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20/11/2009

Por que a visita de Obama inquietou a cúpula comunista da China?

El País
Lluís Bassets
El País
Não é uma piada. Mao Tse-tung é um símbolo duplo. Do velho, o comunismo embalsamado em Tiananmen, e do novo, a cultura pop que acompanha o capitalismo e a sociedade de consumo. Fundido com a imagem de Obama, adquire um significado novo e inquietante para as mentalidades estreitas, alérgicas à ironia, que governam o Império do Centro. Daí a retirada das camisetas e cartazes com essa imagem durante a visita de Barack Obama a Xangai e Pequim. Por via das dúvidas. Para evitar que umas fagulhas descontroladas pudessem se acender em uma sociedade em plena efervescência.

A personalidade de Obama, vista da China, não tem nada a ver com os presidentes anteriores que visitaram Pequim desde que Nixon abriu a porta em sua entrevista com Mao em 1972. Para começar, só Obama é um ícone pop como são Mao ou Che Guevara. Para maior perigo, é o presidente mais asiático da história da Casa Branca. O mais próximo, portanto. Nascido e criado na região do Pacífico, entre o Havaí, onde nasceu, e a Indonésia, onde passou a infância, com uma irmã indonésia e um cunhado sino-canadense. Mas sua eloquência e seu gestual são o contrário da rigidez chinesa exibida pelos senhores do Kremlin chinês que é Zhongnanhai (que significa Dois Lagos). E sua imagem pessoal e familiar está nas antípodas dos burocratas frios e opacos com os quais se reuniu nestes dias.
  • Ng Han Guan/AP

    Encontro O presidente dos EUA, Barack Obama (à esquerda), cumprimenta o presidente da China, Hu Jintao, após uma coletiva de imprensa no Grande Salão do Povo, em Pequim

Os chineses se perguntam sobre Obama. Não sabem se é a cara amável e momentânea de uns EUA debilitados pelos disparates de Bush e pela crise econômica, ou o novo rosto de uma superpotência adaptada a um mundo mais equilibrado e multipolar. O poder comunista de Pequim sempre preferiu os republicanos aos democratas. Foi o que disse o próprio Mao a Nixon: "Eu votei no senhor nas eleições". Ninguém teve melhor entrada em Pequim, depois de Nixon, que os Bush, pai e filho. Só com Bill Clinton, em sua viagem de 1998, os mandarins do regime soltaram a mão e permitiram uma entrevista coletiva em condições de liberdade, na qual Jiang Zemin, o líder da época, conversou amistosamente com o presidente americano sobre os temas mais comprometedores, entre eles os direitos humanos. Agora, com Obama, regressou a frieza com que o esquerdista Mao tratava os esquerdistas.

A China se manifestou como um parceiro difícil e um amigo relutante, a ponto de que Obama voltará a Washington praticamente de mãos vazias. Não é novidade. Está na linha de sua presidência, esmaltada por magníficos discursos, inspirados e de grande capacidade transformadora, e articulada sobre grandes mudanças de rumo estratégico, tanto na organização da sociedade americana (sistema de saúde, intervenção do Estado na economia, mudança para a economia verde...), como na ação internacional (novo começo com a Rússia, desarmamento nuclear, incorporação da China ao G-20 e de fato ao G-2 que tão bem encarna esta viagem...). Todas essas coisas estão muito bem, mas apresentam uma dificuldade que, se persistir, terá consequências eleitorais: ainda não deu frutos concretos.

Esses dias chineses de Obama expressam perfeitamente a ambivalência: o eixo do mundo está claramente no Pacífico. Os EUA nada podem fazer sem a China e nada se pode fazer no mundo sem a dupla formada por EUA e China. Os dois se necessitam, apesar da frieza e da distância. É assim quando se trata de acordar cifras de redução de emissões na atmosfera, estimular a economia mundial ou frear a proliferação nuclear. Inclusive quando se trata de administrar razoavelmente os imbróglios do Afeganistão, Irã e Iraque, três países do continente asiático. São as interdependências sobre as quais se constroem as novas relações internacionais, nas quais cada um dos grandes atores é necessário, mas nenhum deles, nem mesmo dois deles juntos, são suficientes para pôr em movimento a bola do mundo.

Mas essa ambivalência também se expressa em "Obamao", a síntese iconográfica da dialética maoísta que opõe, como tese e antítese, dois ícones pop - o Grande Timoneiro que fundou a República Popular da China e o primeiro presidente negro, que quer transformar novamente os EUA no líder mundial por sua autoridade moral e sua capacidade de diálogo multilateral. A explicação mais simples da censura a essa imagem é que nada produz mais irritação nos pavilhões dos Dois Lagos do que a irreverência.

Mas a técnica da suspeita leva a escavar algo mais: obrigados a suportar Mao embalsamado e a utilizá-lo como escudo de sua intransigência, temem o impacto de Obamao em uma juventude ansiosa por uma liberdade até agora seqüestrada. O desenhista do novo ícone, que representa Obama como um guarda vermelho, fez com as imagens o mesmo que os jovens chineses fizeram em 1989 com Tiananmen - ocupar o grande espaço simbólico do culto maoísta.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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