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20/11/2009

Obama e Hu, uma dupla estranha

El País
Carlos Mendo
Desde que Shakespeare escreveu em "A Tempestade" que "a miséria familiariza o homem com estranhos companheiros de cama", a frase foi utilizada no mundo anglo-saxão como paradigma de pragmatismo político, como exemplo de que inclusive inimigos políticos sempre têm algo em comum que podem aproveitar em benefício mútuo. "Politics make strange bedfellows" (a política faz estranhos companheiros de cama), se diz hoje. E poucas vezes o aforismo é tão real quando aplicado ao líder do mundo livre, Barack Obama, e a seu anfitrião em Pequim, Hu Jintao, presidente da ditadura capitalista-leninista chinesa. Os dois nada têm em comum, nem pessoal nem politicamente. Representam dois sistemas diametralmente opostos, a democracia e a ditadura. Mas em um mundo globalizado ambos se necessitam.

Obama sabe que sem a anuência chinesa seus planos para impedir a nuclearização da Coreia do Norte e do Irã são inviáveis devido ao veto de Pequim no Conselho de Segurança. Que nunca conseguirá que o Congresso de Washington aprove seus ambiciosos planos sobre a mudança climática, um dos projetos principais de seu programa, se a China não subir no mesmo carro. Que para estabilizar a situação na frente afegã-paquistanesa precisa da pressão de Pequim sobre Islamabad para que o Paquistão aumente seu esforço militar contra os taleban. E assim, um longo etcetera. Sem contar com o pequeno detalhe de que a China superou o Japão e se transformou este ano no primeiro credor dos EUA, com US$ 800 bilhões de dívida americana em seus cofres.
  • Ng Han Guan/AP

    Encontro O presidente dos EUA, Barack Obama (à esquerda), cumprimenta o presidente da China, Hu Jintao, após uma coletiva de imprensa no Grande Salão do Povo, em Pequim

A China, por sua vez, precisa dos EUA para continuar colocando seus produtos no mercado americano, seu maior cliente; para proteger essa dívida que, em caso de incerteza, representaria uma sangria em suas reservas em dólares e sobretudo para se garantir como potência mundial com o apoio e em um plano de igualdade com a até agora única superpotência, cujo presidente já expressou seu desejo de transformar a relação sino-americana em "uma associação estratégica".

Em 1905, um grande presidente americano, Theodore Roosevelt, escreveu: "Nossa história futura será mais condicionada por nossa posição no Pacífico, diante da China, do que por nossa posição no Atlântico, diante da Europa". É o que Barack Obama parece ter entendido com seu novo enfoque para a Ásia em geral e a China em particular, e salientado em sua recente viagem asiática. Sem esquecer que o atual ocupante da Casa Branca sempre ressaltou os laços que o ligam à Ásia, produto de sua estada juvenil na Indonésia.

Desde a histórica viagem de Richard Nixon a Pequim em 1972, que restabeleceu uma relação rompida após o triunfo comunista na China continental em 1949, quase todos os presidentes americanos, conscientes da importância crescente da República Popular, visitaram o país, mais recentemente Reagan, Bush pai - que foi o primeiro embaixador americano em Pequim depois do restabelecimento de relações -, Bill Clinton e Bush filho. Todas as visitas, muito cordiais à primeira vista, deixaram nas duas partes um sabor agridoce. Nenhum confiava no outro. A contínua repressão chinesa ao Tibete, a matança de estudantes 20 anos atrás na Praça Tiananmen, a mobilização de mísseis no estreito de Taiwan, o assédio e a detenção dos defensores dos direitos civis e a falta de liberdade religiosa foram os obstáculos que impediram uma relação fluida entre os dois países.

Como em tantos outros temas, Obama quis estabelecer em sua viagem novos parâmetros nas relações sino-americanas. Mas a máxima evangélica de "peça e receberá" não parece ter tido muito êxito por enquanto. Foi o que proclamou o jornal "The New York Times" em sua primeira página na quarta-feira. "Poucos sucessos para Obama na China", foi o título do jornal liberal de Nova York. Porque a realidade é que, fora as fotos oficiais da visita, Obama não conseguiu se reunir com nenhum dissidente, nem sua intervenção diante dos estudantes na Universidade de Xangai, todos membros das juventudes comunistas, foi transmitida pela televisão estatal chinesa, a única existente no país, como ocorreu com visitas anteriores de Clinton e Bush júnior.

Nem no comparecimento conjunto com Hu diante da mídia foram admitidas perguntas dos jornalistas aos dois presidentes. Obama nem sequer conseguiu o apoio chinês para possíveis futuras sanções ao Irã, caso este país siga adiante com seu programa nuclear, como crê a organização para energia atômica da ONU. Obama precisa manter um difícil equilíbrio: conseguir uma aproximação da China que não irrite seus aliados asiáticos, cada vez mais preocupados com o exorbitante rearmamento chinês.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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