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21/11/2009

Economista revela segredos sobre os altos preços da arte

El País
Isabel Lafont
Em Madri
Como um tubarão dissecado, suspenso em um tanque de formol, pode chegar a valer US$ 12 milhões [€ 8 milhões]? Que mecanismos regem a oferta e a demanda no mercado de arte? O economista americano Donald N. Thompson acompanhou durante um ano os meandros do mercado de arte contemporânea e passou muitas horas entre galeristas, casas de leilões, artistas e colecionadores. O resultado de sua pesquisa é o livro "El Tiburón de 12 Millones de Dólares" [O tubarão de US$ 12 milhões], que é lançado agora na Espanha, e cujo subtítulo, "A curiosa economia da arte contemporânea e dos leilões", já antecipa ao leitor que certamente não encontrará ali as leis clássicas do mercado.

O famoso tubarão-tigre de Damien Hirst, obra intitulada "A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo", que o colecionador Charles Saatchi vendeu ao financista americano Steve Cohen em 2005 pela cifra citada (Saatchi o havia adquirido em 1992 por 50 mil libras, ou cerca de € 56 mil) através do galerista Larry Gagosian, é a alegoria perfeita que serve para Thompson mergulhar na antiga distinção entre valor e preço.
  • Miro Kuzmanovic/ Reuters - 15.mai.2007

    Mulher observa a obra "A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo"


"Como economista e colecionador de arte contemporânea, faz tempo que me sinto perplexo pela questão do que torna uma obra de arte valiosa e por meio de que alquimia se considera que vale US$ 12 ou US$ 100 milhões, em vez de, por exemplo, US$ 250 mil", declara no início do livro.

Segundo Thompson, assim como a Coca-Cola ou a Nike, há artistas, galeristas e casas de leilões que adquiriram um valor como marcas. "Um Mercedes oferece segurança e prestígio. Prada oferece a segurança da elegância e moda atual. A arte de marca funciona do mesmo modo. Os amigos não poderão acreditar quando você disser: 'Paguei 5,6 milhões por esta estátua de cerâmica'. Mas ninguém demonstra desdém quando se diz: 'Comprei na Sotheby's', 'Encontrei na Gagosian', ou 'Este é meu novo Jeff Koons'."

Sotheby's e Christie's entre as casas de leilões; MoMA, Guggenheim ou Tate entre os museus - "uma obra que tenha sido exposta em alguma ocasião no MoMA ou que tenha feito parte de uma coleção do mesmo exige um preço superior devido a sua procedência"; Gagosian ou Jay Joplin, fundador da londrina White Cube entre os galeristas; e artistas como os citados Hirst, Koons ou Andy Warhol são, segundo a tese de Thompson, engrenagens de um maquinário que, "com um marketing bem dirigido e uma marca de sucesso", gera preços inexplicáveis pela lógica para tubarões dissecados ou bolas de basquete em um aquário (no caso de Jeff Koons).

Por trás disso há fatores psicológicos e sociais. Muitos compradores de arte contemporânea nem sempre são especialistas ou entendidos. Simplesmente são muito ricos (em muitos casos novos ricos, como os milionários russos e chineses surgidos nos últimos anos), afirma o economista, e precisam ter a segurança de que estão fazendo uma boa compra. Por isso confiam nas marcas conhecidas.

Ao público que frequenta essa feira das vaidades é dirigido o peculiar mote dos galeristas segundo o qual "vanguardista significa radical, desafiador significa que não se deve tentar compreendê-lo e qualidade de museu significa que, se você precisa perguntar, é porque não pode pagar".

O galerista de marca não é um fenômeno novo. Joplin foi para Hirst o que Ambroise Vollard foi em Paris para Picasso, Cézanne e Gauguin ou, em meados do século 20, Leo Castelli em Nova York foi para Jasper Johns, Robert Rauschenberg ou Cy Twombly. A relação entre um galerista de marca e seus clientes costuma alcançar um grau de confiança cega: "Os colecionadores confiam em seu marchand do mesmo modo que confiam em seu assessor de investimentos. É a ideia de comprar arte mais com os ouvidos do que com os olhos, de comprar o esperado valor futuro do artista", salienta o economista.

Há mais palavras que soam como música aos ouvidos dos clientes das galerias ou casas de leilões, como "Está na coleção de Saatchi" ou "Saatchi quer essa peça". Se uma obra de arte agrada a um dos colecionadores mais conhecidos do mundo, como um VIP que se preze não vai querê-la em sua casa? Não importa que respeitabilíssimos críticos de arte como Robert Hughes qualifiquem a obra de Hirst uma "mercadoria absurda e vulgar" ou que afirmem que Koons "provavelmente não seria capaz de escrever suas iniciais em uma árvore". Afinal, como indicou a Thompson Brett Gorvy, diretor do departamento de arte contemporânea da Christie's, "isto é um negócio, e não história da arte".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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