mas a verdade é que todas as tardes as vemos, todas as tardes pensamos que vai chover e todas as tardes as nuvens passam sem deixar uma única gota de água", preocupa-se o reitor da Universidade Católica. O padre Velasco afirma que hoje todo mundo está preocupado com a água porque falta nas grandes cidades, mas ninguém prestou atenção quando faltou nas pequenas localidades do interior. "A desertificação, que tem a ver com a seca, foi sendo gestada junto com o processo de 'sojização', o arrasamento de terras que foi acompanhado do desalojamento de habitantes muito pobres, com enganos e muitas vezes com violência", denuncia o jesuíta em "La Voz del Interior".

"Os rios voltarão a ter seu caudal. Os turistas devem ficar tranquilos e seguros de que quando chegar o momento todos os circuitos turísticos da região os receberão com água em seus rios e em todas as suas instalações e serviços", promete o hoteleiro Morini.

A serra de Córdoba atrai uma considerável quantidade de turismo interno argentino e os empresários se tranquilizam uns aos outros. Choverá esta semana mesmo, animam-se por telefone. Porque se não fosse assim não haveria mais reservas e a situação seria realmente perigosa.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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