UOL Notícias Internacional
 

23/11/2009

"Virei pirata ao ver o dinheiro que eles tinham"

El País
Natalia Junqueira
Em Madri (Espanha)
"Juntei-me aos piratas em 2005. Eu havia combatido na guerra civil e sabia usar armas e lutar. Isso facilitou minha entrada no grupo pirata. Uni-me a eles porque costumavam alugar meu carro e pude ver a grande quantidade de dinheiro que eles tinham. Participei em quatro ataques a barcos. Fracassamos em três e tivemos sucesso em um. Capturamos um barco gigante cheio de mercadorias, durante quatro meses. Pagaram um resgate e nós o dividimos. Foi no começo de 2006. Usei esse dinheiro da melhor maneira para minha família e meus parentes, e estou feliz de tê-lo feito. Deram-me US$ 70 mil [R$ 120 mil]."

O testemunho é de um pirata somali da região de Hobyo, entrevistado para um extensivo informe financiado pelo Ministério de Defesa norueguês, intitulado Pirataria no Golfo de Aden: mitos, erros e soluções. Talvez o mito mais conhecido seja o de que a pirataria começou como resposta à expropriação que os barcos do mundo rico faziam das águas de um dos países mais pobres do mundo. Na realidade, o primeiro navio sequestrado por somalis, em 1994, chamava-se Bonsella e não era um pesqueiro, mas sim um navio de carga que transportava ajuda humanitária para a Somália. Os piratas o utilizaram para tentar capturar outros barcos, também de carga. Fracassaram e o Bonsella foi liberado, depois que os sequestradores roubaram a ajuda humanitária e todos os objetos de valor da tripulação.

A força naval europeia que luta contra a pirataria no Índico (Eunavfor) alertou esta semana sobre o ataque pirata cometido à maior distância das águas da Somália: a mil milhas marítimas a leste de Mogadício. A maioria das 11 embarcações que agora estão sequestradas são navios de carga, e não pesqueiros. Os piratas, como confessou o pirata citado, escolhem suas presas pelo dinheiro.

"Sabemos o que é cada barco. Se tem radares grandes, é um barco militar e nos afastamos. Se é um barco pequeno, não o queremos, é inútil. Mas se o barco é grande, disparamos algumas balas e esperamos para ver se respondem ao fogo. Depois, voltamos a disparar. São mais lentos e nós temos lanchas rápidas. Um homem sobe primeiro e nos passa informação. Depois, todos abordamos o barco", relata um pirata com o apelido de Red Beard (Barba Vermelha).

Eles buscam barcos grandes e, preferencialmente, europeus. "Sua tripulação é mais valiosa, em parte, porque são países com governos sujeitos à pressão política", explica Stephen Askins, ex-fuzileiro naval dos EUA e hoje advogado do escritório britânico Ince&Co. Sua empresa, que negocia e organiza o pagamento dos resgates, recebe quantias milionárias todo ano. Às vezes, mais do que os próprios piratas, que já ganharam cerca de US$ 75 milhões (R$ 128,7 milhões) em resgates, segundo calcula o Real Instituto de Estudos Internacionais, também conhecido como Chatman House. "A entrega por paraquedas", explica Askins, "custa cerca de US$ 300 mil".

Os piratas não têm pressa. Podem esperar por sua presa durante semanas no alto mar. Os que sequestraram o pesqueiro de atum basco Alakrana em 2 de outubro estavam navegando há 19 dias em busca de uma vítima fácil. Com um pequeno investimento - uma lancha custa entre US$ 1 mil e US$ 2 mil (R$ 1,7 mil e R$ 3,4 mil), e às vezes os próprios somalis pagam para participar de um ataque, como investimento -, podem conseguir um resgate de cerca de US$ 2 milhões e US$ 3 milhões (R$ 3,4 milhões e R$ 5,1 milhões). Os preços são diretamente proporcionais ao tempo de duração do sequestro. O nervosismo aumenta a pressão e a quantia que um armador ou um governo estão dispostos a pagar para solucionar a crise. Por isso, cada vez mais os piratas levam mais tempo. O Win Far está detido desde abril.

Segundo o mediador Andrew Mwangura, os piratas calculam o resgate em função do tipo e da idade do barco (que consultam pela internet), da carga, do número e nacionalidade dos tripulantes. Por isso, afirma que o preço final do Alakrana será "muito maior" do que o do Playa de Bakio (700 mil euros - R$ 1,8 milhão).

Os chefes ficam com 20%. Outros 20% são reinvestidos em futuros ataques (em armas e combustível, por exemplo); os piratas dividem cerca de 30% dos lucros e o 30% restante é para subornos, segundo a Chatman House. Todos os piratas entrevistados para o estudo financiado pelo governo norueguês haviam comprado uma casa e um carro. Outros utilizaram sua parte para abandonar a Somália rumo aos EUA, Europa Ocidental, Canadá, Dubai ou Quênia. Neste último país, os investigadores localizaram um hotel comprado por piratas.

É muito difícil seguir o rastro do dinheiro. Ele se dispersa muito rápido. O Real Instituto de Estudos Internacionais explica que o método de transferência ao estrangeiro usado normalmente é a "hawallah", um sistema tradicional pelo qual o dinheiro de fato não sai do país, só muda seu título de propriedade para que outro possa sacá-lo no estrangeiro. Dubai é um dos destinos favoritos.

Eles não movimentam tanto dinheiro como os traficantes de drogas, mas a equação risco-benefício é muito mais vantajosa. Cerca de 50% a 60% dos piratas capturados por militares saíram em liberdade, segundo a Chatman House. Os Estados que os levaram aos tribunais, como a Espanha, são uma exceção.

"Se o governo espanhol os tivesse levado ao Quênia, o capitão poderia ter dito que estava fora de suas mãos, mas esse momento parece que já passou", afirma Askins. "Os piratas exploram o efeito da pressão e continuam pressionando. O governo espanhol tem o estômago político para resistir? Veremos".

Para a Chatman House "não é sensato esperar que lugares como o Quênia, Tanzânia ou Seychelles assumirão a responsabilidade de processá-los". Em seu informe, a organização cita algumas declarações do fiscal geral do Quênia, dadas em setembro passado, nas quais ele afrima que o acordo com a UE pode ter data de validade: "Se a comunidade internacional não aumentar sua ajuda, então mais cedo ou mais tarde o Quênia pode dizer que já foi suficiente". As prisões quenianas estão abarrotadas. A União Europeia iniciou a segunda fase de sua luta contra a pirataria: o trabalho em terra. Por isso apoia agora ao governo de transição somali, cujo mandato termina em agosto de 2011, e espera que até lá tenha instaurado algumas instituições democráticas. Enquanto isso, os piratas ficam mais fortes, resgate após resgate. "O grupo que sequestrou o Alakrana é o mesmo que capturou o Faina e o Sirius Star no ano passado", conta Askins, que afirma ter oferecido ao armador, sem sucesso, seu contato somali. "O que", segundo ele, "não é a mesma coisa que estar unido aos piratas, como sugeriu a ministra da Defesa espanhola".

Não se trata apenas do dinheiro. "Quando você captura um barco, as pessoas o recebem como se você fosse um presidente", explicou o pirata Mohamed, em Nairobi. "Elas o respeitam, até rezam por você."

Tradução: Eloise De Vylder

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