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20/11/2009

Elites dão as costas para a mulher europeia

El País
Cristina Galindo, em Madri
Ricardo M. de Rituerto, em Bruxelas
Algumas das mulheres mais poderosas da Europa estão em pé de guerra devido à escassez de candidatas para ocupar os dois cargos mais altos da União Europeia. Só quatro dos 21 países que comunicaram até agora o nome de seu aspirante para integrar a futura Comissão Europeia escolheram uma mulher. A falta generalizada de candidatas indignou um grupo de eurodeputadas (e deputados) - ameaçam bloquear o futuro Executivo que deve nascer com o Tratado de Lisboa - e pôs em evidência que a teoricamente exemplar União não é tão igualitária como afirma ser.

A discriminação histórica da mulher dos âmbitos de decisão política está se impondo diante de qualquer declaração de princípios, incluindo a do Tratado de Lisboa, que vai entrar em vigor em breve. "As instituições reclamam por um lado a igualdade de oportunidades, mas quando se chega a um certo nível o número de mulheres diminui", diz Juana Lahousse-Juárez, que acaba de ser nomeada diretora geral de Comunicação do Parlamento Europeu. "Há muito receio por parte dos políticos que assumem os comandos; continuam existindo preconceitos em torno da mulher", afirma Lahousse-Juárez, que atualmente é a funcionária espanhola de maior nível no governo comunitário.

Quem esconde as mulheres na Europa? O poder está nas mãos dos homens, e eles o dividem, afirmam as especialistas consultadas. "Há poucas candidatas para os altos cargos da UE, porque também há discriminação nas elites; é uma situação herdada do passado, de cada um dos países", afirma a filósofa Amelia Valcárcel. A discriminação já é um problema nos cargos de comando intermediários. Estes são uma barreira para muitas mulheres, que portanto chegam com dificuldade à cúpula, tanto na política como na empresa. "As mulheres da UE não estão escondidas, mas estão sendo ocultadas", sentencia.

Um bom indicativo é o fato de que na longa vida da UE foram aprovadas diretrizes para quase tudo, mas não há uma que garanta a igualdade entre homens e mulheres - estas representam 53% da população europeia - nos âmbitos de tomada de decisões. "É lamentável: não pode haver uma democracia europeia moderna sem igualdade de gêneros. Na UE temos mulheres muito capacitadas e há onde se escolher, mas às vezes dá a sensação de que nenhum currículo é suficiente", afirma a ministra da Igualdade da Espanha, Bibiana Aído, em entrevista por telefone. "Tudo isso é uma clara amostra de que as cotas são necessárias", acrescenta.

Só cinco países da UE regulamentaram por lei as cotas. Um deles é a Espanha. Os demais se limitam a dar liberdade aos partidos para que garantam um lugar mínimo para as mulheres em suas chapas eleitorais. Em alguns países, nem isso.

Cada vez mais vozes pedem que Bruxelas passe das palavras aos atos e tome medidas semelhantes. "Já tivemos bastante com 50 anos de cinza e azul", afirma Pilar López-Díaz, professora especializada em comunicação e gênero, referindo-se aos ternos masculinos que predominam em Bruxelas. "Os homens estão há séculos aplicando suas regras de discriminação positiva, que só beneficiam a eles; eles se elegem entre si, retribuem-se os favores", acrescenta López-Díaz, defensora das cotas. "As mulheres que chegam ao topo são muito boas; muitas têm mais formação do que é necessário, e nem assim são apoiadas", acrescenta Valcárcel, que defende a necessidade de se criar uma diretriz que promova uma igualdade real.

Apesar dos grandes avanços registrados nos últimos anos, a posição da mulher no âmbito político da UE ainda é reduzida. Tanto o presidente da Comissão Europeia como o do Parlamento são homens. E tudo indica que os outros dois altos cargos (presidente do Conselho e alto representante) acabarão sendo ocupados por homens. "Que fracasso que entre esses quatro cargos, quatro, não haja uma só mulher", destaca Pilar López-Díaz.

Para alguns, a política de cotas é imperfeita porque nem sempre garante que 50% dos eleitos em um partido sejam mulheres (às vezes são relegadas para os últimos lugares das listas, com poucas opções de ganhar). Para outros, é simplesmente uma perversão. "As mulheres devem ser apoiadas de outra maneira, com medidas para que possam conciliar a vida familiar e profissional, porque as cotas sempre são questionadas, mesmo que sejam pessoas muito válidas para o cargo", opina a escritora Ángela Vallvey.

