UOL Notícias Internacional
 

24/11/2009

Caracas-Damasco-Teerã, um voo muito misterioso

El País
Maye Primera Em Caracas (Venezuela)
Um Airbus da empresa venezuelana Conviasa liga as capitais duas vezes por mês. O avião nunca viaja cheio, é caríssimo e não tem controles

O Airbus 340 da companhia aérea venezuelana Conviasa que faz a rota Caracas-Damasco-Teerã decola só dois sábados por mês e com a cabine de passageiros semivazia do Aeroporto Internacional Simón Bolívar. Não há controles. Embora os elos políticos entre os governos do Irã e da Venezuela, que possibilitaram a implantação desse voo direto em março de 2007, andem cada vez melhor, as boas relações não são suficientes para encher essa aeronave de 286 lugares.

As polêmicas de Mahmoud Ahmadinejad

  • AP

    Antes de sua surpreendente vitória nas eleições presidenciais de 2005, Mahmoud Ahmadinejad foi prefeito da capital Teerã.

    Filho de um ferreiro, mudou-se do norte do Irã para a capital com sua família durante a infância; mais tarde, doutorou-se em engenharia civil.

    Durante a corrida eleitoral de quatro anos atrás, Ahmadinejad prometeu dedicar aos pobres o dinheiro que o país consegue com o petróleo, mas durante seu governo o país encontrou graves problemas econômicos, em parte devido a sanções internacionais.

    Ahmadinejad, 52, casado, pai de três filhos, ficou conhecido por seus comentários polêmicos, entre os quais a negação do Holocausto, o desejo de "tirar Israel do mapa" e declarações homofóbicas.

    Ele reivindica o direito de enriquecer urânio no Irã para gerar energia elétrica, um programa que Israel e os Estados Unidos acusam de ter fins bélicos.

    Foi reeleito em 12 de junho deste ano para seu segundo mandato presidencial, com quase 63% dos votos.



"Não costuma viajar com mais de 140 passageiros de cada vez. Na maioria são funcionários públicos venezuelanos, imigrantes sírios e empresários iranianos", explica um ex-tripulante do voo que prefere manter o anonimato. Além disso, em alta temporada como é o mês de dezembro, a passagem custa quase 3 mil euros e nos períodos de menor demanda nunca baixa de 1.500 euros. Esses preços são proibitivos para a maioria dos venezuelanos. Apesar disso, o escritório de reservas da Conviasa afirma que não resta nenhum lugar livre em todos os voos para o resto deste ano.

"Sem dúvida este é um voo com fins políticos, e não econômicos. Desde que começou a operar, a direção comercial da companhia advertiu que geraria prejuízos enormes. Para nós sai caríssimo fazer esta rota, porque o avião é utilizado exclusivamente para ela", explica um alto funcionário da Conviasa.

Cada hora de voo entre Caracas e Teerã custa ao Estado venezuelano entre 9,5 mil e 12 mil euros. Para qualquer outra companhia que pudesse aproveitar esse voo para fazer conexões com outros destinos custaria 6,5 mil euros por hora. Os negócios que supostamente sustentam essa aeronave no ar vão de mal a pior. E depois de dois anos de acumular quilômetros percorridos os governos de Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad deverão decidir em dezembro próximo, antes que vença o convênio assinado em 2007, se existem razões diferentes das econômicas para renovar a aliança entre a Conviasa e a companhia aérea Iran Air que valham a perda de milhares de euros a cada decolagem.

Quando começou a ser executado o convênio, o voo Caracas-Damasco-Teerã partia todos os sábados à tarde do Aeroporto Internacional de Maiquetía e voltava nas terças-feiras de madrugada. Mas há um mês os voos começaram a ser efetuados a cada duas semanas. Inicialmente a Iran Air operou a rota com um avião de sua propriedade durante apenas dois meses; a partir de então começou a ser utilizado o Airbus da Conviasa.

O itinerário tem uma duração total de 16 horas e meia: 14 horas de voo entre Caracas e Damasco e duas horas e meia entre Damasco e Teerã. Além disso, há uma parada técnica entre 20 e 27 horas. Os cálculos mais conservadores indicam que o custo total do voo é de 340 mil euros, que não se amortizam nem de longe com a venda de passagens.

"Da Venezuela à Síria o voo poderia ser rentável, porque lá desembarcam até uma centena de passageiros, na maioria sírios que vivem há muitos anos na Venezuela. Mas entre Damasco e Teerã só viajam entre 40 e 60 pessoas, que não justificam sequer que o avião decole", acrescenta o responsável da companhia aérea venezuelana. A Conviasa é a companhia criada em 2004 para substituir a extinta Viasa (liquidada em 1997) com o objetivo de que a Venezuela voltasse a ter uma linha aérea nacional.

O transporte de mercadorias da Venezuela para o Irã ou vice-versa também não justifica: o acordo assinado pelas duas empresas em 2007 não contempla um "convênio de carga", razão pela qual os maiores pacotes que já foram transportados legalmente nessa rota são as malas diplomáticas.

O trajeto de duas horas e meia entre Damasco e Teerã não só despertou suspeitas da imprensa internacional, que especula sobre transporte de urânio e de componentes militares no voo da Conviasa, como também disparou a preocupação da tripulação da companhia aérea.

No site www.conviasa8k.com, criado pela empresa para exercer o "controle social" e denunciar os "revolucionários infiltrados" no voo, chegaram a aparecer mensagens anônimas cujos autores só se identificavam como comissárias de bordo, pilotos e mecânicos da companhia aérea, que denunciavam, sem oferecer provas, que no trecho Damasco-Teerã se transportava ilegalmente "material radiativo".

O endereço da Internet foi fechado devido a essas mensagens. Agora aparece um cartaz que diz "página transferida" e remete ao site oficial da companhia, onde os internautas são recebidos com o simpático slogan "Conviasa... o prazer de voar".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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