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25/11/2009

Espionagem andina no estilo da Guerra Fria

El País
Jaime Cordero Em Lima Manuel Délano Em Santiago
As feridas da Guerra do Pacífico entre Peru e Chile ainda não cicatrizaram, mesmo depois de 125 anos. Ainda hoje os dois países mantêm uma disputa em Haia pela fronteira marítima como vestígio daquele conflito. Qualquer faísca provoca um incêndio entre as duas nações ul-americanas. A última foi nada menos que uma história de espionagem militar. O caso do suboficial peruano Víctor Ariza, suposto colaborador do serviço secreto chileno, anulou todos os esforços de aproximação da presidente chilena, Michelle Bachelet, de seu vizinho do norte.

A dura reação peruana pelo suposto caso de espionagem foi majoritariamente interpretada no Chile como uma manifestação exagerada de nacionalismo em Lima, que convém sobretudo ao presidente Alan García para promover sua baixa popularidade nas pesquisas e, segundo várias fontes, uma via pela qual os militares peruanos expressaram seu mal-estar pelas recentes compras de armamentos chilenas.

Bachelet, que logo terminará seu mandato com uma popularidade recorde na história chilena - 80% -, pediu tranquilidade a García. Todos os candidatos nas presidenciais de dezembro apoiaram o governo sem fissuras.

O que mais incomodou no Chile foi a desproporção da reação do governo de Lima. O presidente peruano e seu ministro das Relações Exteriores, diante da transcendência do caso na imprensa, se retiraram da recente cúpula do Fórum Ásia-Pacífico - da qual participou Barack Obama -, e García se referiu ao Chile como "republiqueta" e "invejosa" do desenvolvimento do Peru, em um tom que em Santiago foi comparado com as saídas habituais do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

O governo chileno nega a espionagem. Mas na última sexta-feira a revista chilena "Qué Pasa", citando fontes do serviço secreto, deixou entrever que a denúncia peruana pode, pelo menos em parte, ser real.

Ariza foi detido em 30 de outubro enquanto almoçava com amigos em um restaurante de Lima. Um juiz havia emitido uma ordem de captura contra ele por lavagem de dinheiro. A investigação por esse delito foi o que revelou o caso de espionagem, e Ariza acabou acusado também de traição à pátria.

A história das ligações de Ariza com a espionagem chilena remonta a 2002. Ao que parece, o militar foi contatado quando prestava serviço como ajudante de campo adjunto da Força Aérea na Embaixada do Peru, em Santiago. A denúncia peruana contra Ariza afirma que este passava informação para o chileno Daniel Márquez Torralba, que teria sido seu primeiro contato.

Mais tarde, Ariza recebeu uma série de instruções e senhas para codificar suas comunicações. "Infoturistel@yahoo.es" era o endereço do qual o militar peruano enviava seus despachos. A ordem era se reportar pelo menos uma vez por semana, inclusive quando não houvesse informação para entregar. O expediente que o Peru enviou ao Chile inclui cópias das mensagens eletrônicas que Ariza tinha mandado desse endereço. O nome-chave de seu contato era Víctor V. No relatório também consta que Ariza costumava se reunir com seus contatos chilenos na Argentina e no Uruguai "para despistar", como admitiu o próprio suboficial.

Em 2008, Ariza muda de contato. Márquez é substituído por Víctor Vergara Rojas. O militar peruano afirma que seus dois contatos eram ex-membros da Força Aérea chilena, mas o governo de Bachelet o negou. No relatório também há comprovantes de remessas de dinheiro através da Western Union, no total de US$ 135 mil. Segundo a acusação, Ariza recebia pela espionagem US$ 3 mil mensais e pagamentos extras que podiam chegar a US$ 8 mil por determinadas informações.

Embora as suspeitas sobre as atividades secretas de Ariza remontem a 2006, o suboficial continuou ativo na direção de inteligência da aviação militar. Circulam duas teorias a respeito do fato: uma fala em negligência dos comandos militares e, inclusive, de oficiais que teriam extorquido Ariza. A outra indica que os comandos, sabendo do que Ariza fazia, o teriam utilizado para vazar informação falsa para o Chile.

Em novembro, quando o promotor Jorge Chávez Cotrina, especializado em crime organizado, se encarregou do caso, Ariza desmoronou durante os interrogatórios e confessou suas atividades ilícitas. Inclusive forneceu as senhas necessárias para decodificar os dados encontrados em seus computadores. A polícia revistou dois imóveis de Ariza e lá encontrou computadores e documentos secretos da Força Aérea.

Ariza confessou que entre os documentos que havia vazado para o Chile encontrava-se o plano estratégico da Força Aérea, que contempla aspectos como as futuras aquisições da força e os planos para repotencializar o armamento. Ariza narrou que um dia tirou o documento de seu escritório, o fotografou página por página, o passou a seus contatos chilenos e o devolveu no dia seguinte. Via correio eletrônico, os contatos chilenos lhe pediram dados específicos sobre a condição operacional das aeronaves peruanas e os planos para repotencializá-las. Demonstraram, especialmente, muito interesse pelo projeto de renovação dos caças Mig-29 de origem russa.

Quando lhe perguntaram por que fez isso, Ariza afirmou: "Em primeiro lugar, por desafeto à instituição a que pertencia, já que fui vítima de maus-tratos psicológicos durante 2000 e 2001, e também por problemas econômicos". Ele enfrenta uma condenação de até 35 anos de prisão.

As suspeitas de que o suboficial é apenas uma parte de uma rede de espionagem foi reforçada quando este declarou que seus contatos chilenos recriminavam sua lentidão. "De todos você é o mais lento", lhe disseram certa vez, segundo conta no relatório. Outro suboficial peruano foi denunciado por espionagem e mais dez militares, aproximadamente, estão sendo investigados.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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