A figura feminina mais visível na União é Angela Merkel: a única chefe de governo europeia também dirige a maior potência econômica do Velho Continente. E, curiosamente, é a principal opositora à nomeação da ex-presidente da Letônia Varia Vike-Freiberga, porque, segundo Merkel, falta-lhe experiência executiva. Em declarações ao jornal "The Times", Vike-Freiberga denunciou na quarta-feira o machismo dos líderes europeus que dizem que "não há mulheres qualificadas" para um cargo como o de presidente da UE. Enquanto isso, só três países têm presidentes mulheres (não executivas): Finlândia, Irlanda e Lituânia.

Na Comissão a situação está pior. Neste momento só quatro países (Bulgária, Irlanda, Luxemburgo e Suécia) apresentaram candidatas ao Executivo comunitário, e outros quatro (Chipre, Dinamarca, Grécia e Reino Unido) ainda precisam decidir. A Comissão de saída conta com oito mulheres entre os 27 comissários. Na eleição dos comissários há um problema: cada país só pode escolher um aspirante, e com isso é difícil que seja mulher. Os especialistas consideram que seria muito melhor escolher entre dois candidatos: um de cada sexo. Outro problema é que são os chefes de Estado ou de governo que elegem os candidatos, e em sua grande maioria são homens.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, comentou em particular seu incômodo crescente por ter de presidir "um governo à saudita". "Pois que se espante, porque está entre a espada e a parede", dizia na quarta-feira em tom profeticamente ameaçador Isabelle Durant, eurodeputada verde belga. "Não dizia que seria um presidente forte? Pois que o demonstre e peça aos outros chefes de governo que lhe apresentem um homem e uma mulher igualmente qualificados entre os quais escolher o comissário correspondente."

Isabelle Durant participou na quarta-feira de um protesto simbólico diante da sede do Conselho Europeu em Bruxelas (escritórios dos 27 na capital europeia), onde cerca de 20 mulheres de diversos grupos políticos do Parlamento Europeu se posicionaram, mostrando seus currículos e exigindo um emprego. Vestidas de terno e gravata, algumas com bigodes pintados, e Durant coberta com um chapéu, todas defendiam a tese de que "os homens só pensam nos homens para ocupar cargos". "E há mulheres muito qualificadas em todos os países", insistia Durant. "O que Barroso e os governos têm de fazer é preocupar-se com o assunto e procurá-las." "O ideal seria que houvesse 50% de mulheres na Comissão, mas pedimos um mínimo de um terço."

"Os cargos de maior poder, os homens sempre tentam conseguir", opina Teresa Jiménez Becerril, eurodeputada do PP e membro da Comissão da Mulher no Parlamento Europeu. "Nem eu nem meu partido somos partidários das cotas", explica. "Mas o que me parece incrível é que se reduza o número de mulheres que já são comissárias; deveria aumentar, e não baixar."

A francesa Michèle Rivasi acredita que duas razões explicam a ausência na cena pública: "A política foi até hoje um jogo de homens, e é difícil mudar os costumes". Rivasi crê que as mudanças chegarão por via legislativa, "por isso são necessárias as cotas, que bem aplicadas deveriam criar um viveiro de mulheres políticas". "Os homens decidem quem é competente e creem que não o somos", afirma a eurodeputada finlandesa Anneli Tuulikki Jäätteenmäki. Ela cita sua compatriota, a presidente Tarja Halonen, como mulher à altura dos desafios da UE e também a ex-presidente leta Vaira Vike-Freiberga. Acha difícil encontrar mulheres para o cargo de alto representante.

Na questão dos nomes também tropeça Emilie Turunen, uma dinamarquesa de 25 anos. Mas indica que se procurem nomes de políticas no endereço genderbalancedcommission.eu. Pintada com bigodes barrocos, Turunen atribui a rala paisagem política feminina a "um problema estrutural: entram pouco a pouco, mas nas posições de cima há homens de 55 anos que dividem os cargos entre sua geração". Segundo ela, "os homens pensam na força em termos quase físicos, enquanto ser forte é ser inteligente, capaz, estar disposto ao compromisso".

Concorda com ela Amelia Andersdotter, 22 anos, que em 2010 será eurodeputada pelo Partido Pirata (defende a liberdade na Internet): "A Europa é muito conservadora, e isso dificulta que as mulheres tenham famílias e carreiras ao mesmo tempo". Ela também considera que a sociedade ainda está muito segregada socialmente - "as meninas continuam brincando com as meninas" - e isso impede a igualdade. E conclui: "Afinal, vivemos em um mundo de homens".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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